Panorama

Colapso em curso

Tunay Moraes Peixoto
tunaympeixoto@ootimista.com.br

Diferente do que os filmes hollywoodianos nos fizeram crer, o cataclisma não virá de uma hora para outra, não depende de um meteoro vindo dos confins do espaço desconhecido, ou de um maremoto, ou de um terremoto de proporções nunca vistas. Ao contrário: o colapso ambiental está em curso, não é preciso ser cientista para entender que eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes e intensos.

Apenas nestas duas primeiras semanas do ano, o Brasil viveu enchentes nos estados de Minas Gerais, Piauí, Maranhão, Tocantins e, novamente, na Bahia. Simultaneamente, uma frente fria fez o Sudeste ter dias de inverno em pleno verão. Mais ao sul e nos vizinhos Paraguai, Uruguai e Argentina, estão sendo registradas ondas recordes de calor, com temperaturas chegando perto dos 50°.

Vale lembrar que a região Sul do Brasil é castigada, há meses, pela seca. O Monitor de Secas da Agência Nacional das Águas (ANA) registrou em novembro “avanço da seca grave no norte do Paraná e no norte de Santa Catarina e o avanço da seca moderada no noroeste do Rio Grande do Sul”. Assim, toda a área de fronteira do Brasil com a Argentina, no Paraná e em Santa Catarina, enfrenta seca grave ou extrema, de acordo com os dados de novembro, os mais recentes disponíveis. Isto causou um prejuízo de R$ 45,3 bilhões ao agronegócio da região, de acordo com as federações de agricultura destes estados.

Atravessando o Atlântico, há poucos meses, improváveis enchentes na Europa deixaram mais de 200 mortos, sendo 177 só na maior economia do continente, a Alemanha. Bélgica, Itália e Romênia também sofreram com as chuvas. No ano anterior, foi a vez da África, com chuvas muito acima da média na Nigéria.

A falta que o planejamento faz
“O que vai aumentar não é a média da chuva ou da temperatura, o que aumenta são as oscilações em torno dessa média. Ou seja: os extremos, tanto para cima, quanto para baixo. As chuvas mais intensas e as secas prolongadas serão cada vez mais intensas. As ondas de frio e as ondas de calor também vão se tornar mais frequentes”. A afirmação do meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), feita ao podcast O Assunto, nos lembra que cabe a nós nos acostumarmos ao que, de fato, será o “novo normal”. Não é aceitável que as mudanças climáticas não sejam prioridade na agenda de planejamento urbano. Além do custo da prevenção ser infinitamente menor que o dos gastos emergenciais, há outras variáveis nesta conta: a suspensão das atividades econômicas, os possíveis desvios em contratações sem licitação para emergências, o trauma causado na população e, acima de tudo, as vidas perdidas.

É pra incomodar mesmo!
Mal fechou a boca e o presidente da França, Emmanuel Macron, viu a sua frase de efeito surtir o efeito desejado – sem trocadilhos. Nos primeiros dias do ano, uma declaração ao jornal Le Parisien causou alvoroço em todo o espectro político francês. “Para os não vacinados, quero muito irritá-los. E vamos continuar fazendo isso, até o fim. Essa é a estratégia”, disse, utilizando, inclusive, a expressão chula “emmerder”. Apesar do longo histórico de frases no mínimo equivocadas, Macron causa inveja aos brasileiros que têm bom senso. Afinal, quem dera termos também um presidente que se dedique a irritar quem não apoia a ciência e que compre briga com o parlamento para instituir medidas civilizatórias, como o passaporte vacinal. Quem dera termos também um presidente que honre o cargo e que trabalhe em prol da resolução da crise, não da sua extensão. Se bem que se tivéssemos um presidente que trabalhasse, já seria de bom tamanho.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS