Opinião

Tribunal virtual: a cultura do cancelamento

Por
Marcília Simeão

Você já parou para pensar que a “cultura do cancelamento” fala mais de extremismo e punição do que de estímulos à atitudes coerentes e cidadãs? Os reflexos dos nossos comportamentos em tempos de relações digitais acerca do cancelamento como linchamento digital traz graves consequências.

Chamando a atenção principalmente nas redes sociais, a cultura do cancelamento se tornou uma enorme onda para incentivar pessoas a deixarem de apoiar determinadas pessoas ou empresas em razão de erro ou conduta reprovável. Inclusive, a definição da palavra “cancelar” resulta na ideia de “eliminar” e “tornar sem efeito”. Logo, o ponto negativo dessa “ação” está na anulação por completo. Não há sequer um diálogo ou uma busca para se colocar no lugar do outro.

A força coletiva virtualmente se empodera e fortalece para lutar contra aquela pessoa que cometeu tais atos negativos, estimulando uma rede de crucificação. No entanto, nós, que linchamos, temos o poder de sermos justiceiros?

Hoje, as pessoas consomem marcas e produtos não apenas pelo benefício que eles podem proporcionar, mas pela atitude que a empresa tem perante à vida e às causas de responsabilidades sociais. Cada vez mais os indivíduos e as organizações têm uma identidade, que representam como elas agem e acreditam, pois isso tem impacto no coletivo.

Não é à toa que, em 2019, “cultura do cancelamento” foi eleito o termo do ano pelo Dicionário Macquarie, que trabalha anualmente com o objetivo de selecionar as palavras e expressões que mais caracterizam o comportamento de um ser humano.

No entanto, como tudo na vida, a cultura do cancelamento também tem um bônus. Um dos pontos positivos apresentados por esse movimento é a indignação das pessoas em relação à situações que antes passavam despercebidas, como casos de machismo, preconceito, homofobia, racismo, entre tantos outros.

Logo, é sempre importante lembrar: o que cai na rede não é peixe, é viral. Seja anônimo ou celebridade, todos estão sujeitos ao linchamento virtual. Porém, é preciso entender que as pessoas não são apenas um discurso. Mesmo virtual, o linchamento é real.

Marcília Simeão é diretora da M. Simeão Serviços em Psicologia

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