Opinião

“Conservadores” do quê?

Por
Emanuel Freitas

A onda de extrema-direita travestida de antipolítica e de luta pela moralização do país que avançou sobre o Estado brasileiro em 2018 nomeia-se como “conservadora”. Performatiza-se, desde então, na autodefinição de protetores da família, dos valores cristãos, da pureza das crianças, da pátria e de toda a sorte de abstrações que servem para convencer alguns muitos como bom discurso de guerra. Só isso.

O conhecimento do conservadorismo, que tem em Edmund Burke o primeiro sistematizador das ideias que seriam caras a este espectro político, nos leva a identificar o que corresponde a tal termo: antes de tudo, a defesa da permanência das instituições, sobretudo daquelas que sobrevivem ao peso da história, por que assim demonstrariam sua inscrição na “natureza das coisas”: se atravessou o tempo é porque é “natural”. Daí a defesa, nos primeiros, da monarquia, da religião, da tradição.

Os “conservadores” daqui, por sua vez, esmeram-se na dilapidação das instituições, sobretudo daquela que mais freios tem postos a seus anseios disruptivos: o Supremo Tribunal Federal. Desde 2019, junto de Rodrigo Maia, o Supremo, institui- ção cuja data de fundação remonta à chegada de Dom João VI ao Brasil, tem sido o alvo da força persecutória do bolsonarismo, o que se acentuou durante a pandemia.

Na semana que passou, deputados aliados do presidente aprovaram projeto, na CCJ, da bolsonarista autoproclamada conservadora Bia Kicis (PSL-DF) que reduz a idade de aposentadoria dos ministros do STF de 75 para 70 anos. Objetivo? Permitir que seu líder nomeie mais dois ministros ano que vem. O interessante é que fazem apenas 6 anos que a casa votou o aumento da idade de 70 para 75 anos, já sob a perspectiva de ocaso de Dilma Rousseff; lá, o interesse dos “conservadores” era impedir que a petista nomeasse ministros; aqui é que Jair nomeie mais dois. Quanto conservadorismo, não?

O caso do deputado Diego Garcia (Podemos-PR), ligado à Renovação Carismática Católica, é exemplar: votou a favor da ampliação em 2015, e a favor da redução neste ano. Nem conservou lá, nem conservou aqui.

A resposta à pergunta que intitula este texto é: conservadores do caos; ou do poder de Jair, o que dá no mesmo.

Emanuel Freitas é professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

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