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A liberdade é a arma

Por Emanuel Freitas

Emanuel Freitas é professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

A semana passada decorreu com trégua do presidente Bolsonaro em relação ao STF, mas com uma pesada artilharia de líderes evangélicos, tendo Silas Malafaia à frente, em torno da realização da sabatina da indicação de André Mendonça àquela Casa que bolsonaristas querem ver extinta. Mesmo gritando “Fora STF”, é sonho do presidente e de seus apoiadores ter alguém para chamar de “seu” ali. Os líderes evangélicos reivindicam a vaga para si.

Com a procrastinação da sabatina até agora, por decisão que cabe a Davi Alcolumbre (aquele que, em 2019, foi apontado como o “Davi contra Golias” por bolsonaristas contra Renan Calheiros), evangélicos fiadores do governo passaram a centrar críticas em Davi e nos ministros “políticos” do governo, com destaque para Ciro Nogueira, Flavia Arruda e Fabio Faria. Talvez por isso o presidente resolveu voltar à Basílica de Aparecida, dando um passeio por outro ramo do cristianismo, onde encontrou apoiadores a lhe bajular sob a alcunha de “mito”, e críticos que lhe vaiaram na saída.

Como o catolicismo brasileiro tem seguido à risca as recomendações sanitárias (diferente de muitíssimas igrejas evangélicas, onde se vê líderes sem usá-la e incentivando fiéis ao mesmo ato), o presidente teve de “ferir sua liberdade” e ficar de máscara. Em uma homilia que antecedeu sua chegada, o arcebispo pregou contra o armamento da população e a favor dos pobres, coisas que nunca veremos Jair fazer. Também ali não encontrou um púlpito para propagar suas mentiras como quando visita igrejas evangélicas (a propósito, na quinta passada foi a uma delas, atacou a “tal vacina”, disse que Haddad passou “12 anos no Mec” e que sua ida à presidência é uma “missão”).

Obviamente, o presidente teve que responder, já no dia 12, às declarações do arcebispo, frontalmente contrárias às suas crenças. E o fez já na quarta, logo cedo, postando em suas redes sociais uma resposta ao bispo, usando, como sempre faz, uma passagem bíblica a seu bel prazer: “aquele que não tem espada, venda sua capa e compre uma”. Por certo, o presidente estava a sugerir que mais vale ter uma arma (espada) do que o que vestir (túnica) ou mesmo o que comer. Talvez o presidente não saiba, mas há milhões de brasileiros que nem túnica têm, quiçá comida… Logo, nada a vender para comprar sua espada! Nem falo na descontextualização do versículo do evangelho.

A arma, que para ele é sinônimo de liberdade, é mesmo mais importante que a vida; na quinta, disse na mesma igreja evangélica: “a liberdade é mais importante que a vida”. É isso: é mais importante estar livre do que vivo! Mas, como isso é possível?

Emanuel Freitas é professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

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