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Quais os desafios de fazer valer o novo decreto na periferia de Fortaleza?

Locais onde letalidade apresenta-se maior, bairros em situação de vulnerabilidade são os que mais descumprem isolamento social e necessitam de atendimento do SUS. Especialistas falam de medidas que podem ser exitosas

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Frente ao novo decreto que entrará em vigor amanhã (8), o poder público espera diminuir o índice de transmissão pelo novo coronavírus, restringindo atividades de deslocamento em áreas públicas e na dinâmica de estabelecimentos.

A decisão, contudo, encontrará desafios de adesão por parte da população periférica de Fortaleza. Essa fatia da sociedade acaba se expondo mais ao vírus, adverte o biólogo e epidemiologista Luciano Pamplona. Tais costumes se refletem no número de casos e no índice de letalidade da doença nos bairros onde moram pessoas com menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) da Capital.

Análise realizada pela reportagem com base no boletim epidemiológico semanal divulgado pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) na última segunda-feira (4) aponta que os dez mais altos índices de letalidade da covid-19 estão em bairros de vulnerabilidade social. A concentração das maiores taxas de letalidade da doença na Regional I chama atenção: Jardim Iracema (24,32%); Cristo Redentor e Farias Brito (23,07%, cada); Álvaro Weyne (21,6%); Jardim Guanabara (20,58); e Monte Castelo (20,51%) têm os maiores índices de mortes.

Aglomerações
Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Pamplona considera acertadas as decisões do novo decreto, mas pondera a necessidade de reforçar monitoramento nas periferias, onde se observa maior fluxo de pessoas em deslocamento. “Na periferia, reside grande parte da população que utiliza o SUS. É preciso que haja maior adesão ao isolamento nessas áreas para não demandar tanto atendimento do sistema de saúde, como já está sendo”, reflete.

Aglomerações registradas em agências bancárias da Caixa, desrespeitando o distanciamento mínimo de 1,5 metro, pioram o cenário. “É impossível dizer para as pessoas não irem buscar seus benefícios. Falar em isolamento social ou lockdown diante da superlotação dos bancos é impossível”, endossa. A solução, segundo Pamplona, é descentralizar o atendimento para outros bancos, como forma de agilizar o pagamento do auxílio emergencial, objetivando fragmentar aglomerações em um número reduzido de agências, além de evitar grandes deslocamentos.

Alternativas
Doutor em Economia e professor da UFC, Jair Andrade considera que novas medidas poderiam ajudar economicamente pessoas que ficaram sem emprego durante a pandemia ou passam por dificuldades. “O Ministério da Economia poderia fazer convênio com bancos privados para cadastrar pessoas aptas ao recebimento, tornando o processo eficiente”, sugere.

Andrade indica que sejam reforçadas políticas de cunho assistencialista. “As medidas econômicas de curto prazo são reforçar distribuição de renda e alimentos para que famílias carentes não precisem sair para trabalhar.” Ambos destacam a importância de continuar investindo em ações de conscientização com campanhas educativas.

É necessário construir um sentido único de isolamento
Para o professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e doutor em Sociologia, Wellington Maciel, as autoridades públicas estão lutando para além da covid-19 contra mudança de hábito e cultural radical. “Reduzir a superlotação do sistema de saúde e capacitá-lo em tempo hábil significa correr contra o tempo”, analisa.

“O Estado, médicos e equipes sanitárias têm que tocar as mentes e o coração da população da existência de um sentido único para o isolamento social, com ações coordenadas e orientadas para garantir eficácia”, opina.
Segundo o docente, as ações, porém, esbarram em problemas estruturais e de ordem comportamental. Pessoas com maior escolaridade e acessos culturais conseguem captar de forma clara a importância do isolamento, explica Maciel.

“Em uma sociedade completamente segregada e altos índices de analfabetismo, é muito difícil que as pessoas entendam da mesma forma o código cultural do isolamento social.”

Estudo científico
Pesquisa realizada pelo grupo de Ciências Sociais e Cidade, do curso de Ciências Sociais da Uece, concluiu que os fortalezenses têm práticas diferentes de isolamento. “Uns usam máscara, outros fazem uso apenas do álcool gel ou diminuíram saídas de casa. A grande questão agora é unificar e acionar tudo que estiver disponível.” Discordâncias postas pelo presidente Jair Bolsonaro, decisões parlamentares e fake news dificultam o processo de sentido coletivo do isolamento, ressalta Maciel.

Peculiaridades da forma como as relações afetivas e sociais se desenvolveram na periferia também se refletem na aplicabilidade de medidas incisivas. “Temos sociabilidades diversas na periferia: o uso de calçadas, a brincadeira de futebol no campo improvisado, o espetinho na esquina. Essas peculiaridades acabam sendo empecilhos diante do que estamos vivendo”, pontua o sociólogo.

Uma resposta para “Quais os desafios de fazer valer o novo decreto na periferia de Fortaleza?”

  1. Acrescento aqui minha opinião quanto ao recebimento do auxílio emergencial para a população carente. O governo deveria fazer uma parceria com mercantis e pagar nos caixas, seria uma maneira de não ter tanta gente nas filas dos bancos e respeitar o distanciamento social, pois teriam mais locais e assim destribuir a população não aglomerando nos bancos e lotérica.

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