Jornal Impresso

Novos ventos para nossa Fortaleza

Fortaleza ainda está no olho do furacão. Mas, pela primeira vez desde que a covid-19 chegou, amanhã parece melhor que hoje. Para que isso se concretize, adesão ao isolamento é crucial

Kelly Hekally
kellyhekally@ootimista.com.br

Especialistas do mundo todo alertam que, pós-pandemia, as dinâmicas sociais serão diferentes (Foto: Beatriz Bley)

A quarta semana de maio trouxe o que pode ser o aceno de uma nova e positiva caminhada contra o novo coronavírus em Fortaleza. Na última quarta-feira (20) ao anunciar que a Capital permanece em isolamento social mais rígido até próximo dia 31, o governador Camilo Santana afirmou que a Cidade está entrando em “zona de estabilidade da curva” e que, se o isolamento social for obedecido a rigor até a data, há perspectiva de retorno gradual das atividades em junho.

A mensagem renova as esperanças, mas impõe responsabilidade. Os números ainda são altos. No Ceará, 34.573 pessoas foram acometidas pela covid-19, com 2.251 vítimas fatais. Em Fortaleza são 19.270 e 1.548, respectivamente. Os dados são os mais atuais da Secretaria de Sesa (Sesa) até o fechamento desta edição.

Dados da Sesa coletados no início da noite de sexta-feira (22) mostram a continuidade da alta taxa de ocupação de leitos de enfermaria e Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com 71,93% e 95,23%, nesta ordem, no Ceará. Epidemiologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano Pamplona pondera que os efeitos da obediência às restrições de locomoção devem ser percebidos no decorrer de semana que se inicia, em vista do tempo que a doença leva para ficar, manifestar-se e se encerrar.

“Nestes últimos dias, as pessoas têm se mantido em casa. O efeito só saberemos daqui uns cinco dias. É reflexo que estamos vivendo do lockdown, que ao que tudo indica foi bem feito.” Segundo Pamplona, a tendência é de que a taxa de ocupação de leitos, condição sine qua non para a retomada gradual das atividades, sofra decréscimo também nos próximos dias.

Epidemiologista e pós-doutora em Saúde Pública, Thereza Magalhães avalia que a desobediência ao isolamento em abril refletiu-se negativamente semanas depois. “Percebi que a curva de contaminações estava há 15 dias com a ponta para cima, como que com uma tendência de aumento. Depois do lockdown, ela baixou.”

Ambos os especialistas reforçam a vulnerabilidade de parte da população. “As pessoas que tiveram a covid-19 criaram anticorpos e estão protegidas. As que não contraíram o vírus, não”, alerta o epidemiologista. Professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Thereza adverte que a taxa de transmissibilidade da doença deve ser a mais relevante métrica na próxima fase da covid-19 para a flexibilização em Fortaleza, pontuando que o ideal é que o índice chegue a R0,8, que significaria que uma pessoa com o novo coronavírus tem possibilidade de infectar, no máximo, uma pessoa.

Estratégias de retorno
Ao realizar uma prospecção de cenário, Pamplona pondera que o retorno de atividades deve ocorrer de maneira gradual, considerando regras que objetivam barrar a transmissibilidade, a exemplo da utilização de máscaras e distanciamento social de 1,5 metros, e que ele deve ocorrer nos setores em que as regras utilizadas durante o período de isolamento possam ser replicadas com mais segurança, bem como a fiscalização de funcionamento possa ocorrer. “Acredito que lojas pequenas e construção civil, por exemplo. Vai haver a liberação de áreas considerando especificidades e acompanhamento, talvez de dez em dez dias.”

O epidemiologista reafirma que, como a projeção é de aproximadamente 80% da população contaminada, Estado e Capital precisam manter estratégias para que a população, porventura, não necessite ao mesmo tempo de atendimento hospitalar. “Estou otimista com o mês de junho, acreditando que maio será mesmo o mais pesado, do nosso platô.”

Thereza também acredita que o retorno gradual de atividades, atrelado a monitoramento, pode ser uma medida assertiva. “Pode acontecer uma instabilidade, mas se obedecermos ao isolamento social que entre em vigência será menos perigosa.” Nesta sexta-feira (22), o titular da Secretaria de Saúde (Sesa), Dr. Cabeto, informou que a pasta planeja iniciar na semana que se inicia um inquérito sorológico, estudo que projeta a quantidade mais próxima do número real de infecções e que deve contribuir com mapeamento de áreas com mais incidência estratégias de retomada.

A epidemiologista explica que, a depender do cálculo utilizado, o levantamento será mais uma ferramenta de auxílio do retorno. “Cruzando dados coletados com a incidência da doença nas localidades será possível entender como a doença está e o que deve ser feito.” Assim como Pamplona, a epidemiologista reforça a necessidade de se manter as regras de distanciamento social e higienização, incluindo a de alimentos.

“O vírus, por mais agressivo que seja, pode ser combatido com ações de higiene de maneira correta. Lavar as mãos com sabão e os alimentos com detergente são algumas das coisas que podemos fazer. Se fizermos nossa parte, observando os hábitos que temos em nossas casas e os levando para as ruas, estaremos fazendo nossa parte diante da saúde coletiva. Acredito que cada um fazendo a sua parte pode sim dar certo.”

Parcimônia
Ressoa como alento ver o número de pessoas recuperadas da covid-19 no Ceará. Quase que como em oração, choramos as vidas que se foram, pedindo que elas sejam luz e combustível para o olhar do poder público com os que ficaram. Depois de aproximadamente dois meses enxergando o mundo de janelas, varandas e telas – no caso dos que não podem parar, das ruas – parece que podemos começar a respirar, com alta dose de parcimônia, novos ventos. O pedido #fiqueemcasa segue. Não relaxemos. Sigamos, pela nossa segurança e de nossos pares, sendo resistência, mostrando a tudo e a todos, mesmo que a um ser microscópico, que unidos – ainda que não reunidos – somos, sim, mais fortes.

Kelly Hekally, editora-adjunta de Panorama

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS