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Heterogeneidade da covid-19 explica longa permanência do platô de óbitos no Brasil

Pesquisadores ouvidos pelo O Otimista afirmam que o vírus se espalhou de maneira diversa no País, fazendo índices de mortes ocorrerem em momentos distintos. Políticas de enfrentamento divergentes contribuíram para situação nacional

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Continuidade de medidas sanitárias segue como relevante para conter a doença (Foto: Edimar Soares)

Levando em consideração período entre as semanas epidemiológicas (SE) 22 e 31, divulgadas pela Secretaria de Vigilância em Saúde, pasta vinculada ao Ministério da Saúde, o Brasil está a 70 dias vivendo o platô de óbitos decorrentes da covid-19. A curva de mortes começou a se comportar de forma estável a partir do dia 24 de maio e segue caminho linear desde então.

Entre os cinco países (Estados Unidos, Brasil, Índia, México e Colômbia) com maior número de mortes causadas pelo vírus, o Brasil é o que está há mais tempo em estágio de estabilidade, apresentando apenas pequenos aumentos e diminuições no decorrer das atualizações.

O pico brasileiro alcançado após a chegada ao platô foi registrado entre os dias 19 e 25 de julho, quando foram notificados 7.677 desfechos fatais confirmados. Epidemiologista e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Guilherme Werneck afirma que a permanência do País neste patamar é resultante da distinção dos períodos epidêmicos encontrados nas diferentes regiões.

“Uma questão importante para entender este equilíbrio é saber que os dados do Brasil inteiro refletem uma combinação de epidemias instáveis e diversas, que ocorrem de maneira disformes nas capitais, regiões metropolitanas e no Interior”, ressalta.

Professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), Werneck afirma que os tempos distintos da epidemia fazem com que o número se mantenha estável, à medida em que uma região decresce o número de óbitos e outra aumenta, perdurando o platô por mais tempo.

Em concordância, o epidemiologista e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Antônio Augusto da Silva destaca que o tempo de início da epidemia foi diferente em quase todos os estados brasileiros. “Enquanto quase todos estados do Norte e Nordeste já passaram pelo pico de casos, como é o caso do Ceará, Manaus, Sergipe e Maranhão, lugares como Paraná e Santa Catarina estão enfrentando crescimento”, pondera.

Cenário deve seguir
Estados que foram mais eficazes em cumprir medidas de isolamento no início da pandemia, de acordo com o docente, conseguiram atrasar a chegada do vírus. “Por outro lado, acabaram retomando as atividades econômicas muito cedo, o que pode justificar o aumento com um certo atraso”, acrescenta.

“Estamos vivendo diversas situações da pandemia e isto não ocorre somente no Brasil”, avalia Sylvia Lemos Hinrichsen, médica infectologista. Consultora da Sociedade Brasileira de Infectologista (SBI), Sylvia ressalta que, quanto maiores forem as chances de exposição ao vírus, mais altas serão as chances de agravamento dos pacientes sintomáticos e, consequentemente, aumento no número de óbitos.

Sylvia afirma que é difícil prever quando o Brasil sairá do platô e começará a decair o número de óbitos diários. Por outro lado, segundo o epidemiologista, o número não deve mais subir da forma como ocorria no início da pandemia. “Os últimos estados estão vivenciando os picos restantes de casos e não tem mais muitos lugares que a epidemia possa ir. Após chegar nos interiores, a tendência é que os números baixem”, prospecta.

Até sexta-feira (7), conforme boletim do Ministério da Saúde, 99.572 óbitos decorrentes da covid-19 foram registrados em território nacional, resultando em uma taxa de letalidade (número de mortes pelo total de casos) de 3,4%. A mortalidade (quantidade de óbitos por 100 mil habitantes) chegou a 47,45%.

Políticas distintas contribuem para platô
Especialistas afirmam que a falta de políticas efetivas que abarcassem o Brasil de modo geral, desde o início da pandemia, contribuem para a continuidade do número de óbitos elevados. “A falta de articulação e liderança, sem dúvidas, contribui para o cenário atual”, afirma Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“Quando se pensa na população mais pobre do País, que tem sido duramente afetada, eles anseiam por um direcionamento e precisam ouvir isso por uma mensagem única e clara. Se muitas pessoas estiverem dizendo coisas diferentes, eles vão se guiar por suas próprias ideias e podem acabar morrendo”, ressalta Werneck.

De acordo com epidemiologista, o Brasil necessita de um trabalho em conjunto para mudar este cenário. “A testagem continua sendo muito importante para isolar os casos confirmadas e barrar contágios. Sem um trabalho efetivo, fica mais difícil intervir”, completa.

Negacionismo pesou
O epidemiologista Antônio Augusto da Silva afirma que a postura negacionista assumida pelo Palácio do Planalto acabou abrindo margem para que a situação fosse conduzida de maneira discrepante. “Se comparar São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, houve uma certa harmonia entre os âmbitos municipal e estadual, o que resultou no achatamento do pico de casos e fechamento mais homogêneo. No Rio de Janeiro, ocorreu o contrário e o pico de casos foi mais precoce”, analisa o professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

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