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Excelsior: primeiro arranha-céu de Fortaleza reabre ao público com salas comerciais

O Edifício Excelsior está disponibilizando todo o seu primeiro andar para locação de salas comerciais. A iniciativa é do cônsul geral honorário da Hungria, Janos Fuzesi Junior, único herdeiro vivo de Emílio Hinko e proprietário do prédio icônico

(Foto: Denis Santana)

Lara Veras
lara@ootimista.com.br

O primeiro arranha-céu de Fortaleza está recebendo o público outra vez! Edifício histórico, inaugurado em 31 de dezembro de 1931, o Excelsior está disponibilizando todo o seu primeiro andar para locação comercial. E parece que essa iniciativa é apenas o começo até que esteja em pleno vapor o funcionamento total do empreendimento.

Como marco de um novo tempo que chegava à capital cearense por ter sido um dos primeiros hotéis da cidade, o Excelsior Hotel começou a ser construído em 1927, por iniciativa do Sr. Plácido de Carvalho, após a demolição de um enorme sobrado de 3 andares, que pertencia ao comendador José Antônio Machado.

O equipamento é memória viva da capital alencarina, como relata o arquiteto Delberg Ponce de Leon. ”Nasci e vivi próximo ao centro da cidade e minha frequência naquele miolo era pelo menos semanal para ver com a família as vitrines das lojas. No início dos anos 60, passou a ser meu caminho para as aulas no Liceu do Ceará. O quarteirão do Excelsior tinha a cara do que chamamos hoje de shopping center”, descreve.

Entre 1931 e 1950, o hotel hospedou toda grande personalidade que visitou o Ceará. Algumas que circularam pelas suas requintadas acomodações foram o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o brigadeiro Eduardo Gomes, além da aviadora Amélia Earhart (primeira mulher a realizar um vôo ao redor do Globo).

Estilo
Quanto ao estilo, até hoje não se pode definir as linhas arquitetônicas do prédio. Alguns consideram tratar-se de um estilo barroco, meio rococó, e outros de art-nouveau, que se caracteriza por suas fachadas bem trabalhadas, muito ao estilo do fim do séc. XIX e início do séc. XX. Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU-CE), Lucas Rozzoline, “é possível observar a relação híbrida, transitória que o arquiteto húngaro, Emílio Hinko, imprimia em suas obras: repertório historicista conjugado ao moderno”, narra.

Para o conselheiro federal do CAU-CE, Márcio Carvalho, é importante fazer o exercício interpretativo e de construção de narrativa acerca da edificação, de seus aspectos tipo-morfológicos e de seu relevo histórico. “É muito mais adequado observar o contexto social, cultural e político em que ele se inseria em busca dos trânsitos e fluxos culturais. A obra oscila entre o anacronismo e o vanguardismo e isso ratifica o seu valor, a sua unicidade”.

Plácido vem a falecer em 5 de junho de 1935 e sua viúva, a italiana Pierina Rossi, contrata o arquiteto húngaro Emilio Hinko para construir seis casas. Em 1938, após o término das obras, os dois se casam. Ela morre em 1957 e após seu falecimento o hotel é arrendado. Entre os parentes de Plácido, está o único herdeiro vivo do arquiteto no Brasil, o cônsul geral honorário da Hungria, Janos Fuzesi Junior, hoje proprietário do Excelsior.

“Estamos projetando um residencial”
No primeiro andar do Excelsior foi feito um retrofit, sendo mantidas as características originais do prédio, garante p proprietário Janos Fuzesi Junior. Com cozinha, salão principal de 200m², banheiros, recepção e barbearia, o pavimento disponibiliza 12 salas, de 18m² cada, para aluguel comercial.
Também já conhecido como um dos principais pontos do Natal de Luz, o futuro do prédio compreende essa continuidade da ação, que também acontece lá. De acordo com o proprietário, o empreendimento deve ajudar a viabilizar o comércio local.

“Para depois, estamos projetando um residencial com alguns serviços. Vamos fornecer, dentro da locação, internet, TV por assinatura, cozinha coletiva, coworking e tudo será voltado preferencialmente para os comerciantes e comerciários que já estão trabalhando ali no entorno, com o intuito de fixar mais moradias do Centro de Fortaleza. Aí as pessoas evitam de fazer um deslocamento de cerca de uma hora para o trabalho e depois de volta para casa. Isso dá, por mês, 48h produtivas. É mais ou menos 25% da vida laboral de uma pessoa. A gente pressupõe uma qualidade de vida nisso. Além da redução da emissão de gás carbônico, com o trânsito a pé”, revela Janos.

E como o uso é o maior defensor da preservação do bem, a continuidade é defendida por Lucas Rozzoline, afinal sem utilidade não há manutenção. “Faz parte de uma paisagem-postal. A sua imponência pioneira hoje é mimetizada num entorno igualmente denso e vertical. É importante falar do uso pontual da época natalina. Isso demonstra outro posicionamento, ressignificação e apropriação diante de seu funcionamento ordinário”.

Todas essas ações que estão sendo desenvolvidas no tradicional Excelsior, também devem ocupar melhor o Centro da Cidade, há anos sendo marginalizado. Valorizar o lugar é preservar a história local. A nova identidade está sendo bem recebida por quem conhece essa história.

“O Edifício Hotel Excelsior deve ser preservado e mantido em funcionamento, descobrindo-se sua nova vocação. Defendo, inclusive, seu tombamento por algum órgão público municipal, estadual ou federal”, pontua Delberg Ponce de Leon.

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