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Retomada de aulas requer protocolos e conscientização

Infectologista, epidemiologista e especialista em coronavírus recomendam adoção de regras para cada ambiente das escolas e implementação de rodízio, entre outros aspectos. Diálogo da família com alunos é essencial. Governador Camilo Santana afirma que não há data para reinício

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Foto: Agência Brasil

A volta de aulas nas escolas e universidades públicas e privadas ainda representa desafio para as autoridades do poder público, uma vez que ela requer acompanhamento de protocolos sanitários rigorosos.

Para o virologista e especialista em coronavírus, Luiz Gustavo Góes, o principal desafio está nas estruturas que as escolas brasileiras possuem para dar conta da nova dinâmica organização que se faz necessária.

“Muitas salas têm o sistema de ar fechado, o que faz com que o vírus fique mais tempo circulando no ambiente, aumentando a capacidade de novos contágios, caso haja uma pessoa infectada”, explica o pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP).

Para a epidemiologista e membro do Grupo de Trabalho de enfrentamento à covid-19 da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Thereza Magalhães, o tamanho das salas é outro fator a ser considerado. “Será preciso uma nova diagramação para que as carteiras estejam com pelo menos 1,5 de distância das demais em todas as direções”, indica.

Redução de riscos
A fim de que se cumpra o distanciamento mínimo em escolas e universidades, Thereza recomenda a adoção do modelo de ensino híbrido, já adotado em outros países que retornaram às atividades escolares. A epidemiologista aconselha que as turmas sejam divididas e parte dos alunos matriculados vá à escola nos dois primeiros dias, com um intervalo na quarta-feira para desinfecção, e, a outra parte vá às quintas e sextas-feiras. Enquanto os estudantes não estivessem na escola, as aulas poderiam continuar ocorrendo de maneira remota.

“A limpeza e o modo de se portar nas salas de aulas não é o mesmo que nas cantinas. Por isso, é preciso que os protocolos sejam rigorosos e preparados para lidar com essas especificidades”, detalha o virologista. Ainda segundo o pesquisador, filtros de ar específicos podem ser uma alternativa para limpar o ar e diminuir risco de contágio e pode haver a abertura de entradas de ar para que o ambiente possa ser arejado constantemente.

“É possível também que se estabeleça a ordem para nenhum aluno ir à escola caso apresente algum sinal de sintomas gripais. O ideal, caso os sintomas se manifestem, é fazer o exame para ter a certeza e colocar todas as pessoas que tiveram contato com o aluno em quarentena, caso resultado seja positivo. É preciso levar em consideração os contatos feitos fora do ambiente escolar”, acrescenta Góes.

Engajamento familiar
O virologista e a epidemiologista da Uece aconselham que o retorno das aulas seja gradual, começando por séries específicas, para que a movimentação nas escolas não seja tão intensa. “Se a criança estuda em tempo integral, deve levar uma quantidade maior de máscaras, para trocar quando o material estiver úmido. É importante portar álcool gel 70%, pois nem sempre o aluno poderá fazer a devida higienização das mãos”, destaca Thereza.

Os especialistas afirmam que a conscientização dos alunos para o novo modelo comportamental nas escolas deve ter o apoio dos familiares, com indicações para preparação do lanche em casa, recomendações para que os alunos evitem o compartilhamento de materiais e contatos físicos. “É preciso que os estudantes entendam que as regras terão que ser seguidas até que tenhamos uma vacina”, acrescenta a infectologista, Sylvia Hinrichsen.

Datafolha no Nordeste
Pesquisa divulgada pelo Datafolha por volta do último dia 20 mostrou que, no Nordeste, 74% dos pais e responsáveis por alunos são contra a retomada das aulas presenciais, mesmo sob pena de postergar o ano letivo. Ainda segundo a referida pesquisa, 72% dos entrevistados relataram sentir medo de que alunos acabem se infectando.

Durante transmissão ao vivo nas redes sociais na noite de ontem sexta-feira (24), o governador Camilo Santana afirmou que terá reuniões com representantes das escolas, professores, pais e alunos, ao longo da semana que se inicia, para discutir o cenário de retomada.

Em comparação com outros países, segundo Sylvia, também consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o Brasil, de modo geral, terá grandes dificuldades de concretizar a retomada escolar presencial. “Os brasileiros gostam muito de contato físico. As crianças podem até seguir as regras no começo, mas será muito difícil privá-las do contato próximo com os amigos depois de tantos meses”, defende Sylvia.

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