Economia

Pequenas operadoras de banda larga ganham mercado e crescem até 90%

Segundo a Anatel, o crescimento anual do setor é de 4,5%, comparando junho de 2019 com o mesmo mês deste ano, mas entre as pequenas a média é de 10%. Contudo, no Ceará, há empresas que devem terminar 2020 com crescimento de 90%

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

A despeito da crise econômica motivada pela pandemia, o setor de telecomunicações contabiliza ganhos nos últimos meses, especialmente em internet por banda larga fixa. Enquanto as maiores operadoras apontam estabilidade no crescimento, as pequenas alavancam indicadores sobre clientes, infraestrutura e estados atendidos. Se antes elas conquistavam o mercado no interior dos estados, agora chegam às regiões metropolitanas e capitais, competindo diretamente com as operadoras mais tradicionais no mercado. Prova disso é que, no país, o crescimento anual do setor é de 4,5%, comparando junho de 2019 com o mesmo mês deste ano, mas entre as pequenas a média é de 10%. Contudo, no Ceará, há empresas que devem terminar 2020 com crescimento de 90% e uma média de 300 contratações diretas por mês.

De acordo com o gerente regional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, Gilberto Studart Gurgel Neto, o serviço de banda larga fixa foi o que mais cresceu, enquanto a telefonia móvel vem diminuindo. O Brasil já chegou a ter 300 milhões de acesso de telefonia móvel, mas hoje o número é de 221 milhões, para uma população 210 milhões de habitantes. No Ceará, esses indicadores também estão reduzindo. Hoje há 7.9 milhões de celulares, mas em anos anteriores o número já chegou a 10 milhões, para uma população de 8 milhões de pessoas. “Enquanto esses serviços vêm caindo, de telefonia celular fixa e TV por assinatura, em contrapartida a banda larga fixa cresce assustadoramente”, compara o gerente.

Em junho deste ano, o Brasil contabilizou 34 milhões de usuários de banda larga fixa, enquanto no mesmo mês de 2019 o número era de 32 milhões. O crescimento equivale a quase 5%. O aumento, segundo Gilberto Studart, acelerou durante a pandemia. “Boa parte dos acessos foram através das operadoras de pequeno porte”, define. Se a média nacional para todos os portes de empresas não passou de 5%, entre as pequenas, que começaram atuando no interior e agora ganham mercado nas capitais, o salto no número de acessos é de 34,5%, sendo que 40% dos acessos são por fibra ótica.

“Ou seja, a tecnologia que eles usam é barata, vem caindo muito o preço, são extremamente velozes, bem mais do que as tradicionais. Como agora as pequenas estão atendendo em grande quantidade, os preços também baixaram, o que favorece a competitividade”, analisa o gerente da Anatel. Para ele, a grande vantagem desse modelo de negócio é a proximidade com o consumidor. “Entraram pelo interior do estado, em cidades com menos habitantes, fizeram aquela aproximação com bairros, casas, considerando as particularidades individuais dos usuários. Isso faz a diferença. Hoje tem domicílio de taipa com fibra ótica dentro da casa. É a tecnologia fiber to the home (fibra para o lar)”, classifica. Com a sigla em inglês FTTH, esse tipo de tecnologia interliga residências através de fibra ótica para o fornecimento de TV e rádio digital, acesso à internet e à telefonia com melhor qualidade e menos interferências e perdas.

Desse modo, localidades antes menos ou não assistidas agora dispõem de tecnologia avançada em cidades, distritos e bairros antes não atendidos pelas grandes operadoras. “Isso vem acontecendo no Brasil todo. Na verdade, é um movimento global. A tecnologia vem evoluindo sozinha e vem da China, Coreia, Taiwan, conseguindo disponibilizar produtos avançados com preços mais baixos”, pontua o gerente geral da Anatel. Para ele, quem entra depois no mercado ainda consegue vantagem, porque tem acesso a preços melhores na compra de plataformas.

Com esse modelo de negócio, a operadora começa treinando mão de obra, absorve trabalhadores no mercado local e os capacita. Eles mesmos, portanto, executam as redes. O movimento impacta diretamente na geração de emprego nas cidades, inclusive aquelas onde a agricultura era, anos atrás, a primeira opção de renda. No Ceará, esse processo resultou com a totalidade dos municípios atendidos por fibra ótica. Segundo dados da Anatel, essa tecnologia já chegou a 62% dos acessos nos lares cearenses.

O crescimento no setor, por ano, é de 4,5% entre todas as categorias de operadoras. Entre as pequenas, o índice chegou a 10%, comparando com junho deste ano e de 2019. “Elas dominam o interior, no Brasil todo”, informa Gilberto Studart. “As grandes muitas vezes não tinham interesse de atender localidades distantes e desassistidas. Os pequenos foram pegando esse mercado e atendendo não com rádio, mas com fibra ótica. As grandes têm até interesse, mas são mais lentas para fazer essa execução. Por isso fazem parcerias para as pequenas. É uma adaptação para as regras de mercado”, afirma o gerente geral da Agência. O que define se é prestadora é de pequeno porte é ser uma empresa com participação nacional inferior a 5% em cada mercado de varejo onde atua. Fora as cinco grandes (Claro, TIM, Oi, Telefonica (Vivo) e Sky AT&T), todas as outras são consideradas pequenas. Elas cresceram tanto que hoje reúnem mais de 10 milhões de usuários. Até o ano passado, formavam o segundo maior grupo de banda larga no Brasil, mas agora, juntas, lideram o mercado nacional e colocam as cinco grandes em segundo lugar em representatividade.

Gilberto Studart afirma que, em se tratando de reclamações formais junto à Anatel, as pequenas não lideram as queixas. “As reclamações são mínimas. Os consumidores têm um nível de satisfação bem maior, porque existe uma identificação e as operadoras são mais ágeis no atendimento. Os preços vêm sendo inferiores aos praticados pelas grandes. O custo operacional de construção e manutenção da rede também é mais baixo”, justifica.

Localização geográfica favorece Ceará no crescimento

No Nordeste, a maior densidade em banda larga é do Rio Grande do Norte. São 42,5 acessos por 100 domicílios. O Ceará aparece em segundo lugar, com 34,6 acessos, na mesma proporção e com tendência de crescimento, principalmente porque as operadoras locais reposicionaram o planejamento estratégico para ampliar a rede para regiões metropolitanas e capitais. No caso do Ceará, a localização geográfica favorece a ampliação do negócio e o contato com a tecnologia mais moderna em fibra ótica.

Segundo o gerente geral da Anatel no Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, Gilberto Studart Gurgel Neto, a agência dá suporte para essas empresas se instalarem e crescerem no mercado local. “Quando eles vinham pegar a outorga, nossos técnicos falavam da importância de usar redes óticas ao invés de rádio. Faz parte do negócio da agência regular o mercado. Então quando essas operadoras começaram a crescer, há 10, 15 anos, foram crescendo de forma orientada, para investir em plataformas que não ficariam obsoletas. Sempre orientamos para buscar novas tecnologias. Essa é a explicação para empresas locais crescerem mais do que outras. Elas foram orientadas a prestassem um modelo de negócio compatível com o que tinha lá fora, de forma indiscriminada”, diz.

Um dos fatores que diferencia o Ceará nesse processo é a localização geográfica. “Aqui recebemos a maioria dos cabos óticos que vêm para o Brasil. Por isso o custo final é mais baixo e é possível então oferecer bandas a preços mais baixos”, avalia o gerente, acrescentando que a facilidade na recepção de cabos intercontinentais acelerou a competitividade local. Os cabos que vêm da Europa, Estados Unidos e África chegam diretamente ao Ceará. No Brasil, a maioria dos cabos submarinos chega pela Praia do Futuro. “São características geográficas e topográficas que favorecem. Isso acaba barateando o custo do gigabyte”, diz.

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