Opinião

Um breve registro histórico da atuação dos três coronéis na política cearense – Edison Silva

Adauto Bezerra, o último dos
coronéis que governaram o Estado,
morreu no último sábado (3) (Foto: Youtube/ Reprodução)

Marcos Cals, ex-presidente da Assembleia Legislativa cearense, é o único herdeiro direto, com atividade política, dos três Coronéis que dominaram a política cearense, durante pouco mais de 20 anos, a partir de  1962, com a ascensão de Virgílio Távora ao Governo do Estado do Ceará. Virgílio representou a União Pelo Ceará, chancelada pelo ex-governador Parsifal Barroso, responsável pela única derrota de Virgílio em disputas eleitorais, em 1958, ano aliás em que Adauto Bezerra, representando o Cariri, conquistou o seu primeiro mandato de deputado estadual. César Cals, foi, dos três Coronéis, o que mais tardiamente, em 1970, começou a fazer política. Marcos Cals é seu filho, e hoje dirige o PP de Fortaleza.

César Cals era o menos ativo dos três Coronéis que governaram o Estado do Ceará. Foi o primeiro deles a ser governador por indicação dos Generais que tomaram o Poder Central em 1964. César teve o seu nome anunciado para o Governo em 1970, sendo o segundo da era militar, quando os governadores eram eleitos pela Assembleia Legislativa, após escolhido pelo General governante do País (o primeiro governador biônico do Ceará foi Plácido Aderaldo Castelo). Ao deixar o Governo, quatro anos depois, foi nomeado senador biônico, e logo depois Ministro das Minas e Energia. O seu suplente de senador, Almir Pinto, foi quem praticamente tirou quase todo o mandado de senador.

Adauto e Virgílio também foram governadores do Ceará por indicação de Generais. Adauto Bezerra sucedeu César do Governo ao ser nomeado pelo General Ernesto Geisel, antecedendo a Virgílio Távora, também nomeado por Geisel, em 1978. Adauto disputou o seu último mandato em 1986, quando foi derrotado por Tasso Jereissati, apoiado pelo governador da época, Gonzaga Mota, de quem Adauto era vice-governador. Virgílio disputou o seu último mandato de senador em 1982, morrendo no exercício do cargo. Já César disputou o voto popular uma única vez, em 1986, quando foi derrotado por Mauro Benevides para o Senado. Virgílio e César, ainda chegaram a eleger filhos deputados federais e estaduais. Adauto ajudou aos irmãos Alacoque, Humberto e Orlando. Alacoque foi suplente de Virgílio. Humberto chegou a ser vice de César.

Aliados e opositores entre si

Os três Coronéis eram, de fato, aliados e opositores entre si, embora, pontualmente, um apoiasse o outro para evitar o sucesso do terceiro. Dois momentos da política cearense comprovam essa relação deles. O primeiro foi quando César Cals, governador, quis eleger Edilson Távora senador, em 1974.  Virgílio e Adauto uniram-se para derrotar o candidato de César, ajudando a eleger Mauro Benevides. O segundo momento foi quando Adauto pretendia ser candidato a governador, em 1982. César, sem nome para concorrer, apoiou Virgílio, que tinha Gonzaga Mota como segunda opção (a primeira era Aécio de Borba), ficando Adauto com a vice. Adauto e César acabaram sendo derrotados, em 1986, com a ajuda de Gonzaga Mota, que ficou no Governo para investir nas candidaturas de Tasso (governador) e Mauro Benevides (senador).

63 anos de militância

Embora o ciclo efetivo dos Coronéis tenha findado com a derrota nas eleições de 1986, Adauto, morto no último sábado (3) continuou fazendo política, mas, unicamente por diletantismo (Virgílio morreu em 1988, no exercício do mandato de senador, e César Cals morreu em 1991). Em todas as eleições que aconteceram até aqui, Adauto tinha um lado na disputa majoritária, além de ajudar financeiramente a alguns amigos nas disputas proporcionais. Ele votou em Cid Gomes para Governador nas suas duas eleições, e em Camilo Santana, idem. Votou em Roberto Cláudio para prefeito de Fortaleza, e, em 2020 votou no Capitão Wagner. Adauto Bezerra foi o homem público de atuação mais longeva da política cearense: 63 anos de militância.

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