Economia

Pressionado pelo aumento de preços, Copom fixa taxa Selic em 2%

Decisão do Banco Central confirma projeções dos analistas, que indicam um possível aumento dos juros ao longo do ano. Efeitos da pandemia, alta dos preços das commodities e subida do dólar influenciaram na manutenção da mínima histórica

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

(Foto: Fátima Meira/Futura Press/Folhapress)

Confirmando as expectativas do mercado financeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central definiu ontem (20) o nível da taxa Selic, a taxa básica de juros do país, em 2% ao ano.
A decisão mantém o índice na mínima histórica, pela terceira vez consecutiva. “Com as pressões de diversos setores da economia e com o aumento localizado de preços, é natural que houvesse uma postura mais conservadora, não só a manutenção da taxa como a indicação de uma possível elevação ao longo do ano, porque devemos ter pressões por mais gastos públicos para combater novas ondas da covid-19”, explica o economista Lauro Chaves Neto, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
De acordo com os técnicos do Banco Central, há projeções de aumento dos juros básicos da economia a partir de agosto, quando o BC já estará avaliando a fixação dos juros para a meta de inflação de 2022, que é de 3,5%, ou seja, menor do que o objetivo central deste ano (3,75%).

Cenário
Na visão do economista e consultor empresarial José Maria Porto, a opção do Copom por manter a taxa de juros em 2% levou em conta o panorama da economia brasileira, considerando os prejuízos causados pela crise de saúde pública. “O Copom ainda está acompanhando os efeitos da pandemia no crescimento do PIB, que, ao que tudo indica, permanecerá fraco nesse primeiro trimestre. Outro motivo para a manutenção da taxa é o fim do auxílio emergencial, que impulsionou a inflação, principalmente quanto aos alimentos. Ainda não temos motivos suficientes e justificativas macroeconômicas que necessitem alterar a taxa Selic”, observa.
Também influenciaram indiretamente na definição sobre a taxa básica de juros a alta dos preços das commodities brasileiras no comércio internacional e a valorização do dólar, que estão pressionando a inflação no começo deste ano.

Indicador
A taxa Selic tem como principal função ser um instrumento de política monetária, usado para o controle da taxa de inflação. Mas o indicador também influencia outros segmentos, como o de investimentos. “O movimento da taxa Selic é muito correlacionado com as taxas dos títulos públicos, para quem investe, por exemplo, tende a ter rendimentos menores nas aplicações financeiras”, observa o economista José Maria Porto.
“A sinalização de comportamento futuro da taxa Selic é muito importante para a expectativa de consumidores e investidores. Trata-se de um balizador para a evolução da política monetária como um todo”, acrescenta o economista Lauro Chaves Neto.

A decisão
O Copom determina taxa básica de juros levando em conta o sistema de metas de inflação. Em 2021, a meta central é de 3,75%, mas o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode variar entre 2,25% a 5,25% sem que a meta seja descumprida. Para 2022, a meta central é de 3,5%.

Pressão dos preços
Devido à pressão dos preços dos alimentos, no ano passado o IPCA alcançou 4,52% – a maior inflação anual desde 2016 –, acima do centro da meta anual, de 4%, mas dentro do intervalo de tolerância. “O aumento da inflação pode ter sido pontual, motivado principalmente pelo dinheiro extra jogado na economia como forma de auxílio emergencial”, analisa o economista José Maria Porto.
“O Copom, a partir de agora, estará mais vigilante, tanto na inflação como no crescimento da economia nos próximos meses”, projeta o consultor empresarial.

 

Especialistas recomendam maior controle da pandemia

Para controlar a inflação, o governo brasileiro normalmente utiliza como ferramenta a taxa Selic.
No entanto, analistas apontam que em virtude da pandemia e seus efeitos na economia, conter a alta de preços ao longo de 2021 pode ser uma tarefa complexa. “Temos um problema na inflação do atacado, ocasionado pela falta de produção. Sem funcionários, muitas fábricas pararam, com exceção dos serviços e produtos essenciais, como a indústria alimentícia. Mas na cadeia produtiva houve problemas, como o aumento dos EPIs (máscaras, luvas, plásticos etc.) o que encareceu os produtos”, descreve José Maria Porto. “No caso do aço, muitas siderúrgicas tiveram que desligar os altos fornos e faltou aço para a construção civil”, reforça.

Covid
Para Lauro Chaves Neto, evitar um aumento dos casos de covid-19 vai ajudar indiretamente no controle da inflação. “A pandemia influencia muito a gestão fiscal, porque se houver novos gastos no combate à pandemia, por exemplo em novas estruturas hospitalares, deve ocorrer uma pressão inflacionária maior”, observa o assessor econômico da Fiec. “Além disso, se for criado algum programa de renda mínima, de transferência de renda, ele pode ter um impacto maior ou menor na questão fiscal, o que pode impactar na questão inflacionária”, conclui o economista.

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