Economia

Setor de Turismo cria estratégias de adaptação para captar turistas cearenses

Novos conceitos e usos para os hotéis garantem permanência no mercado. Foco agora é atrair o turista que se desloca via terrestre, tanto o visitante cearense como o de estados vizinhos. Enquanto isso, empreendimentos usam espaços para lives

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

O setor de turismo foi um dos mais afetados pela pandemia. Embora os hotéis não tenham sido impedidos de funcionar, a ausência de viagens de lazer, de realização de eventos e do turismo de negócios impactou diretamente no segmento. De 50 estabelecimentos associados ao Fortaleza Convention & Visitors Bureau, apenas quatro não fecharam entre março e início de junho. Em paralelo, quem reabriu gradualmente criou estratégias de biossegurança, de adaptação a um mercado retraído e de manutenção dos negócios. Entre as soluções estão hospedar profissionais de saúde a criar espaços para gravação de lives nas redes sociais e eventos virtuais.

Segundo a presidente do Fortaleza Convention & Visitors Bureau (CVB Visite Ceará), Ivana Bezerra, vários fatores agravaram a crise no setor, em função da questão sanitária. Isso porque, de imediato, não havia alternativa para hotéis e pousadas funcionarem. Além disso, o setor atua com vendas por antecedência. Como não havia perspectiva de quando a situação se normalizaria ou chegaria perto disso, não havia como fazer reservas. “Foi muito complicado. A hotelaria realmente fechou por causa da falta de hóspede, não por apresentar algum tipo de insegurança”, informa.

O início da pandemia coincidiu com a baixa temporada no turismo de lazer, período em que acontecem feiras e congressos. Mas, com a paralisação dos eventos, o efeito negativo foi generalizado. “O turismo de negócios parou totalmente, é o que sustenta a gente na baixa temporada. O lazer é só uma parte do negócio. Um evento impacta 52 setores da economia, como montadores, decoradores, buffets, receptivo, bar, restaurante”, informa a presidente.

De acordo com ela entre os hotéis que não fecharam está o Meridional, no Centro. O equipamento fechou convênio com a Prefeitura de Fortaleza para receber profissionais de saúde. Um outro, na Praia do Futuro, manteve o trabalho interno por questão de segurança. Outros se mantiveram funcionando porque abrigam flats e alugueis de longa permanência. Uma das saídas encontradas no Sonata de Iracema, localizado na Avenida Beira-Mar, foi reforçar serviços para o hóspede cearense, criar novos produtos e revitalizar o ambiente para a reabertura.

Com o “Saia da Rotina”, que já existia antes da pandemia, é possível fazer check in às 8 horas do sábado e check out, às 18 horas do domingo. Normalmente, isso daria uma diária e meia. Mas, devido ao movimento, está sendo cobrada apenas uma diária e com tarifa reduzida. “O Sonata é essencialmente corporativo. Já fazíamos o Saia da Rotina há muito tempo, mas, como os eventos não estão acontecendo, estamos reforçando esse serviço”, afirma Ivana Bezerra, proprietária do hotel.

Outra alternativa para o hotel que tem 8 salas de eventos foi criar um estúdio para as pessoas fazerem lives. “Os próprios clientes estão alugando para fazer essa comunicação virtual. E preciso sair da mesmice e buscar soluções, já que as pessoas estão viajando muito pouco ainda. Tem gente que quer sair de casa, mas prefere ainda não viajar”, diz, acrescentando que esse hóspede é de Fortaleza, de cidades do interior do estado, especialmente da região do Cariri, e de estados vizinhos.

No período de paralisação das atividades, o hotel foi reformado e agregou novo conceito. “Tudo na decoração é do Ceará. Quadros, adornos, peças decorativas”, informa Ivana Bezerra, acrescentando que as compras foram feitas diretamente com os artesãos. O hotel também disponibiliza informações sobre o artista, material utilizado e contato. “A gente tirou tudo que não era de identidade. Agora é tudo de palha, barro, coco verde. Acho que isso nasceu de um processo de sensibilidade maior que estamos passando. O sentimento pelo simples está mais aflorado, estamos tendo uma outra percepção do espaço, do que é importante”, justifica.

Sobre o retorno do turismo de lazer e de negócios, a presidente do CVB pondera que é uma interrogação, mas projeta que as viagens em lazer serão retomadas primeiro do que os eventos, congressos e feiras. Isso porque são permitidas 1.000 pessoas em um evento somente na quarta etapa do processo de reabertura do setor. Por enquanto, apenas 100 no máximo são permitidas. “Nosso maior concorrente é o Zoom. As reuniões virtuais são mais baratas, funcionam em certa medida. A não ser algumas situações que precisam do presencial. Esse segmento de negócios movimenta muito a nossa demais a nossa economia. Quem vem para um congresso vai também a restaurantes, shoppings, supermercados, bares”, aponta.

Ivana Bezerra acredita que a movimentação em locais turísticos no feriado de 7 de setembro revela um panorama de como deve ser a retomada para o setor. Embora em Fortaleza a ocupação tenha sido de 30% em média, no litoral variou de 70% a 80%, sendo que a maioria era visitante cearense. Em relação à segurança sanitária, a presidente do Visite Ceará informa que só nessa semana o protocolo para o setor foi divulgado. Antes disso, empresários e empreendedores do setor se espelharam em protocolos internacionais já aplicados em cidades turísticas.

“A partir do momento em que começa a fazer, é fácil continuar. Mas deixar o apartamento isolado 24 horas depois do check out é inviável. Isso tira pelo menos 40% da minha oferta. Além disso, a limpeza é feita com todo rigor, mais do que era antes, com tudo que é recomendado. Também não entendemos por que não podemos ter buffet, se os restaurantes podem ter o serviço self service”, diz. Sobre os questionamentos, Visite Ceará, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) no Ceará e o Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (Sindepat) articulam posicionamento formal sobre essas e outras questões referentes ao protocolo para o setor.

Retomada das atividades proporciona aumento da contratação de pessoal

Compra de passagem, hospedagem, seguro de viagem, locação de veículos. Aos poucos esses serviços voltam a ser rotina nas empresas. Para atender à demanda, quem atua no setor está voltando a se reestruturar após meses com lojas fechadas. Mesmo com voos e viagens ainda em processo gradual de retomada, é possível perceber melhora no faturamento e na perspectiva do fim do ano e início de 2021.

Especializada em contas corporativas, a A3 Turismo viu o faturamento cair 90% entre março e abril. Foi necessário aderir ao programa federal de suspensão da folha de pagamento para se manter.  Com duas unidades localizadas em Fortaleza, o sócio Alberto Moura conta que só foi possível manter as duas porque uma é própria. Além disso, contratos de licenças de software foram suspensos, já que não estavam sendo realizadas operações com os serviços.

“Por incrível que pareça, com esse cenário todo, a empresa não ficou completamente parada. Se não tinha passagem, tinha carro para alugar. Se não tinha passagem área, tinha carro”, pondera. Agora, com as lojas reabertas e as 20 pessoas da equipe voltando ao trabalho presencial, até contratações a empresa já está fazendo. “Contratamos mais quatro funcionários. Desde junho o movimento está aquecendo”, comemora.

Nos primeiros meses de pandemia, o home office foi fundamental para manter contato com clientes.   Abril, para Alberto Moura, foi o mês mais crítico. Hoje, segundo ele, a empresa atua com 40% do faturamento anterior à pandemia. “A adaptação do home office não é tão complicada. Tanto que entre as contratações vamos chamar pessoas para ficarem trabalhando em casa. Nossa atividade é muito centrada ou apoiada na tecnologia, não precisa tanto do atendimento presencial. Há pessoas que querem trabalhar assim, pois moram longe, gastam muito com combustível, não perdem tempo de deslocamento. Só precisa de um computador e do software”, reforça.

Para o turismólogo, a ausência de uma vacina ainda continuará impactando nas escolhas de viagens. “As pessoas não querem ir para o exterior. Adoecer em uma viagem, precisar de hospital, isso ainda gera receio. As pessoas não sentem segurança. Ainda tem o câmbio de R$ 5,00, que é alto”, analisa. No caso do turismo corporativo, Moura informa que já há funcionários viajando a trabalho. Ele afirma que, na A3, antes da pandemia 75% do faturamento eram viagens corporativas e 25%, de lazer. Atualmente a estimativa é que a conta seja 95% negócios e apenas 5% lazer. “Não parou total porque ainda vende Jeri, Cumbuco, resorts. Mas cruzeiros e intercâmbio cultural foram a zero. Viagem internacional só a trabalho mesmo”, considera.

Entre as contratações que estão sendo feitas, Alberto Moura destaca para o setor de marketing digital. “A gente está bastante otimista, porque estamos nos preparando. Vamos reforçar a participação no mundo digital e nas redes sociais para gerar negócios. Nossa perspectiva é que a retomada vai ser muito boa, mas a partir de janeiro. Em março acredito que teremos o mesmo faturamento de antes da pandemia”, sinaliza.

Plataforma traz novidade para mercado de eventos

Com as limitações de deslocamento, criar alternativas para realizar eventos em ambiente digital se tornou alternativa de sobrevivência no setor. Com base nisso, após 4 meses pesquisando plataformas digitais no Brasil e em outros países, a Ikone firmou parceria com plataformas brasileiras, canadenses e americanas de funcionalidades para eventos digitais no mundo.

“A plataforma é adaptada ao momento atual e traz soluções inovadoras e personalizadas. Projetamos congressos, feiras e eventos corporativos virtuais ou híbridos. Tudo isso conectando tecnologias e plataformas já maduras e testadas”, adianta Roberta Cavalcante, uma das diretoras do aplicativo Ikone Digital.

A funcionalidade do serviço inclui sincronizar o acesso pelo computador, tablet ou celular e disponibilizar o conteúdo dos eventos na web. A participação não tem limites geográficos e abrange programação ao vivo ou vídeos pré-gravados, apresentação de trabalhos técnico-científicos, sessões de networking, engajamento, rodadas de negócios, feira virtual e gamificação, por exemplo.

Os eventos do calendário de 2020 da Ikone já foram migrados para o digital. Assim, a plataforma promove geração de conteúdo, capacitação, intercâmbio de informações e ambiente para networking e realização de negócios. Segundo a empresária Micheline Camarço, o serviço está “surpreendendo patrocinadores e expositores dos eventos com as possibilidades de interação com o público”. Para ela, “basta ter criatividade e vontade de explorar os recursos”.

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