Opinião

Sereia, o Deó – Totonho Laprovitera

A Mateus Silva, em lembrança.

“Não existe boêmio mau caráter.” (Valter Furtado)

Foi fogo, mas até que enfim achei uma fotografia, batida em 1981, do restaurante Sereia, o Deó. Rara, ela consta do baú de memórias do Renato Pires.

Dos anos 1960 aos 1980, o Sereia marcou seu nome na história de Fortaleza, como um dos maiores templos da boêmia alencarina. Situado na esquina da Avenida Abolição com Rua Nunes Valente, era onde depois das batalhas os notívagos se achavam e as damas da noite se alimentavam de pão e poesia.

Desde quando o tempo ainda demorava a passar, são muitas as histórias contadas pelos frequentadores do Sereia. Por exemplo, foi lá onde a decidida Toinha, adepta do Patinação Clube, repaginou-se e virou Tattianna, com direito a dois tês e dois enes!

Morando lá pelas bandas de Curitiba, Billy Mello fala da “saudade do melhor caldo de cabeça de peixe, da madrugada fortalezense”. Tomado em companhia da estátua da Sereia, banhada pela luz negra refletida pelo espelhado globo giratório, que fazia luzir os sorrisos das senhoritas do lugar. Pra quem não sabe, o caldo de cabeça de cangulo servia para matar a fome, dar sustança, e criar juízo nos bebidos.

Do lugar, Zeoly Moreira lembra do obsequioso Zequinha, garçom de gabarito internacional. O Paulo Ximenes revela ter sido frequentador assíduo do restaurante, quando no tempo dele era chamado de Deó. “Colombinas caridosas acudiam aos fregueses na madrugada… Testosterona e muita saúde nos impulsionavam nas altas madrugadas”, diz. Segundo José Cordeiro, o Geraldinho Cavalcante assegura que foi do Sereia onde um amigo de acanhada estatura carregou a Muda e a fez falar.

Já Assis Antero, quando ouve falar do Deó, lembra logo do amigo Guilherme Galinha: – “Era habitué” – pontua. Agora, o Marcos Bandeira ri da carreira que a turma dele levou, quando um amigo varapau, embriagadíssimo, deitou-se sobre a Sereia e quebrou o braço da encantada beldade.

O saudoso Mateus Silva citava um boneco grande por lá. Na madrugada, quando chamada a polícia chegou com camburão e o comandante da operação esgoelou: – “Leva todo mundo!” Aí, na fila, um soldado abordou: – “Ei, peraí, tu não é filho do Coronel?” Progênito do Secretário de Segurança, Bagolino admitiu que sim. Pois lá veio o comandante: – “Você não, pode  sair”. E Bagolino: – “Ou sai todo mundo ou não sai ninguém!” Após trelas e sussurros, o comandante cochichou: – “Saiam todos, mas calados!” Saíram, e tome vaia do canelau!

O Restaurante Sereia funcionou durante muitos anos na Avenida Abolição, até se mudar para a Avenida Leste-Oeste, onde encerrou a trajetória de sua brava e rica trajetória, no capítulo especial da história da boemia de Fortaleza.

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