Economia

Tributos e responsabilidade financeira também são assuntos de criança

Famílias buscam ensinar às crianças noções de educação tributária e a importância de se conhecer sobre a área. O resultado já pode ser observado em atitudes cotidianas dos pequenos com noções de planejamento e gastos responsáveis

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

A contadora Rosita Lavor cresceu em um ambiente em que finanças eram assunto comum em casa. Em uma família de contadores, para ela é natural repassar noções de economia para o filho Lucas, de 9 anos. “Recebi educação financeira e tributária. Comecei a trabalhar com meu pai com 17 anos, meu irmão já tinha iniciado aos 15. Desde muito cedo tivemos a preocupação com a responsabilidade que o tributo representa, como pessoa física mesmo, contribuindo com a sociedade, pagando meus tributos”, ressalta.

O assunto é tão incorporado à rotina que Lucas já se declarou para a mãe dizendo que a ama “mais do que todos os impostos dos Estados Unidos”. O estudando sabe as diferenças entre setor público e iniciativa privada, bem como quais a responsabilidades tributárias de cada um. “Nós sempre falamos sobre isso. Ele sabe que os impostos precisam ser recolhidos para que os serviços sejam prestados, ele pede nota fiscal, como funciona o cartão de crédito, o que é dia de pagamento”, frisa, torcendo para que o menino não seja exceção. “Tenho esperança de que essa nova geração faça a diferença, porque sabe seus direitos, sabe como reclamar, cobrar, fiscalizar. Isso vai ser fundamental daqui a 20 anos, quando meu filho estiver contribuindo”, completa.

Para Rosita Lavor, tudo começa pelo exemplo. Sua funcionária em casa, por exemplo, sempre trabalhou com carteira assinada e recolhimento de impostos e fundo de garantia antes mesmo da obrigatoriedade legal. “É uma forma de contribuir nesse processo. Com isso ele entende que o dinheiro é não é perdulário”, diz. Ano que vem, Lucas terá conta no banco e cartão de débito para saber administrar o dinheiro da semanada. “Ele vai entender na prática como funciona o fluxo financeiro. No momento em que receber um cupom fiscal, ele vai entender como o dinheiro gira. Isso gera uma relação de confiança. Se no trabalho a gente diz compre e traga a nota, com as crianças deve ser do mesmo jeito, porque aquele papelzinho comprova para onde vai esse dinheiro, para escolas, energia das praças, saúde”, defende.

Com 11 anos, Eike Santiago já tem cartão de crédito e se prepara para, em 2021, começar com os primeiros investimentos. Mas até chegar a esses passos, o caminho começou bem antes. As primeiras tentativas foram aos 5, 6 anos, mas foi com 8 que ele passou a entender a lidar com dinheiro e, posteriormente, direitos e deveres relativos aos tributos. “Hoje já sei que pedir a nota fiscal é importante porque parte daquele dinheiro é para melhorar a cidade, as escolas, os hospitais”, afirma.

Segundo ele, quando ganha dinheiro no aniversário ou em outras datas comemorativas, guarda para comprar algo que deseja. “Não gosto de gastar. A criança precisa usar o dinheiro dela com cautela. Quando eu começar a investir sei que posso ganhar mais dinheiro. Vou juntando e aí depois eu compro. Meus amigos não têm tanto hábito quanto eu de economizar. Quando eu for adulto, acho que vou saber mais, estar melhor para fazer minhas escolhas”, planeja. Para Eike, o assunto deveria ser mais abordado na escola, nas aulas, com atividades lúdicas. “Poderiam ensinar sobre as cédulas nas aulas de matemática, nas questões. Muitas crianças pedem as coisas sem saber que aquilo custa dinheiro, como se tudo fosse de graça. Isso não é certo”, avalia.

Atenta ao conhecimento que repassa para Eike, sua mãe, a executiva na área financeira Renata Santiago conta que não teve esse tipo de orientação em casa. “Quando nossos pais falavam de dinheiro era para dizer que não tinham, sempre na negativa. Não diziam de onde vinha, como era usado. Com meu filho busco formas de repassar essas informações para ele desde os 5, 6 anos. Algumas tentativas foram frustradas, outras tiveram sucesso. Cofrinho, semanada, tudo isso estimula a trabalhar objetivos, a fazer algo para conquistar”, ensina.

Como diretora do Ibef, Renata Santiago incentiva o filho a em toda compra pedir a nota fiscal. “É algo tão simples, mas muito importante, porque através daquele imposto é possível viabilizar serviços públicos que a gente utiliza”, diz. Agora Renata está começando a ensinar ao filho sobre investimentos. Ganhando R$ 11,00 por semana, a partir do ano que vem ela vai destinar R$ 100 por mês para o menino fazer aplicações, com orientação de uma consultoria que atende o público infantil, sob supervisão dos pais.

“As crianças precisam começar a ter contato com esses temas para no futuro se sentirem mais seguras para tomar decisões sozinhas e para entenderem sua responsabilidade no mundo. Ter esse tipo de conhecimento é coisa de criança, sim. Eles têm muita informação, sabem quem são os governantes, precisam entender como funcionam essas engrenagens. Cada família tem o seu tempo e sua maturidade. A gente dá oportunidade de eles entenderem que vão construir suas vidas e que vão encontrar percalços. Isso é para a gente evoluir como nação, entender economia como se aprende português, matemática. Do mesmo jeito que a gente cuida dos relacionamentos e vida emocional, precisa cuidar da vida financeira”, contextualiza Renata.

Escolhas e comportamento definem educação financeira

A falta de educação financeira e fiscal em gerações anteriores não é desculpa para os adultos de hoje deixarem de buscar informação sobre os temas. Mais ainda: para não orientar futuros contribuintes. Em meio a tantas incertezas na área econômica, a hora é de criar um ciclo virtuoso, começando pela orientação ainda na infância. Independente do recurso financeiro, educar para saber lidar com o dinheiro está mais relacionado a comportamento do que a bens materiais.

Na opinião da diretora de educação financeira do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Darla Lopes, hoje se vive um ciclo de falta de educação financeira. “Nossos pais não tiveram, nós também não. Nas universidades não há uma orientação sobre isso. Chegou a hora de entrar no ciclo virtuoso e quebrar o vicioso. Os precisam buscar esse conhecimento e levar isso para as crianças. As pessoas acham que isso está muito ou totalmente relacionado aos recursos materiais, que é o dinheiro, na verdade é mais relacionado a comportamento e a escolhas que a gente faz”, explica.

De uma maneira lúdica, simples e natural, é preciso inserir o tema no universo doméstico e, com as crianças, por meio do planejamento e da motivação. “Começa pelo exemplo. Não é que a pessoa vá sentar e dizer o quanto ganha. É com situações do dia a dia. Se vai sair, antes planeja quanto e como vai gastar. Obviamente que, quando a criança vai crescendo, novos formatos são inseridos, pensando sempre em como transformar sonhos em realidade a curto, médio e longo prazo”.

Como a criança percebe o tempo de uma maneira diferente do adulto, uma maneira é estipular como prazos de realização o aniversário, as férias, o Natal. Ferramentas como semanada, mesada e cofrinho são inseridas, portanto, conforme a maturidade da criança. Não há uma idade específica. Faz parte desse processo, como informa a Darla Lopes, ensinar de onde vem o dinheiro público e o privado, qual a realidade financeira da família e como o recurso público é arrecadado e investido.

Através da Oficina Meu Tesouro, que existe há cinco anos com grupos de crianças de 6 a 10 anos, a economista orienta sobre o tema através de atividades e interações. Pedagoga e especialista em psicologia econômica, Darla ensina sobre o desapego e os cuidados em relação ao dinheiro, utilizando como base os “tesouros do coração e os tesouros materiais”. Para isso, insere no contexto a valorização da família, dos amigos, valores éticos, morais, de onde vêm os recursos financeiros e como é possível se planejar para realizar sonhos. O trabalho é feito em parceria com a psicopedagoga Vládia Lopes. “As crianças aprendem a abrir mão de algo para conseguir algo mais importante no futuro. O objetivo é alcançado”, detalha.

Darla explica que a oficina atua em torno das duas formas cognitivas de pensar: o modo racional, consciente e o pensamento irracional, ligado ao inconsciente. “Geralmente os comportamentos são relacionados ao inconsciente. Buscamos trazer essas escolhas e comportamentos para o consciente. Eu preciso disso? Tem que ser agora? Posso esperar?”, ensina. Para ela, o conforto que a compra imediata proporciona é uma fuga da realidade que pode gerar dor e sofrimento. Em relação às finanças, isso traz um viés perigoso, porque o consumidor se satisfaz naquele momento, mas as consequências negativas podem atingir relações pessoais, de trabalho e financeiras.

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