Opinião

O interesse de Renan Calheiros na CPI da Covid-19 está na política de Alagoas – Edison Silva

Provável relator, senador emedebista
poderá proteger governadores (Foto: Roque de Sá/ Agência Senado)

O senador Renan Calheiros (MDB) na relatoria da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19, ao contrário do pensar de muitos, notadamente dos aliados do presidente Jair Bolsonaro, pelo seu pragmatismo e a condição de líder político estadual ameaçado de perda de força, está lá mais com o objetivo de preservar o seu mando no Estado de Alagoas. Azucrinar Bolsonaro e seu Governo, só se frustradas forem suas pretensões iniciais.

Evidente que dentro desse objetivo central, se necessário, está também a possibilidade de ajudar o Renan Filho, atual governador, cujo segundo mandato termina no próximo ano. Eleger o sucessor do filho, óbvio, é a meta. A propósito, pragmático e habilidoso como o é, com uma visão bem aclarada da política nacional, e também com o sonho de voltar a presidir o Congresso Nacional, Renan acabará sendo o protetor de todos os governadores aliados a seus amigos senadores.

Hoje, Renan está ameaçado em Alagoas pelo fortalecimento das oposições ali comandadas pelo deputado Arthur Lira (PP), presidente da Câmara dos Deputados, e pelo senador Fernando Collor (PROS), ambos aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O cargo hoje ocupado por Lira, potencializa sua força política no Estado. Collor, por sua vez, com a ajuda de Bolsonaro, pode chegar às eleições de 2022, quando termina o seu mandato, também turbinado pela máquina do Governo Federal.

Como relator da CPI, cujo foco central é investigar o Governo Federal por suas ações ou omissões no curso da pandemia que já matou mais de 370 mil brasileiros, Renan Calheiros poderá ter condições de neutralizar manifestações e apoios de Bolsonaro aos seus dois principais adversários: Arthur Lira e Collor. Quem sabe, até de chegar a concorrer com estes no campo da distribuição das benesses governamentais. Chegar a esse momento é tudo que ele almeja, no momento, pois depois chegará a cadeira de presidente do Senado, o seu projeto de futuro, passada a disputa de 2022.

Bolsonaro sabe das consequências

E Bolsonaro já fez, indiretamente, a primeira sinalização de uma boa convivência com Renan. O líder do Governo no Senado, Fernando Bezerra, comunicou a Renan que Bolsonaro não se opõe a que ele assuma a relatoria da CPI. O Bolsonaro, com todos os seus arroubos e intempestividades, sabe das consequências negativas geradas por qualquer CPI. Mesmo nada tendo a temer, para qualquer governante, o melhor a fazer, quando incapaz de evitar a investigação, é  contemporizar, mesmo prejudicando a sociedade, que, além  de ficar desinformada sobre a existência ou não de irregularidades que, se existindo extrapolariam os crimes de corrupção, posto terem resultados em mortes de cidadãos brasileiros, ainda acabaria frustrada com o desfecho.

Relator com potencial de danos

Evidente que a força de um relator de CPI, mesmo explosiva como é a da covid-19, não se compara à de um presidente da Câmara dos Deputados, detentor, inclusive, do poder de iniciar um processo de impeachment do presidente da República. Mas, se determinado estiver no objetivo de fustigar o presidente, ou mesmo fazer um trabalho profundo de investigação, o relator pode causar danos imensuráveis à imagem do governante, principalmente se tem ele a habilidade e a perspicácia político de um Renan.

Collor pode entrar na mira de alagoano

A relatoria da CPI da covid-19, seja a que conclusão chegue a investigação, deixará Renan, no mínimo (ele pode até ficar um grande aliado de Bolsonaro),  com mais musculatura para enfrentar os seus adversários em Alagoas, ameaçando mais ao senador Collor de Melo, cujo mandato pretende renovar, e menos a Arthur Lira, cuja reeleição não deve ser ameaçada.

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