Opinião

Viviane Rufino Pontes: desafios e oportunidades da presença feminina no mercado financeiro

O mercado financeiro é um ambiente masculinizado. E não apenas o senso comum é capaz de confirmar esta premissa, como também alguns dados específicos. Recentemente a B3 divulgou informações sobre o perfil de gênero de seus investidores: dos quase 5 milhões de CPFs de registrados, 74% são homens e 26% mulheres.

Se o foco da análise se direcionar ao mercado de trabalho, esta diferença fica ainda mais latente: segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), apenas 6% das pessoas que tiraram a Certificação de Gestores Anbima (CGA), direcionada para quem quer trabalhar com carteira de investimentos e gestão de fundos, são mulheres.

Entre os motivos que justificam este cenário, chamo a atenção para um em específico: faltam referências para as mulheres. Ao apostar em uma desafiadora transição de carreira, saindo de uma vida dedicada à advocacia em escritórios para mergulhar no universo fascinante – e desconhecido até então – de um Multi Family Office, me vi imersa em um contexto que exigiria estudo e dedicação. Busquei cursos e formações complementares.

Em todos esses contextos as referências eram, em sua maioria, masculinas: autores de livros, professores, CFOs e sócios de grandes corporações. As mulheres que ocupam cargos de alta liderança no mercado financeiro me marcaram nessa busca inicial, especialmente porque elas eram poucas.

Comecei a refletir sobre meu papel na estrutura atual que faço parte, embora esteja inserida em uma empresa que apresenta 30% do quadro composto por mulheres. Passei a compreender o dever de cada mulher apresentar sua história, a fim de encorajar outras mulheres a perseguirem caminhos semelhantes – e superá-los. O compromisso a ser estabelecido nessa jornada consiste em abrir portas: indicar outras mulheres para oportunidades de trabalho, treinar outras mulheres para encarar estes desafios, encorajar jovens e meninas a estudarem matemática e entrarem na área financeira com todo empenho técnico.

Portanto, uma ideia válida para contribuir com um mercado financeiro mais diverso deve englobar a contratação de mulheres para desempenhar papéis relevantes nesse segmento. Segundo pesquisa divulgada pela S&P Global Market Intelligence, 24 meses após contratação, mulheres CFO geram aumento de 6% no lucro e 8% no preço das ações das respectivas companhias. Fomentar contratações femininas deve acontecer não apenas porque seria bom contar com mais “sensibilidade” no time. Mulheres devem ocupar o mercado financeiro por razões meritocráticas. Porque é uma medida eficiente para a perpetuação de um negócio. E logo menos a lacuna de referências femininas será uma questão superada pelo mercado financeiro.

Viviane Rufino Pontes é advogada e head de governança da Astor Capital

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