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“Eu quero ir para fazer história”, diz Ciro Gomes sobre 2022

Ciro Gomes (PDT) diz que a disputa eleitoral de 2022 deve ser a última dos seus quase 40 anos de vida pública. Suas ideias para o Brasil são ousadas, mas, ele garante, exequíveis.  “Eu não estou disposto a vender a alma para ser presidente do Brasil. Eu quero ir para fazer história”, disse o ex-ministro e ex-governador em entrevista ao O Otimista

Nathália Bernardo
nathalia@ootimista.com.br

Com quase 40 anos de vida pública,  Ciro Gomes (PDT) se prepara para disputar o que acredita ser a sua última eleição. Será, em 2022, a quarta tentativa de chegar à Presidência da República, depois de ter ficado em terceiro lugar em 2018, com mais de 13 milhões de votos. A persistência, diz, não significa que vale tudo. “Eu não estou disposto a vender a alma para ser presidente do Brasil. Eu quero ir para fazer história”. Ele explica fazendo um apanhado, avaliando que as crises econômicas puseram fins dramáticos a todos os governos brasileiros desde a década de 1980. “De que adianta eu beijar a cruz, prometer o que eles prometeram e sair desmoralizado?”

Para seguir caminho diferente, a proposta é ousada. Num País que optou por um governo neoliberal há dois anos e encara o que deve se consolidar como a maior crise econômica da sua história, Ciro quer retomar o papel do Estado como indutor do desenvolvimento. Isso inclui propostas politicamente delicadas, como taxação de grandes fortunas e redução de isenções fiscais. A meta é alcançar R$ 3 trilhões adicionais em receitas em dez anos. “Você acha que o povo rico quer saber de mim? Não quer saber porque eu vou cobrar os impostos”.

Suas ideias para o Brasil estão no livro Projeto Nacional – O Dever da Esperança, lançado em junho e encontrado nas listas de mais vendidos. A obra propõe mudanças profundas, que ele classifica como exequíveis e capazes de colocar o País em níveis semelhantes aos da Espanha em indicadores sociais. Segundo o pedetista, no entanto, o conteúdo não se trata de um programa de governo, nem representam suas possíveis alianças.

Dessas, a propósito, já há um esboço, com PDT, PSB, PV e Rede atuando em conjunto. Também há aproximação com o DEM, de Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, quem Ciro diz “ter as qualificações” para vice, apesar das ainda existentes divergências econômicas. A relação também representa um passo rumo ao centro, para “diminuir a convergência (brasileira) à direita” e “atenuar o dano”, “porque o (presidente Jair) Bolsonaro precisa ser contido dentro das regras da democracia”, disse o ex-ministro e ex-governador do Ceará em entrevista ao vivo pelas redes sociais do O Otimista na semana passada. Confira trechos.

O Otimista – Na live de lançamento do seu livro, você fez uma afirmação muito forte, de que “o Brasil corre o risco de ser uma ex-nação”. O que significa isso?

Ciro Gomes – Uma nação é muito mais do que um monte de gente junta vivendo em um território. É preciso que essa gente divida tarefas, se apoie na construção de uma oportunidade mais igual para todo mundo e que isso seja respeitado pelo conjunto de interesses que caracterizam a relação internacional. A relação internacional em pleno século XXI ainda não é assentada no direito, é assentada na violência, no jogo da hegemonia tecnológica. E o Brasil, nesse momento, está perdendo em todos os campos. Nós temos uma dramática questão nacional por resolver e a luta política está dominada por ódios e paixões absolutamente superficiais.

O Otimista – O livro é um produto editorial. Mas pode ser um programa de governo para 2022?

Ciro – O livro é uma peça autoral. Ele é um apelo ao debate, é uma convocação à mudança de método da discussão, especialmente no campo progressista. Eu considero devastador para o momento histórico brasileiro o culto à personalidade, o desconhecimento que causou o fato de 70% do eleitorado do Sudeste, do Sul, do Norte e do Centro-Oeste votarem numa besta quadrada como o Bolsonaro, completamente despreparado, corrupto, ligado à família de bandidos etc. Ele (o livro) não representa o eventual programa de governo se eu for novamente candidato, não representa a média do pensamento das alianças que eu eventualmente possa fazer, mas é um documento da minha posição concreta em relação às questões do Brasil.

O Otimista – O Projeto Nacional é uma ideia de um novo Brasil. A sua proposta para a reforma tributária, por exemplo, revira o sistema atual do avesso. O que, nesse livro, é exequível em quatro anos?

Ciro – Tudo é exequível. E o prazo para executar a engenharia institucional ou se executa no primeiro ano ou não se executa pelos vícios do presidencialismo à brasileira. O presidencialismo em si traz uma semente de impasse porque, ao contrário do parlamentarismo, você pode ter um presidente eleito com um conjunto de ideias e, na mesma data, ter um parlamento cuja maioria pensa o oposto ou que tende a ser criptoconservador, operando na função do lobby. Modernamente, se resolve isso no parlamentarismo. Mas o brasileiro votou um plebiscito, portanto sequer uma emenda constitucional pode resolver isso, a não ser um novo plebiscito. Por que o parlamentarismo? Ele faz milagre? Não! Ele acaba esse impasse porque quem governa é a maioria parlamentar e, se ela fizer besteira, no desenho constitucional, a consequência vai cair no colo do gabinete que foi constituído por essa maioria. Aí você não espera quatro anos, ou entra em uma dinâmica de golpe ou de ruptura, em que o País está discutindo o terceiro impeachment. Evidentemente isso mostra a doença institucional que demanda uma reforma política. Eu tenho experiência, tenho capacidade, tenho segurança de que o Brasil pode virar o jogo. Eu sei onde é que estão R$ 3 trilhões em 10 anos pra virar esse jogo. Quero transformar o Brasil em 30 anos em uma Espanha do ponto de vista dos indicadores sociais, de renda, de desenvolvimento humano, de educação. Sei o quanto custa isso. Dá para entregar 1/6 disso em quatro anos, embora a virada seja a coisa politicamente mais delicada.

O Otimista – No livro, você faz referência aos anos de 1930 a 1980, quando o Estado foi o indutor do desenvolvimento, que tinha como base o endividamento. Agora, você diz que o Brasil vai quebrar de vez em setembro. Como o Estado vai induzir esse crescimento?

Ciro – Um país é uma instituição permanente, ele não fecha como uma loja. Essa é uma expressão para chamar atenção à gravíssima situação. O que aponto para setembro: 180 mil mortes é a projeção do Imperial College para o Brasil; 20 milhões de desempregados; déficit público estimado ao redor de R$ 917 bilhões e a dívida pública chegando perto do PIB. Então esse quadro é de absoluta iliquidez. O desenvolvimento não é produto de conversa fiada. Ele vem do consumo das famílias, que é responsável por 60% do crescimento do PIB, e esse consumo vem de emprego, renda e crédito. Vem do investimento empresarial, que só existe quando a capacidade de produção está chegando perto de 100% e (com) crédito. E, em momentos de depressão econômica, dizia o Lord Keynes, os governos devem pagar para o povo cavar um buraco e depois pagar para o mesmo povo tapar o buraco. Keynes, um extraordinário economista britânico, sabia que o capitalismo ciclicamente entra em colapso e quem tira é o investimento público. O Brasil está com o pior nível de investimento público da história e como a gente resolve esse quadro? Cortando despesas? Estabelecendo um teto de gastos por 20 anos? Isto é uma loucura, é preciso revogar essa coisa e criar uma dinâmica.

O Otimista – Nesses R$ 3 trilhões adicionais, você inclui medidas como taxação de grandes fortunas e redução de 20% nas isenções fiscais das empresas. Mas as isenções, claro que há distorções, são uma forma de o Brasil comprar emprego. O Ceará, com os incentivos, também compra emprego. Qual o risco de essas fortunas e empresas irem embora?

Ciro –  Com a fórmula que eu estou propondo, nenhum. Eu não falo imposto sobre grandes fortunas, eu falo sobre progressividade do imposto sobre o patrimônio. Se você faz uma alíquota pequena, de 0,5% a 1%, a conta tributária na remessa de dinheiro para fora é maior do que isso, então o camarada não vai sair do País. A alíquota tem que ser moderada e casada com uma regulação da conta de capital. Sobre comprar empregos e incentivo fiscal, sou campeão disso, criei o Fundo de Desenvolvimento Industrial do Ceará, evidentemente a ferramenta é útil, só que aqui, no Ceará, a gente mostra onde estão os empregos. Eu não estou propondo cortar os incentivos, eu estou propondo cortar 20 em cada 100. Já fizemos isso no Ceará, quando abriu a crise, antes de vir iliquidez, chamamos os parceiros e explicamos pra eles que, por um momento, precisávamos dar uma apertada para conservar a taxa de investimento. Aqui, ninguém está falando de atraso de funcionário, nem em arrocho salarial, pelo contrário, estamos expandindo os serviços.

O Otimista – Na sua avaliação o Bolsonaro termina o mandato?

Ciro – Eu não acho que o Bolsonaro termine o mandato dele, isso é um mero palpite. Ele pratica crime de responsabilidade, portanto o elemento jurídico (do impeachment) está dado, mas ele ainda tem 1/3 do apoio da opinião pública e, com isso, não há perigo de o Congresso dar 2/3 de votos contra ele, e ele está atuando na contramão do que falou, está comprando voto, se acertando com o centrão.

O Otimista – Suas afirmações sobre o lulopetismo são duras. Qual a sua visão sobre o PT no plano político partidário para as eleições municipais?

Ciro – Eu estou falando no lulopetismo corrompido, porque eu considero que há vários PTs. Por exemplo, eu apoiei aqui no Ceará e apoio com crescente entusiasmo e alegria por vê-lo fazendo um governo mais do que brilhante, extraordinário, o Camilo Santana, que é do PT. Eu apoiei o Rui Costa, da Bahia, na eleição de 2018. Apoiei o Wellington Dias, nosso vizinho aqui do Piauí, do PT. Tenho uma relação de muito respeito, muito carinho, por boa parte do PT. Estou procurando um caminho de reconciliação com nosso povo. Depois vejam o resultado das eleições presidenciais em São Paulo, berço do PSDB e do PT, vejam o humor do nosso povo. Se a gente não perceber isso, nós vamos cair numa estupidez de chamar o nosso povo de gado, de fascistas, e o resultado prático é que eles botam o Bolsonaro no mar e inventam um (Sérgio) Moro, um (João) Dória, um Luciano Hulk e mantêm essa linha de conservadorismo que está liquidando a nação brasileira.

O Otimista – Você pensa em se repaginar para disputar a eleição de 2022?

Ciro – Eu não estou disposto a vender a alma para ser presidente do Brasil, eu quero ir para fazer história. Eu terminei a Prefeitura de Fortaleza precocemente como o prefeito de capital melhor avaliado no Brasil, terminei o Governo do Ceará como o governador melhor avaliado no Brasil. Se você olhar, quando quebra a economia nos anos 1980, de lá pra cá, todos os regimes se desmoralizaram. A ditadura acabou por causa da crise do anos 80, que veio com inflação, desemprego, e desmoralizou o regime militar e o Tancredo Neves vem. O Sarney se desmoraliza na superinflação, dá passagem ao Collor, que é impedido, que veio com o neoliberalismo tosco, dá passagem ao Fernando Henrique, que vem com neoliberalismo elegante, se desmoraliza e o PSDB nunca mais ganha uma eleição nacional. Eu ganhei a eleição do (Geraldo) Alckmin em São Paulo, com 35 segundos na televisão, sozinho, com um vice do meu próprio partido, porque o Lula me isolou no processo eleitoral. Guerra é guerra, só não venha depois pedir para ser amiguinho. Eu não vou me queixar, mas sei jogar o jogo. Se desmoralizou o Fernando Henrique, na sequência entra o Lula e olha no que deu. Só eles, que estão fanatizados, não viram: o Lula foi preso, condenado em segunda e terceira instância e a Dilma (Rousseff) perdeu o mandato. De que adianta eu beijar a cruz e prometer o que eles prometeram e sair desmoralizado? Eu não tenho natureza para isso, eu vou propor uma saída. Você acha que o povo rico quer saber de mim? Não quer saber porque eu vou cobrar os impostos. Se o povo brasileiro quiser, eu estou na área, pedindo a bola.

O Otimista – Como está a relação do PDT com o DEM, do Rodrigo Maia, que saiu do Centrão?

Ciro – Estou pensando em um núcleo duro, que já está organizado, já estamos operando eleitoralmente juntos, que é PSB, PDT, PV e Rede. Já temos um acordo para operar juntos na política nacional, no Congresso e nas eleições municipais. Porém a nossa aliança depende de uma inflexão ao centro, com uma dupla tarefa: diminuir a convergência à direita, é assim que se age, tem que decompor o adversário. No Centro, estamos muito interessados em aprofundar o diálogo com DEM, porque o Bolsonaro precisa ser contido dentro das regras da democracia, a gente tem que atenuar o dano.

O Otimista – O Rodrigo Maia é um bom vice?

Ciro – Ele tem as qualificações, o problema é que assessoria econômica dele é muito, muito atrasada sob o ponto de vista da teoria econômica. Não é atrasada sob o ponto de vista do (Paulo) Guedes que parou de estudar. É atrasada sob o ponto de vista dos valores, eu tenho conversado muito com ele e ele, a cada dia, me ouve mais.

O Otimista – Você surpreendeu ao anunciar apoio à candidatura do Elmano Freitas, do PT, em Caucaia. Essa pareceu ser uma opção pessoal e não do seu grupo político. Em Fortaleza, o PDT tem cinco pré-candidatos. Qual o seu preferido?

Ciro – Tudo o que eu faço eu comunico aos meus líderes. A minha razão é de espírito público. Estou muito preocupado porque o prefeito de Caucaia, Naumi (Amorim, PSD), não está bem nas pesquisas, pode melhorar, até liguei para ele para comunicar a minha decisão. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo em Caucaia. Com o potencial de fazer parte do Complexo do Pecém, enquanto São Gonçalo está explodindo de progresso, Caucaia está tendo muita dificuldade. Acho que dado o amadurecimento do Elmano, a seriedade com que eu sempre o tratei mesmo sendo adversários, faz dele uma opção. Aqui, em Fortaleza, foi um filtro que poderia ter Mauro Filho, André Figueiredo. Qualquer cearense sabe que eu me esforço para preparar quadros. Eu vou disputar provavelmente a minha última eleição agora à Presidência da República, sei lá o que Deus planeja para mim. Vou morrer trabalhando pelo Ceará. Mas estou preocupado em formar quadros. Fizemos uma peneira e chegamos a alguns perfis. Tem o Samuel (Dias), que é um super executivo, conhece tudo na administração. Tem o Ferruccio (Feitosa), que é um super executivo, tem conexões com o esporte e teve grande sucesso na administração da Copa do Mundo. Temos o (José) Sarto, que conhece Fortaleza como a palma da mão, é um médico, conhece a dor da periferia, é líder de líderes, preside a Assembleia. Tem o Salmito (Filho), que foi secretário do Roberto (Cláudio), conhece a administração, é extremamente preparado intelectualmente, foi presidente da Câmara. O Idilvan, que vem de uma ligação extraordinária com a educação, ele é um caso à parte porque ele não tem simpatizante, ele tem uma igreja, e merece porque é uma figura absolutamente extraordinária, de origem humilde, que fez um trabalho que é mencionado internacionalmente na educação do Ceará. Queremos, com isso, oferecer a Fortaleza alguém que seja capaz de garantir o que nós conquistamos, mas que tenha moral pra dizer: “O que precisa mudar? O que nós podemos conservar?”. Além disso, um segundo motivo para o voto: não podemos deixar que nossa querida Fortaleza seja controlada pelo bolsonarismo corrupto, que vai ter candidato aqui. Qualquer um deles vai ser escolhido nessa dinâmica, a gente vai ouvir a sociedade cearense.

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