Opinião

Vendedor ambulante – Totonho Laprovítera

A Aíla Sampaio.

“Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno.” (Charles Baudelaire)

Eu me dano quando escuto alguém afirmar que Fortaleza não tem história. Tem, sim! Agora, muitas passagens se perdem na efêmera memória daqueles que não dão o menor valor ao tempo passado, que tanto nos instrui a bem viver o presente e a idear um futuro melhor.

A propósito de minhas crônicas, eu gosto muito de contar as de costumes, as quais considero significativas por serem simples e corriqueiras. Assim, sinto-me como se estivesse falando em uma roda de amigos, daquelas em que de primeiro aconteciam nas conversas em cadeiras na calçada, ao entardecer do dia.

Bem, hoje eu contarei sobre Otelino, um antigo e escovado vendedor ambulante que tinha a mania de pensar em voz alta, repetidas vezes: – “Quem não pode, de vera, não quer… não pode, não quer… não pode, não quer…”

Certa vez eu li em matéria de uma surrada revista, daquelas disponíveis nas salas de espera de consultórios médicos, que os melhores exemplos de comunicação a gente encontra no meio da rua. É onde, sabendo identificar o público-alvo, cria-se demandas. E a lição mais evidente desse desenho é a de achar o que motiva o comércio. Aí, é perceber o negócio, suas necessidades, seus diversos atributos, e saber o momento certo para sua realização.

Pois bem. Ambulante é aquele vendedor que anda pelas ruas da cidade anunciando a sua mercadoria.

Quando a Governador Sampaio era a rua chique de Fortaleza, o ambulante Otelino alimentava um certo fascínio por Maria de Jesus, uma jovem senhora que se tornara viúva antes do tempo.

Sendo de boa e tradicional família fortalezense, De Jesus era bem guardada que só. Portanto, tornava-se bastante difícil a qualquer marmanjo furar o cerco composto pelo seu mal-encarado pai e corpulentos irmãos. Falar com ela, só de longe e olhe lá!

Daí, cheio de gracejos, Otelino pegava o seu tabuleiro de bem-talhada madeira, assentava-o no quengo protegido por uma encardida rodilha e, espalhando simpatia, saía para o exercício da sua rotineira labuta. Descia a ladeira da Visconde de Saboya, caía pela Praça dos Leões, virava à direita mais a frente, na Governador Sampaio, e abria o seu reclame pelas portas das faustosas casas. Quando chegava na da mirada viuvinha, ele lampejava os olhos e assim propagava: – “Ovo e uva boa! É da melhor qualidade!”

Aí, os guardiões da viúva surgiam nas janelas e Otelino, com um anêmico sorriso, levantava o pano que cobria a mercadoria no tabuleiro e continuava: – “Vai querer, freguês?!”

Era desse jeito.

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