Economia

Novo mínimo acompanha a inflação, mas não repõe perdas do trabalhador

Governo prevê piso salarial de R$ 1.088 para 2021. Novo reajuste tem por base somente a inflação ao longo do ano. Segundo especialistas, a medida estará aquém de suprir as necessidades básicas da maioria das famílias

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br


Em 2021, o salário mínimo no Brasil terá um reajuste de 4,1%, alcançando o valor de R$ 1.088. Essa foi a projeção divulgada ontem (15) pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
A previsão dos novos números acompanha o aumento da inflação nos últimos meses, mas, de acordo com analistas, estará aquém de suprir as necessidades básicas da maioria das famílias, pois há uma série de perdas do poder de compra não contempladas pelo novo reajuste. “Até 2019, a correção do salário mínimo era feita com base na inflação do ano anterior, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), somada à variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. Ocorria um ganho real, mas esse cálculo mudou, e a correção para 2021 será apenas a da inflação deste ano, medida pelo INPC. Aquele ganho real desapareceu, no entanto, o reajuste está dentro do que se esperava, em razão do novo cálculo do governo”, analisa o economista Ricardo Eleutério Rocha, conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE).
De acordo com o economista Ricardo Coimbra, presidente do Corecon-CE, a relação entre inflação e salário mínimo, para o reajuste proposto pelo governo, é questionável. “O ideal é que houvesse a possibilidade de recuperação real do salário mínimo, principalmente quando se observa que o INPC, que retrata melhor a inflação para os indivíduos que ganham menos, está um pouco superior ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Além disso, os índices alimentares, na média, vêm crescendo mais do que outros, afetando especialmente os que têm renda mais baixa e sofrem mais com o processo inflacionário”, compara.
Depois de definido o valor exato do novo piso nacional, o governo terá um panorama melhor da inflação de 2020 para reajustar o salário mínimo dos 12 meses seguintes. Em agosto, a previsão do Ministério da Economia era que o piso salarial subisse dos atuais R$ 1.045 para R$ 1.067. “Pela lógica, os preços deveriam correr atrás dos salários. Na realidade, os salários é que correm atrás dos preços, porque eles podem ser reajustados diariamente, enquanto o salário mínimo é reajustado apenas anualmente. Existe um hiato temporal para recompor, teoricamente, as perdas que a inflação produziu no poder de compra da população”, detalha Ricardo Eleutério.

Impactos
Ele lembra que todo reajuste do salário mínimo traz impactos para os gastos das empresas com os funcionários – custo extra que normalmente é repassado para o preço dos produtos e serviços. “Esse reajuste também produz uma série de impactos na economia, com repercussões nas contas públicas, relativas ao pagamento de aposentados e pensionistas”, detalha Ricardo Eleutério.
Para Ricardo Coimbra, em virtude da fragilidade no controle dos gastos públicos, o governo continuará tendo que lidar com o dilema do salário mínimo por um bom tempo.
“É difícil o Congresso aprovar algo diferente disso (reajuste conforme a inflação), por isso essa situação deve permanecer, até que se tenha uma reforma previdenciária diferenciada, que desvincule o salário mínimo e gere a possibilidade de recebimento da aposentadoria através de regimes de capitalização, e não mais por um regime de repartição simples, onde cada indivíduo, a partir de um teto mínimo, recebe com base naquilo que contribuiu”, opina o presidente do Corecon-CE.

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