Economia

Profissionais de hotelaria serão testados como medida de biossegurança, diz Setur

Primeira etapa inicia por Fortaleza, dentro de cerca de 15 dias. Em seguida, testes para averiguar presença de covid-19 serão ampliados para profissionais de restaurantes. Proposta é fortalecer o destino Ceará como seguro ao turista. Anúncio foi feito pelo secretário de Turismo do Estado, Arialdo Pinho, durante o Seminário Retomando a Economia: o Ceará é mais forte, realizado pelo O Otimista.

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

O turismo é um dos setores que passa de forma mais lenta pela retomada da economia. Porém, o objetivo é voltar com segurança, não com pressa. Tanto que, daqui a cerca de 15 dias, funcionários do setor hoteleiro de Fortaleza começarão a ser testados por iniciativa da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur). O objetivo é evitar disseminação do novo coronavírus em hotéis e pousadas. Após esse segmento, os testes, aplicados gratuitamente, serão estendidos à cadeia de restaurantes e a demais trabalhadores do trade, como taxistas, por exemplo. O anúncio foi feito no “Seminário Retomando a Economia: o Ceará é mais Forte”, no painel Setor Turístico. O evento é uma realização do Instituto Future e O Otimista, com patrocínio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

O debate foi mediado pela editora-chefe de O Otimista, Nathália Bernardo, e contou com a participação do titular da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur), Arialdo Pinho, do diretor comercial do Beach Park Entretenimento, Felipe Lima, do deputado federal e membro da Comissão de Turismo da Câmara Federal, Eduardo Bismarck, e do gerente de contas Air France KLM, Paulo Ricardo Lobão.

De acordo com Arialdo Pinho, a testagem deve começar daqui a 10 ou 15 dias. Na próxima segunda-feira, haverá reunião do titular da pasta com representantes da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) no Ceará para definir o início dos testes nos hotéis de Fortaleza. Após a testagem na capital, a ideia é estender o protocolo para localidades que atraem mais turistas e visitantes cearenses no Estado, por região. “Icaraí de Amontada, Guajiru, Canoa Quebrada, Jericoacoara, Camocim, Ubajara estão entre os contemplados. Faremos os testes por regionais, em parceria com prefeituras e secretarias de turismo dos municípios”, esclarece.

Segundo o secretário, a estratégia é depois fazer a testagem junto a estabelecimento de alimentação for a do lar. “Depois vamos analisar fazer o mesmo em taxistas, (motoristas) de Uber, empresas de transporte. Estamos elencando, mas vamos começar pelos maiores, que são a rede hoteleira e em seguida restaurantes”, antecipa. Arialdo Pinho informa que todos os passos serão dados com cautela. “Vamos retornar, mas vai ser mais lentamente do que é a ansiedade da gente. Temos que ter o controle da pandemia no Ceará. Sabemos como expandir o mercado, como fazer publicidade, mexer as peças, mas não vamos fazer assim. Não sabemos quanto tempo essa pandemia vai durar. Queremos conviver com a comunidade em segurança”, diz.

Prova disso é que o secretário não almeja, pessoalmente, qualquer perspectiva de festa de Réveillon público no Ceará. Atualmente são autorizados eventos fechados com 200 pessoas u em ambientes abertos com 300 participantes. Como não se sabe a liberação para as próximas semanas, a perspectiva hoje é que o Ano Novo seja comemorado com festas mais intimistas em lugares fechados, com público restrito ao que for autorizado à época. “Talvez 2022, 2023”, sugere.

Em anos estáveis, o Ceará recebia 3,5 milhões de turistas nacionais e 500 mil de internacionais. Antes eram 4.000 voos nacionais mensais que chegavam ao Ceará. Hoje são cerca de 850, menos de 25% da movimentação antes da paralisação das atividades. Sobre os hotéis, alguns destinos operam com 45% de ocupação no fim de semana. “O ideal seria 65% a 75%, porque é só no fim de semana praticamente”, avalia Arialdo Pinho.

Além disso, os voos internacionais agora que estão retornando. A TAP opera com dois semanalmente – antes eram sete – e hoje a Air France inicia operação no Ceará. Já a KLM volta somente em 2 de abril. Atualmente são cinco voos internacionais por semana, enquanto antes da pandemia eram 48. Segundo Paulo Ricardo Lobão, a aviação civil internacional, no início da crise de saúde, chegou a operar com 3% a 5% da sua capacidade. Em agosto, o índice era de 40%. Até o fim de dezembro, a expectativa é chegar aos 60% – no caso da companhia, com 25 voos semanais operando no país. Hoje sai de Fortaleza um voo para Paris com retorno amanhã. “Nas duas primeiras semanas, será um voo semanal. A medida que a demanda for se fortalecendo, a gente vai aumentando, mas com muita cautela, sem pressa”, ressalta.

Como informa o gerente de contas Air France KLM, como as fronteiras brasileiras ainda estão fechadas, a maior parte dos passageiros são brasileiros com dupla nacionalidade e europeus voltando para seus países de origem. “A abertura da fronteira para o estrangeiro vir ao Brasil é um passo importante que pode trazer mais turistas para o Nordeste e Brasil, mas tudo no seu tempo”, pondera, acrescentando que é preciso aguardar a evolução da vacina. Tanto que nenhuma divulgação de destino está sendo feita pela companhia e não há previsão de promoções tarifárias, que estimulam as viagens.

Paulo Lobão projeta que a aviação comercial volte aos níveis pré-pandemia somente em 2023, início de 2024. Contudo, a expectativa imediata para o Ceará é positiva, pois o segundo semestre atrai o turista que pratica kitesurfe devido à temporada de ventos e aquele visitante que quer fugir do inverno europeu. “Só no início de janeiro teremos uma ideia melhor de como o setor vai se comportar, à medida que as fronteiras reabram e que a perspectiva de vacina avance”, diz.

O secretário Arialdo Pinho acredita que a retomada do setor seja das mais lentas na economia, o que é necessário para o próprio trade turístico. Com a certificação do selo de segurança global ‘Safe Travels’, do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, sigla em inglês), a testagem em trabalhadores do trade e a aplicação rigorosa dos protocolos de biossegurança, o secretário espera que o Ceará se fortaleça como destino seguro para o turismo nacional e internacional. “Ainda temos um caminho longo, temos autorização de uso do selo, de publicidade, mas só vamos divulgar quando soubermos que estamos aptos a fazer turismo. Queremos fazer turismo no Ceará, mas com segurança completa”, frisa.

O deputado federal Eduardo Bismarck apresentou ao Ministério do Turismo proposta de criação de um selo nacional, semelhante ao Safe Travels. Para ele, cada vez mais o turista fará suas escolhas com base na segurança sanitária do destino em relação à covid-19. “Nesse momento do turismo redescoberto e de curta distância, o selo viria para agregar, porque o turista opta pelo lugar mais seguro, mesmo que ele já conheça o destino”, diz. A proposta do selo nacional inclui ainda a exigência de treinamento de pessoal e averiguação das medidas sanitárias para que o local receba aporte de recursos para investir no setor.

Segundo Bismarck, o Congresso Nacional atuou positivamente na aprovação das medidas provisórias (MPs) 907 e 948, especialmente no sentido de estimular e garantir o adiamento das viagens, em detrimento do cancelamento de hospedagens. Além disso, foram aprovados R$ 5 milhões de crédito para empresas de turismo, de forma emergencial. “Em caso de defesa da soberania, criamos precedente para ter essa defesa do país e da economia, com medidas de apoio a micro e pequenas empresas, crédito. Importante também é definir como um futuro momento de incerteza ou insegurança internacional teremos orçamento separado do orçamento da união para agir e como agir. Se o brasileiro estiver em uma cidade que entra em convulsão, agora quem assume é a Embratur, que vai ser responsável pela repatriação de brasileiros no exterior”, explica.

Recebendo mais o público cearense e fortalecendo as relações com o Norte e Nordeste, o Beach Park Entretenimento passa por mudanças na estratégia de atuação e no relacionamento com o cliente. Desde que reabriu, o complexo registra aumento de 9% para 29% de visitantes com Beach Card. Nos quatro hotéis do grupo e no parque, o crescimento do turista do Nordeste é de 30% e, do Norte, de 45%, mesmo com o funcionamento das estruturas ainda limitados aos protocolos estaduais de segurança sanitária.

Segundo o diretor comercial do complexo, Felipe Lima, os hotéis estão funcionando com 60% da capacidade e o parque, com 30%. “Isso naturalmente diminui o número de pessoas no mesmo espaço”, avalia. Entre as medidas adotadas, algumas Lima já vê como permanentes, como o fim do ingresso impresso, o cardápio digital e o fortalecimento das vendas pela internet. Hoje só entra no parque aquático quem compra ingresso antecipadamente e agenda a visita. “Não é simples, mas é um processo essencial. A gente passa para o turista uma mensagem de segurança e preocupação com a segurança dele aqui no destino”, justifica.

Antes 5% do público do complexo eram turistas estrangeiros. Hoje o índice é zero. Contudo, se mantém a participação forte do turista do Sudeste e Sul do país. “Hoje claramente o cearense assume o protagonismo no parque. Mas 37% dos hóspedes dos quatro hotéis são do Sudeste, principalmente. É natural, mesmo que a gente não faça campanha em massa, como agora”, aponta.

Segundo Felipe Lima, a sinalização de vendas futuras está parecida com as de 2019, no caso da hotelaria. A estratégia agora é fortalecer Norte e Nordeste e fidelizar o cliente do Sul e Sudeste, com base na segurança sanitária. “A gente sempre foi um complexo do residente. Operação de praia hoje tem muito mais o público residente. É uma redescoberta do lugar onde a gente mora”, frisa.

Crédito ainda é entrave para micro e pequenos empresários

O crédito é um dos temas mais pujantes na pandemia do novo coronavírus. Com o isolamento social e a paralisação total ou parcial das atividades econômicas, empreendedores e empresários buscaram financiamento para obter fluxo de caixa e capital de giro. Mesmo com os entraves no acesso, a recuperação econômica tem-se mostrado mais positiva do que era esperado em meados de março, quando a pandemia se instalou no país. O tema foi discutido no painel Alternativas de Financiamento, no “Seminário Retomando a Economia: o Ceará é mais Forte”, evento realizado pelo Instituto Future e O Otimista, com patrocínio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

Mediado pela editora-chefe de O Otimista, Nathália Bernardo, o debate contou com a participação de Romildo Rolim, presidente do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Rodrigo Bourbon, superintendente estadual do BNB no Ceará, Fábio Gondim Ribeiro, gerente da Unidade de Gestão Financeira do Sebrae Nacional, Domingos Neto, deputado federal e relator do Orçamento da União para 2020, e Silvio Moreira, analista técnico do Sebrae Ceará.

De acordo com Fábio Ribeiro, a dificuldade de acesso ao crédito por parte de micro e pequenos é histórica. Segundo pesquisa do Sebrae com dados do Banco Central, dos R$ 796 bilhões disponibilizados para crédito no primeiro semestre, só 20% chegaram aos micro e pequenos, totalizando R$ 160 milhões. O índice se mantém estável desde 2012, conforme Ribeiro. A discrepância, na opinião dele, é que a categoria soma 18 milhões de empresas no país e é responsável por 30% do PIB brasileiro.

“É uma estrutura fundamental a economia brasileira. Pesquisa do Sebrae mostra que 51% de pequenas e médias empresas que buscaram crédito, só 22% tiveram sucesso e 11% conseguiram ter crédito no sistema financeiro. Em maio eram só 5%”, informa, acrescentando que a elevação de seis pontos percentuais se deve aos programas do governo federal. Para Silvio Moreira, os fundos de aval minimizam a dificuldade. “Nesse momento, tão importante quanto o crédito é saber o que fazer com ele. É para melhorar o produto, o processo. Ao assinar o contrato, o empreendedor assume uma dívida, ele vai ter que vender mais, se estruturar melhor. Para contratar o crédito e pagar de forma que a empresa se torne sustentável ao longo do tempo”, ensina.

O presidente do BNB informa que, durante a pandemia, a instituição avançou no atendimento digital, aumentou em 27% o volume de recursos destinados a micro e pequenas empresas e capitalizou micro e pequenos através do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste (FNE) tradicional e emergencial, com juros a 2,5%. Dos R$ 3 bilhões direcionados ao fundo, R$ 1 bilhão foi para programa de microcrédito e R$ 2 bilhões, para micro e pequenas empresas. Segundo Romildo, neste ano as concessões aumentaram 27,7% em relação ao ano passado. “Neste ano, já passamos de 100 mil operações de linhas de crédito”, complementa Rodrigo Bourbon. Segundo ele, 30% da destinação de R$ 1 bilhão foi para o Ceará, com tíquete médio de R$ 2 mil.

Na opinião do deputado federal Domingos Neto, a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição do Orçamento de Guerra, a PEC da Guerra, permitiu que várias medidas facilitassem o processo de retomada da economia e de tomada de crédito, desburocratizando criação de medidas provisórias (MPs). “É uma relação de soluções com a velocidade necessária. Mesmo com efeitos gravíssimos, o Brasil é dos países que reagem mais rápido, com linhas de crédito dos bancos públicos, agilidade do Banco Central, auxílio emergencial para 66 milhões de brasileiros, programas para manter os empregos. O governo é o protagonista, mas o papel do Congresso é ser ágil e ter sensibilidade a todas as questões, de saúde e da economia”, analisa o deputado.

 

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