Opinião

Todas as reuniões administrativas dos governantes brasileiros deveriam ser públicas – Edison Silva

O então ministro Ricúpero, que caiu no
famoso escândalo das parabólicas (Foto: José Cruz/ Agência Brasil)

Juruna (Mário Juruna), o indígena eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro em 1982, só andava com um gravador à mão, segundo ele, para registrar os acordos e promessas dos “homens brancos” nas questões relacionadas aos índios. Tinha razão. Em 1994, o chamado “escândalo da parabólica”, protagonizado pelo embaixador, à época ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, expôs o que acontecia e, como os fatos recentes confirmam, acontece de sujo na administração pública nacional.

O então ministro Rubens Ricúpero, esperava o momento de dar uma entrevista para a televisão, no fim da noite, e conversando com o jornalista que o entrevistaria, Carlos Monforte, afirmou: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Telespectadores que utilizavam as antenas parabólicas para a captação de sinais de TV, conseguiram ver e ouvir o ministro e, decepcionados ou vangloriados por testemunharem tamanho absurdo, propagaram a desfaçatez e o ministro caiu. Quem substituiu Ricúpero no ministério de Itamar Franco foi  o ex-governador cearense Ciro Gomes.

Na última quinta-feira (22) foi o primeiro aniversário daquela célebre reunião do ministério do presidente Bolsonaro, razão da antecipação da saída de Sergio Moro, até pouco tempo antes de sua realização, um dos dois mais importantes ministros do atual Governo (o outro é Paulo Guedes). Naquela oportunidade, cujos detalhes grotescos, inimagináveis para uma reunião ministerial, a maioria dos brasileiros, graças a uma decisão judicial, teve oportunidade de saber quão ingênuos somos na avaliação que fazemos sobre os responsáveis pela administração pública nacional, e por extensão as estaduais e municipais.

E alguns deles não parecem ter o constrangimento, que qualquer cidadão teria, ao saber da péssima imagem transmitida por aquela reunião. O encontro dos integrantes do Conselho de Saúde Suplementar, realizado na terça-feira (27), com três ministros do Governo presentes (o da Casa Civil, o da Economia e o da Saúde), cuja repercussão imediata não correspondeu com o seu negativo tamanho devido as atenções que se voltaram para a instalação da CPI da Pandemia, mostra a pequenez de determinadas pessoas que não deveriam estar em postos de tantas responsabilidades.

Transparência é obrigação

O ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, um general da reserva, dizer que foi escondido a um posto de vacinação contra a Covid-19, em Brasília, na busca da sua imunização, deixando dúvidas várias quanto ao motivo que o levou a esconder o seu objetivo. E por não ter sido claro, transparente como obrigatoriamente têm de ser os integrantes da administração pública, os brasileiros podem especular sobre as mais variadas razões para o seu assim proceder. A busca da vacinação, como a de qualquer outro meio lícito da procura de saúde, não é motivo para o cidadão envergonhar-se, e nem de temer a alguém que nela não acredita ou faz de conta que não acreditar.

Cidadão pode conhecer gastos

Paulo Guedes, o ministro da Economia, fazer declarações sem provas contra o surgimento do coronavírus e da principal vacina hoje aplicada no Brasil, inclusive nele próprio, assemelha-se, até certo ponto, ao ex-ministro Rubens Ricúpero em 1994, que à época, como Guedes hoje,  cuidava da economia nacional. Ainda estamos muito longe de governos realmente transparentes. Hoje, temos legislação que obriga o Poder público ser transparente em relação aos números. E neste campo estamos  bem. Querendo, qualquer brasileiro, no momento que lhe aprouver, facilmente conhecerá os gastos, detalhados, dos poderes do País.

Iniciativa popular tornaria obrigatória

Mas não há, e nem poderá haver, leis que façam alguns gestores do setor público honrarem a condição de verdadeiros cidadãs ou cidadãos. É possível, sim, por conta dessas situações idiossincráticas,  daqui a pouco, a iniciativa popular propor um projeto de lei tornando obrigatória a transmissão de qualquer reunião de dois ou mais agentes públicos, para evitarmos situações como muitas outras semelhantes às tratadas neste espaço.

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