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A César o que é de César

Emanuel Freitas é professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

Milton Ribeiro, pastor presbiteriano e ex-ministro da educação, volta às manchetes. Não por seu regresso à Pasta que comandou, como queriam muitos de seus aliados (inclusive por essas terras, acreditando em sua inocência), mas por ter sua prisão preventiva decretada pela Polícia Federal, acompanhado de outros líderes religiosos.

Sua estadia no MEC fora vista como um momento central da “renovação política” ou da “revolução conservadora”, via moral cristã, por muitos líderes evangélicos e carismáticos. As escolas e universidades ensinariam, finalmente, o “bem”. Esse era o discurso para a plateia, sobretudo dos templos. Em secreto, ao que tudo indica, o negócio era bem outro, com ganhos vultosos não para a cristandade, mas para alguns sujeitos específicos.

O caso nos dá mostras das contaminações entre religião e política que estão em curso nos últimos anos, e que se radicalizaram no governo Bolsonaro, quando líderes religiosos com considerável capilaridade passaram a enunciá-lo como “o messias”. Na verdade, nos mostra como a religião capturou a política para levar a cabo interesses materiais o bastante para legitimar, tendo a religião como solvente, um mero plano de poder.

Estando no Ceará há alguns meses, Milton foi seguido por importante líderes religiosos e parlamentares, inclusive um futuro candidato a governador, pregando em igrejas e disparando os mais absurdos argumentos reacionários, tidos como “conservadores”. Estranhamento, porém, nenhum deles manifestou-se sobre o fato até à escrita deste texto.
Milton agora está só, sem o apoio ou a solidariedade de seus irmãos de fé e de seus entusiastas à frente do MEC.

Cumpre a estes, agora, deixá-lo à própria sorte afim de não amargarem prejuízos em suas empreitadas eleitorais ou de vê-lo prejudicar a reeleição do presidente Bolsonaro. Lembram-se bem dos prejuízos aos políticos evangélicos que as revelações da “máfia das sanguessugas” lhes trouxeram como resultado eleitoral em 2006.

É chegado o momento do segmento, que apostou todas as fichas em uma radical identificação com o governo, colher os frutos deste escândalo que, ao que parece, ainda pode revelar muito do que está oculto sobre as relações entre política e religião no nosso tempo.

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