Panorama

Mirem-se no exemplo de Francisco?

Tunay Moraes Peixoto
tunaympeixoto@ootimista.com.br

Evocando o exemplo de paternidade de São José, o Papa Francisco exortou, nesta semana, a busca constante pelo diálogo e o respeito às diferenças entre pais e filhos. A declaração foi mais uma demonstração de que há disposição de parte da Igreja Católica para um diálogo maior com a sua comunidade LGBTQIA+ (a despeito de declarações anteriores como “Deus não pode abençoar o pecado”, quando da proibição de bênçãos em uniões de pessoas do mesmo sexo).

Na audiência geral, realizada semanalmente e com a presença de fiéis, o pontífice disse: “pais que veem orientações sexuais diferentes nos filhos, como lidar com isso e acompanhar os filhos e não se esconder no comportamento de condenação. (…) Pensemos em como ajudá-los. A esses pais eu digo que não se espantem. Há muita dor, muita, mas pensem no Senhor, pensem em como José resolveu os problemas e peçam a José que os ajude. Nunca condenar um filho”.

O que o Papa não considerou na sua reflexão é que a aceitação da orientação sexual não é um direito dos filhos – que não tiveram a sorte de terem nascido correspondendo a expectativa dos pais sobre a sexualidade que não é deles, diga-se de passagem – mas sim um dever de quem se dispõe a colocar uma outra alma no mundo.

Apesar de parecer uma sinalização positiva, essa condescendência papal não deve ser lida como uma vitória da comunidade LGBTQIA+, mas sim como mais uma leitura acertada de Francisco sobre a necessidade de renovação e inclusão na Igreja Católica, reencontrando os valores basilares defendidos por Jesus Cristo. Afinal, foi essa capacidade de interpretar os sinais dos tempos que o levou à vitória no conclave de 2013.

Edição pedagógica
Apesar das críticas em relação à ausência de “tretas”, a edição atual daquele reality que todo mundo ama odiar – sim, estou falando de Big Brother Brasil – tem cumprido um papel pedagógico importante. Linn da Quebrada, que tem uma coroa de espinhos e o pronome “ela” tatuado na testa para lembrar este respeito que os pais têm obrigação de oferecer, tem sido a principal professora da edição. Mesmo para os participantes que, escolarizados, viajados e com fácil acesso à internet, se recusam a procurar saber como se deve tratar uma pessoa trans, escondendo-se com a desculpa esdrúxula “ninguém me ensinou”. E se tem algo que aprendi com as pessoas militantes é que ninguém é obrigado a ser editor de wikipedia sobre racismo, homo e transfobia, machismo, entre tantas outras posturas equivocadas que podem ser sanadas com uma breve pesquisa no Google. Espero que Linn possa contar com a mesma paciência e compreensão que ofereceu quando vacilar.

O dia D
Nesta sexta-feira, finalmente o ex-ministro de Bolsonaro, ex-juiz e ex-advogado de empresas implicadas nos casos que julgou durante a famigerada Operação Lava Jato (sim, esta primeira oração é propositalmente tão confusa quanto a sua atuação), Sergio Moro, vai revelar quanto ganhou para atuar na banca Alvarez & Marsal. A empresa embolsou R$ 65,1 milhões para elaborar planos de recuperação judicial das empresas falidas pela Lava Jato e contratou Moro logo após o seu barulhento divórcio com Bolsonaro. Constrangido pelo TCU, Moro se viu obrigado a revelar a quantia antes que a justiça o impusesse. Mesmo assim, precisou de dois dias entre o anúncio da revelação e a revelação de fato – se é que esta última mesmo ocorrer – e sem dizer o porquê. Provavelmente, para criar mais uma narrativa, provavelmente tão rocambolesca quanto as anteriores, para justificar o injustificável.

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