Opinião

Padre Pita – Totonho Laprovitera

A cultura cearense é diversificada e cheia de pormenores marcantes. Nela, as evidências do acentuado humor na identidade de sua gente ocorrem a partir da sua realidade social, estabelecida há um bocado de tempo. Os tipos conhecidos, do ponto de vista do tradicional chiste urbano, são pessoas que se distinguem das demais por seus jeitos próprios, digamos folclóricos.

Pois bem. Em um dia desses, palestrando sobre esses tipos que marcaram a Cultura do Ceará Moleque – passada de geração a geração, fazendo-nos ser reconhecidos pelo nosso humor irreverente – ouvi do Atilano Ayres duas breves histórias sucedidas nos anos 1960.

Padre Pita foi um bem-conceituado professor de português do Colégio Militar de Fortaleza. Culto, espirituoso, sem papas na língua e desprovido de vaidade, alinhava-se de uma despojada batina negra, ornada de pó de giz. Cheio de si, dava aula esbraseando um odoroso charuto.

Uma vez, cobrado pelo comandante do Colégio por estar chegando atrasado para dar aula, Padre Pita alegou:

Outra vez, na Igreja de Santa Luzia, de onde foi o primeiro pároco, depois de citar o Salmo 138 – “Para afastar sentimentos de orgulho e vaidade” – Padre Pita concentrou seu olhar a uma sisuda matrona e comentou: – “Reparem na dona Fulana de Tal, dama da alta sociedade fortalezense. Era a mulher mais bonita da Cidade, mas vejam só, hoje é um caco!”

O clima pesou e o tempo fechou. Findada a Missa, o Padre Pita só escapou de ser atacado pelos aristocráticos familiares da distinta dama, por se valer da sua condição de sacerdote de adiantada idade.

Bem, se reunidas, histórias assim relatarão a vida da nossa cidade. Se cada um de nós contar o que sabemos desses admiráveis tipos, incluindo os populares, nós formaremos um repertório antológico biográfico que enriquecerá e valorizará a nossa fraca memória.

E assim eu tenho dito e não me canso de repetir, história nós temos bastante! Já memória… Ê, ê…

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