Economia

Puxada por alimentos e transportes, prévia da inflação fica em 0,57% na Grande Fortaleza

A alta foi ainda maior do que no País, que registrou 0,45%, a maior em nove anos. Os números são do IBGE, divulgados ontem (23). Desequilíbrio de oferta e demanda deve sustentar preços acima dos habituais, segundo especialistas

Lucas Braga
economia@ootimista.com.br

Com o aumento perceptível nos preços mostrados nas bombas de combustíveis e gôndolas dos supermercados, por exemplo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) ficou em 0,57% em setembro, na Região Metropolitana de Fortaleza. A alta foi ainda maior do que no País, que registrou 0,45%, a maior em nove anos. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados ontem (23).

Setembro teve até agora o segundo maior número deste ano, na Grande Fortaleza, atrás apenas de janeiro, que teve variação de +0,86%. No ano, a prévia da inflação acumulou alta de 2,42% e, em 12 meses, atingiu 3,3%. O IPCA-E (acumulado no trimestre) foi para 0,99%.

Os preços dos alimentos e bebidas puxaram o indicador com a maior alta (1,26%) e o maior impacto (0,29 ponto percentual). Helder Rocha, supervisor da disseminação das pesquisas do IBGE no Ceará, lembra que a alta no setor foi puxada não só pelos leites e derivados – cujos preços subiram 5,68%. “Também tiveram participação no aumento o óleo de soja (20,79%), arroz (7,42%) e leite longa vida (9,56%)”. Estes itens acumularam altas de 36,19%, 29,11% e 16,16% no ano, respectivamente.

Os transportes tiveram o segundo maior impacto no índice em setembro (0,28 ponto percentual), embora tenha alcançado a maior variação (1,54%) entre os grupos. A gasolina subiu 5,09%, na terceira alta consecutiva, e o óleo diesel, 1,74%. As passagens aéreas apresentaram alta de 7,42%, após quatro meses consecutivos de queda.

 

Causas e consequências

Fábio Castelo Branco, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia no Ceará (Corecon), lembra que as altas estão atreladas, uma vez o aumento no custo de logística é “embutido” nos preços dos alimentos. “Isto influencia a cadeia produtiva. Para não perderem lucro, considerando que os alimentos estão do grupo de produtos de primeira necessidade, os empresários elevam os preços conforme a demanda. Naturalmente, a pressão inflacionária acontece com demanda alta”, analisa.

E parte das famílias está comprando mais alimentos porque têm auxílio emergencial; ou estocam, mesmo contra as recomendações; ou ainda porque permanecem na tendência de fazer mais refeições em casa, assim como foi no isolamento social. Outra causa para a alta na inflação do segmento pode ser o menor ritmo de produção e logística, conforme Gerardo Vieira, presidente da Associação Cearense de Supermercados (Acesu).

“Mas não houve aumento só no preço dos alimentos. Foi o combustível, foi a construção civil”, frisa Gerardo. De acordo com ele, o preço de grãos e derivados como arroz, soja, feijão e milho não devem voltar aos preços pré-pandemia até março de 2021. “Não vão baixar agora. O governo aliviou impostos, mas não é suficiente. A produção e o fornecimento não estão acompanhando o consumo”. No início do mês, foi zerado o imposto de importação para 400 mil toneladas de arroz, numa tentativa de conter a carestia do cereal.

Castelo Branco sugere ainda que as famílias continuem a pesquisar preços e substituam produtos por bens secundários, como trocando arroz por macarrão. “Se a demanda cair, os estoques vão perceber retração de consumo e preço pode cair. É o chamado preço de equilíbrio”.

Ainda segundo os especialistas, com a alta do dólar e desvalorização do real, muitos produtores preferem exportar. Assim, o abastecimento interno cai, mesmo em momento de consumo aquecido.

“Os grãos são commodities de muito valor. A insegurança na produção de outros países é refletida na busca de alimento para aquelas populações. São exemplos grandes players europeus, além de China e Índia, que se posicionam fortemente em Mercado Futuro”, explica Raul dos Santos Neto, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), sobre o desequilíbrio atual.

“Estamos vivendo ressaca do período de isolamento. Quando a roda da economia volta a girar, algumas atividades retornam mais lentamente. É necessário tempo também para restabelecer as forças produtivas do País”, conclui.

 

Brasil

O IPCA-15, que mede a prévia da inflação oficial, havia ficado em 0,23%, em agosto. Os 0,45% de setembro são o maior resultado para o mês desde 2012 (0,48%). O índice acumula taxas de 1,35% no ano e 2,65% em 12 meses. O resultado ficou acima da expectativa dos economistas, que era de uma alta de 0,39% para o indicador em setembro, segundo a média das projeções colhidas pela Bloomberg.

Todas as regiões tiveram variação positiva em setembro. O maior resultado foi registrado em Goiânia (1,10%), devido às altas nos preços da gasolina (8,19%) e do arroz (32,75%). Já a menor variação foi registrada na região metropolitana de Salvador (0,18%), onde a queda nos preços da gasolina (-2,66%) contribuiu com -0,12 p.p. no resultado do mês.

Um destaque em setembro vem do grupo saúde e cuidados pessoais, cuja deflação de 0,55% deve-se ao item plano de saúde (-2,33%), em função da decisão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) de suspender reajuste dos contratos de planos de saúde até o fim de 2020.

Economistas ouvidos pelo Banco Central para a elaboração do Boletim Focus voltaram a elevar nesta semana suas projeções para a inflação de 2020, de 1,94% para 1,99%. Foi a sexta semana seguida de aumento na projeção. Para 2021, a expectativa é que o indicador feche o ano em 3,01%.

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