Economia

Métodos, produtos e negócios surgem durante pandemia

Trabalhar em casa, fazer reuniões com interlocutores em estados e países diferentes e criar estratégias e produtos adaptados ao momento garantiu não só a sobrevivência de empresas, mas expansão de negócios e a efetivação de um modelo de liderança responsável socialmente e colaborativa

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Já são quase seis meses de pandemia no Brasil e um sem número de mudanças nos negócios. A incorporação das plataformas digitais à rotina de trabalho foi só o primeiro passo. Reuniões remotas com participantes de estados e mesmo países diferentes, operações fechadas com certificação e assinatura digitais, home office não mais como obrigação, mas alternativa de gestão, líderes buscando soluções em governança, valorização das relações interpessoais e sinergia com os clientes estão entre as transformações por que passam empresas, pessoas e o próprio modelo de trabalho. O momento revela que empresas com compromisso social e abertas ao modelo colaborativo de gestão estão em sintonia com o que o mercado e a sociedade demandam.

Nos três primeiros meses de pandemia, entre março e início de junho, as atividades econômicas pararam a atuação presencial, mantendo-se apenas serviços essenciais. O período foi o mais desafiador para empresas e trabalhadores, especialmente em negócios que têm na interação interpessoal uma das ferramentas de operação. “Primeiro foi preciso se acostumar a trabalhar à distância. Houve muitas conversas com a equipe até nos acostumamos a usar as plataformas digitais. Aconteceu rápido porque era uma necessidade daquele momento. Ganhamos mais velocidade e produtividade”, explica o sócio-fundador da Arêa Leão Consultoria Empresarial
Escritório de Finanças Corporativas, Ênio Arêa Leão.

Segundo ele, nesse cenário, a primeira barreira a ruir foi a da distância. Com isso, negócios passaram a ser fechados integralmente por meio digital, inclusive com clientes novos, que até hoje não se conhecem pessoalmente. “A gente acabou somando alguns clientes fora daqui sem precisar se deslocar. Antes precisava viajar, fazer visitas, conhecer as pessoas e só depois, talvez, fechar o negócio”. Com a pandemia, as etapas físicas não aconteceram naquele momento e o relacionamento corporativo passou a se concretizar pela internet. “Houve trabalhos que começaram e terminaram nesse período de pandemia, outros clientes agrupamos nesses meses sem sequer nos conhecermos pessoalmente ainda”, complementa.

Para Ênio Arêa, alguns comportamentos vão permanecer, mesmo após a pandemia. “Não acredito no trabalho 100% à distância, porque a gente precisa desse relacionamento pessoal, da interação, do olho no olho. Mas em grande medida outras coisas vão ficar, como as reuniões de rotina com clientes que moram em outras localidades”, avalia. Quando se trata de uma equipe jovem, com faixa etária abaixo dos 30 anos, o consultor acredita que a facilidade é ainda maior de incorporar esse processo, porque são pessoas que já nasceram em uma ambiência digital.

Sobre o trabalho em casa, o processo exigiu adaptação, uma vez que tradicionalmente, no país, não havia o hábito de unir trabalho e residência no mesmo espaço. “Muitas pessoas tiveram que adaptar o ambiente em casa, porque nem todo mundo pensava nessa perspectiva. Em um mês, todo mundo já tinha se adaptado”, informa. No pós, à medida que as atividades presenciais foram liberadas por decretos governamentais, há pessoas que preferem não voltar tão rápido, enquanto outras querem retornar logo à rotina de escritório. No caso da consultoria empresarial, metade da equipe se reveza no trabalho presencial, enquanto a outra parte segue em home office.

Ênio Arêa não consegue mensurar, contudo, que impacto sofrerá a produtividade no trabalho. “Se a produtividade for maior ou menor do que a economia que a gente está tendo de deslocamento e em custo de escritório, vamos partir definitivamente para um modelo híbrido, misto”, antecipa. Ênio conta que, na empresa, houve paralisação das atividades, mas o trabalho em nenhum momento foi interrimpido, inclusive com negócios fechados completamente por canais digitais.

“Seu microfone está desligado” foi a frase mais falada do ano, na opinião do consultor. Isso demonstra que, mesmo com todas as falhas e aprendizado no processo, o home office vai se manter, em alguma medida. “Quando for necessário, vamos continuar viajando. Alguns assuntos na vida do cliente precisam de análise mais próxima, mais detalhada, Além disso, vamos conhecer pessoalmente clientes que incorporamos digitalmente nesse período, isso é fundamental”, justifica.

Em função das novas estratégias de negociação e atuação das empresas junto às redes sociais, os clientes do escritório aumentaram entre 15% e 19%. Ênio Arêa lembra que, no auge das incertezas econômicas e sociais, 40% dos clientes demandaram soluções imediatas para a empresa, buscando apoio em gestão financeira e jurídica. “As empresas tiveram que se replanejar. Alguns clientes passaram a faturar zero, outros viram a demanda aumentar, como nos segmentos de alimentos e material de construção. Todos esses movimentos diferentes precisam de replanejamento. Ajudamos a empresa a encontrar caminhos para passar por esse momento”, diz.

O consultor considera que os primeiros 60 a 90 dias foram para entender o que estava acontecendo. Quem se saiu melhor foi quem teve melhor capacidade de se adaptar. Além disso, Ênio Arêa lembra que encontros virtuais com clientes de São Paulo, Pará, Argentina e Fortaleza, simultaneamente, passaram a ser comuns para estabelecer procedimentos de atuação. Nesse contexto, o consultor acredita que muitos laços foram estreitados com clientes antigos. Já com os novos, os processos trouxeram avanços e novas relações. “Não adianta ficar paralisado, é preciso olhar para a frente, mesmo com toda a dificuldade e incerteza, e buscar uma construção positiva e coletiva”, sugere. Nesse contexto, ceder foi necessário. Os bancos, por exemplo, que não aceitavam fazer reuniões relevantes online por questão de sigilo e segurança de dados, se readaptaram para utilizar plataformas digitais de comunicação com clientes, inclusive para reuniões com investidores.

Contratos fora do país fechados à distância

A psicóloga Adriana Bezerra do Carmo viveu isso não só com atendimento a empresas, mas como empreendedora também. Fundadora da Flow Desenvolvimento Integral, ela fechou contratos no meio digital, realizou reuniões com 25 executivos do Brasil e de mais três países da América Latina e preparou líderes para esse novo momento da economia. Atuando a partir dos eixos da saúde emocional, bem-estar e da redução do estresse e enfrentamento do medo e ansiedade, a psicóloga constatou que o isolamento e o cerceamento da liberdade impactaram profundamente nas relações interpessoais e corporativas.

“Não sair não era opção, era obrigação e necessidade. O processo de interação no campo virtual é mais difícil. É na rotina da empresa que se desenvolvem as relações sociais. As relações interpessoais positivas dentro das empresas são o grande causa geradora de engajamento. Criam uma rede de sustentação e apoio, as pessoas confiam mais umas nas outras, o ambiente fica mais emocionalmente seguro. Isso gera engajamento e resultado, inclusive financeiro. Fazer isso em casa é mais difícil”, analisa Adriana Bezerra do Carmo.

Para ela, o ser humano precisa estar no centro da estratégia do negócio. Isso porque a automação pode realizar tarefas e processos, mas não substitui pessoas. Com a possibilidade de perder o emprego durante a pandemia, o medo, a ansiedade e o estresse ganharam espaço. “É um desafio muito grande para as empresas retomar esse processo, mas é possível, fortalecendo suas culturas no ambiente virtual ou híbrido. Não dá para fazer sem o humano, não há automação que substitua o que o humano pode fazer. Isso ficou muito claro na pandemia. Essa centralidade humana é o que de fato precisa ser feito nesse momento. As pessoas estão muito afetadas, muita gente passou pela doença, outras tiveram familiares doentes, perdas de pessoas próximas. A empatia é tão forte que todos são afetados”, considera a psicóloga.

Nesse contexto, é necessário fortalecer culturas organizacionais, mesmo à distância ou em modelos híbridos de trabalho. Isso gera conexão com o propósito da empresa e saúde emocional para todos os envolvidos. Insistir em um modelo unilateral é persistir no erro, de acordo com Adriana Bezerra. “Precisamos cultivar esse processo empático e de compaixão construído na pandemia. Com empatia olho e me coloco no lugar do outro. Na compaixão sinto o que o outro sente e faço uma ação”, ensina, completando que as redes solidárias devem unir habilidades humanas e propósito da empresa.

O momento, para a psicóloga, é obter resultados que vão além do lucro: “buscar ser uma empresa boa para a sociedade, propositiva, próspera, que tenha resultado financeiro, mas que tenha compromisso com a região em que atua”. Como facilitadora do indicador Felicidade Interna Bruta (FIB ou Gross National Happiness, conceito de desenvolvimento social criado em alusão ao Produto Interno Bruto, PIB), Adriana lembra que os fundos de investimento avaliam três variáveis quando vão aplicar em um negócio: atuação social, responsabilidade com o meio ambiente e governança. As empresas, nesse momento, precisam se enxergar como organismos vivos, em que uma área depende da outra e ambas são corresponsáveis e interdependentes.

Consultoria virtual garante apoio em crescimento

Qualquer empresa em expansão precisa se reinventar com apoio de consultorias, novos processos e tecnologia. Com a Loucos por Coxinha não está sendo diferente, mesmo com a pandemia. Apesar do fechamento das atividades econômicas, a franquia buscou soluções no cenário em que era permitido atuar, incorporou definitivamente o delivery, que hoje responde por 18% a 20% do negócio, e tem planos robustos de crescimento, mesmo operando com 70% a 80% das operações praticadas no início do ano. Nesses meses de incertezas, a empresa saiu da zona de conforto, fortaleceu a governança interna e fechou negócios com consultoria sem contato físico com os atores, em outro estado de atuação da sede.

Já no primeiro mês de pandemia surgiu a necessidade de mudar. Com 32% dos negócios no Ceará (12 dos 50 pontos de venda localizados no Norte e Nordeste), a empresa que nasceu em 2014 no Rio Grande do Norte ampliou serviços que já utilizava em tecnologia. Utilizando sistema que permitia soluções digitais, mas com reuniões físicas mensais, o modelo passou logo em março a ser completamente online e se intensificou à medida que a pandemia se agravava nos estados. “Saímos da zona de conforto, que era buscar soluções no estado sede, na Paraíba. Quando me relaciono com outros estados ganho em novos olhares e experiências. Assim, pedi duas referências e logo fechamos com a consultoria do Ceará”, recorda Pablo Farias, proprietário da franquia.

Segundo ele, a primeira reunião, pela plataforma Zoom, foi fundamental para estabelecer o acordo. “Fechamos em abril e ainda não nos conhecemos pessoalmente. Agora estou em São Paulo, concretizando outro negócio com uma consultoria que contratei também na pandemia. É uma outra visão, outra conotação de mercado para novos projetos. Tenho certeza de que tem consultorias boas no meu estado, mas buscamos também sinergia, inovação”, justifica, acrescentando que a assistência à distância não representa perda. “O nível de profissionalismo é extraordinário. Por isso funciona”, ressalta.

Quando começou a pandemia, a análise do negócio foi feita em um cenário pós-pandêmico. “Vamos permanecer unidos”, frisa, referindo-se aos 19 franqueados e trabalhadores da empresa. No período, Pablo conta que desfez vínculo de trabalho com apenas três funcionários. Todos, segundo ele, saíram da empresa para empreender. “Estou apoiando cada um. Eles viram a oportunidade e podem ser agentes de mudança agora, gerando outros empregos em uma situação tão difícil e delicada”, analisa.

Entre as soluções buscadas pela franquia para não se afastar do cliente, o delivery foi a mais imediata. “Mesmo que a conta não fechasse, não poderíamos nos afastar de quem sempre esteve perto. Foi para matar a saudade também, não se distanciar. Isso foi muito importante. Criamos um novo canal de vendas que será mantido depois da pandemia. Estamos fortalecendo o serviço, criamos uma plataforma própria e usando também as plataformas dos shoppings, que são mais baratas. Nossa certeza era a sinergia com nosso público”, justifica.

Antes da pandemia, em janeiro e fevereiro, a estratégia da Loucos por Coxinha era abrir mais 10 lojas. Nos meses seguintes, a meta passou a ser abertura de 20 quiosques, fortalecendo a atuação no Norte e Nordeste e chegando a cidades como Juazeiro do Norte, Teresina, Tocantins e Belém, por exemplo. Antes da pandemia, havia 45 pontos de venda. Cinco foram abertos nos últimos meses e mais 15 devem ser inaugurados até o fim de 2020, em cidades como Aracaju, Salvador, Juazeiro do Norte, Juazeiro da Bahia, Feira de Santana, Belém, São Luís, Imperatriz e outras. Em 2021, os planos são chegar a outras regiões com 30 novos pontos de venda.

Para isso, Pablo Farias considera que planejamento e estruturação financeira são fundamentais. “Quem não tinha isso ou não desenvolveu fechou durante a pandemia ou saiu muito debilitado. O dinheiro está no mercado, o consumo vai existir. Eu acredito muito que os próximos dois anos vão ser para criar empresas com bom plano de ação, governança, relação segura entre cliente e produto”, sinaliza. Com base nisso, Farias planeja que, em 2022, a franquia estará com 150 quiosques, inclusive com novas marcas e produtos. “Estamos trabalhando outros modelos, pensando em inovação. O quiosque tem uma limitação. Por isso a ideia é agregar produtos e marcas. Isso veio durante a pandemia. Por 90 dias eu vivi a pandemia, mas pensava no depois, onde eu queria estar, para onde eu queria expandir. Para isso estamos buscando oportunidades e apoiando quem quer crescer nesse momento”, diz.

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