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Entusiasmo e esperança: amor pelo time em tempos de pandemia

Cearenses apaixonados por seus clubes do coração falam da experiência de ficar longe das arquibancadas e da expectativa de um possível retorno. Epidemiologistas defendem que retomada seja diferente da dos demais setores

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Em lados opostos na torcida, mas de acordo sobre retorno: para os dois, volta a estádios seria prematura (Foto: Edimar Soares)

Depois de cerca de seis meses sem sentir de perto a energia das partidas de futebol, o público pode estar na iminência de voltar aos estádios, após alinhamento de protocolo sanitário elaborado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e aprovado pelo Ministério da Saúde nos últimos dias, permitindo retorno de até 30% da capacidade de torcedores a arquibancadas.

Epidemiologistas, porém, chamam atenção para a importância de protocolos rígidos de segurança, a fim de evitar que a emoção das torcidas fale mais alto que a saúde dos torcedores.

Para o casal Eustáquio Neto e Riana Rocha, o sofá de casa se tornou a arquibancada para assistir aos jogos, que voltaram a acontecer em junho, sem a presença de torcedores, em meio ao cenário pandêmico. Juntos há nove anos, os noivos afirmam divergir em vários gostos, incluindo os times do coração: ele torce Ceará, e ela, Fortaleza por hereditariedade, de tanto que via o avô ouvir jogos do Leão no rádio de pilha.

Turismóloga e professora universitária, Riana, 34, comemora o arrefecimento da doença na Capital e afirma estar cumprindo as prerrogativas sanitárias para conseguir manter rituais de assistir às partidas ao lado do avô, Seu Joaquim Lima, de 91 anos. “Em condições normais, eu não teria receio de ir (ao estádio), mas não me sinto segura mesmo permitido, ainda mais por essa questão de cuidados com meus familiares que são do grupo de risco.”

Analista de tecnologia da informação, Neto, 36, recorda que já foi sócio-torcedor do Ceará e afirma que a experiência de assistir em casa não é tão atrativa quanto estar presencialmente em um estádio, porém compartilha do mesmo receio relatado pela companheira. “Pensar na arte do futebol sem torcida não é a mesma coisa. Futebol é encontrar com os amigos e fazer o famoso ‘frescar’ cearense com outros times, mas, diante do que estamos passando, ficar em casa é o melhor a se fazer”, acrescenta.

Sem outras pessoas para se confraternizar, os dois fazem como podem e aproveitam que ambas as equipes estão na Série A do Campeonato Brasileiro 2020. “Quando os dois times não estão se enfrentando, ele torce para o Fortaleza e eu para o Ceará”, conta Riana. A divergência nunca foi um empecilho para o casal. “Ela brinca com o meu time e eu com o dela, tudo de forma saudável”, relata Neto.

Retorno aguardado
Lívio Lobo, 36, torcedor fiel do Ferroviário, diz estar aguardando ansiosamente pela possibilidade de ver de pertinho o time entrar em campo. “Esse aval chega como um alívio, porque a gente que é apaixonado por futebol já está numa abstinência danada sem acompanhar o time como antes. A gente se sente mais seguro para sair sem deixar de seguir as recomendações básicas”, comenta.

O médico é daquele tipo de “torcedor raiz”, que já viajou para acompanhar o clube do coração em partidas importantes, como a final da Série B de 2018, em Campina Grande, na Paraíba. Com a pandemia, a casa se tornou o ponto de encontro para vibrar pelo Tubarão da Barra, figurando atualmente na Série C do Brasileirão. “Não dá para deixar de acompanhar o Ferroviário jamais. A gente reúne a família e transforma a sala da casa em um estádio”, define.

Cautela no retorno
Epidemiologista e professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lígia Kerr defende que o retorno das torcidas ocorra a partir da situação epidemiológica da doença em cada região. “O que me preocupa é o modo como será feita essa fiscalização para saber se as normas estão sendo cumpridas.”

A preocupação também é percebida pela epidemiologista Thereza Magalhães. “Os estádios são abertos, o que facilita a circulação de vento, mas tem as entradas e as bilheterias. Como fazer para não haver aglomerações nestes locais?”
“No Castelão, as pessoas poderiam ficar bem distribuídas, porém no PV (Estádio Presidente Vargas), que tem estrutura menor, esses 30% já ficaram de outra forma”, compara Thereza.

“Com as escolas voltando em outubro, se a gente tiver torcedores voltando aos estádios e bares também, pode se traduzir em riscos de novos casos”, argumenta Lígia.  Professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Thereza sugere que a retomada nos estádios não obedeça ao modelo dos demais setores.

“Se está permitido 30%, que fique assim por mais tempo e não aumente após 15 dias, como foi nos outros setores. Há muita animosidade e os torcedores são muito passionais”, justifica. “É preciso pensar que as torcidas são compostas, geralmente, por pessoas que não são da mesma família, ou seja, com históricos de riscos diferentes”, completa Lígia.

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