Economia

Mercado financeiro reduz projeção de queda da economia brasileira para 5,05%

Último Boletim Focus, apresentado ontem pelo Banco Central, tem metas positivas que coincidem com o crescimento econômico neste e nos próximos três anos. Contudo, cenário de pandemia ainda requer cuidados por parte do mercado

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Nessa segunda-feira, o Banco Central divulgou a nova edição do Boletim Focus. No documento, analistas de mercado prosseguem com a elevação da projeção da inflação para perto de 2% no fim do ano. Além disso, o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter menor queda, como vem sendo mostrado nas últimas semanas. A atual estimativa do PIB é de retração de 5,05% em 2020, contra 5,11% da semana passada. Nesse cenário, a retirada de estímulos como o auxílio emergencial requer cautela pra não impactar negativamente nesse processo.

Há quatro semanas, estimava-se que o PIB fechasse em 5,46% negativos. Com o passar dos dias, medidas monetárias e fiscais contribuíram para o índice apresentar uma queda menos acentuada, inclusive com perspectiva positiva nos próximos anos. A expectativa é que, em 2021, o país cresça 3,50% e mantenha o ritmo nos dois anos seguintes, com indicador estimado em alta de 2,50% para 2022 e 2023.

“Essas projeções estão dentro de um quadro de relações macroeconômicas. Quando se fala em variação positiva do PIB, isso vem casado com um pouco mais de inflação. Então, se os anos seguintes – 2021, 2022 e 2023 – virão com mais crescimento econômico, significa que haverá um pouco mais de inflação. “Do mesmo jeito que temos previsão de recessão um pouco menor, a a previsão de inflação é um pouco maior. Isso está bem alinhado e correlacionado. Com taxas um pouco mais altas, a inflação sobe um pouco, o Comitê de Política Monetária (Copom) eleva a Selic. Nos próximos anos, com a Selic subindo um pouco em cada ano, é possível enfrentar uma inflação maior a cada ano”, analisa o professor de Economia da Universidade de Fortaleza e conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon), Ricardo Eleutério.

Para o professor, a queda no indicador de recessão se deve à reabertura da economia e aos estímulos fiscais e monetários anunciados nos últimos dias, como a extensão do auxílio emergencial até o fim do ano. Mesmo que não seja mais de R$ 600, a ajuda de R$ 300 motiva o consumo, o crescimento e gera um pouco mais de inflação. Nesse quadro, Ricardo Eleutério alerta para a retirada do auxílio e necessidade de garantir o equilíbrio fiscal do país. “Há muitos anos que a economia vem com dificuldade de crescer. Nesse ano de 2020 tivemos um tombo, o mundo inteiro. O problema maior agora é sair desse cenário e fazer a retirada dos estímulos fiscais e monetários. Precisa ter muita habilidade para não gerar inflação e para atender ao problema do desequilíbrio fiscal, que é enorme”, sugere.

Na visão do economista, “a retirada dos auxílios fiscais tem um dividendo político e eleitoral muito grande”. Isso porque, para Eleutério, parece ser “sedutor manter”. Contudo, é importante dar um próximo passo, considerando o equilíbrio fiscal do país. Assim, mais prudente do que fazer uma nova diminuição no valor, para o professor é necessário zerar o auxílio a partir de 2021. “Ano que vem o cenário é todo outro, de crescimento do PIB, investimento, de mais normalidade. Não tem sentido macroeconômico manter esses estímulos. Esse processo deve ser conduzido em total harmonia e equilíbrio com o Ministério da Economia e o Congresso Nacional”, apoia.

Entre os cinco maiores acertos do Boletim Focus, o chamado Top-5 de curto prazo, a previsão é de um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no fim do ano a 1,95%, indicador acima do esperado na semana passada, que era de 1,94%. Há quatro semanas, a estimativa era de 1,63%. Para 2021, o TOP-5 manteve a previsão da inflação oficial em 3,01%. Há quatro semanas, o mercado percebia uma inflação encerrando 2020 em 1,71%. A aposta para o fechamento do ano-calendário segue abaixo do centro da meta de 4% e abaixo do piso da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. A aposta também fica abaixo do centro da meta de inflação estipulado para o ano que vem, de 3,75%.

Sobre a taxa Selic, os analistas seguem esperando que fechamento de 2% em 2020, sem cortes adicionais pelo Copom. Já o TOP-5 segue sua projeção da Selic em 2020 para 1,88%, apostando um corte residual de 12 pontos-base pelo Copom na reunião de outubro. Para 2021, os economistas mantiveram a expectativa da Selic a 2,5%, e seguiram com a de 2022 em 4,50%. Em 2023, a estimativa da taxa básica de juros foi de 5,50% para 5,63%.

Já o TOP-5 manteve a previsão da Selic em 2,0% em 2021, e elevou de 4,25% para 4,50% em 2022 e mantiveram em 5,5% em 2023. O Banco Central manteve na quarta-feira a Selic em sua mínima histórica de 2% ao ano após nove cortes consecutivos, conforme esperado pelo mercado, e, em um comunicado sem grandes novidades quanto à política monetária, reconheceu que a inflação deve acelerar no curto prazo. “Contribuem para esse movimento a alta temporária nos preços dos alimentos e a normalização parcial do preço de alguns serviços em um contexto de recuperação dos índices de mobilidade e do nível de atividade”, aponta o Banco Central. Ao considerar o balanço de riscos para a inflação, o Copom introduziu uma nova mensagem ao ponderar quanto à possibilidade da derrocada da economia produzir inflação abaixo do esperado, que a ociosidade está notadamente concentrada no setor de serviços.

Investidor estrangeiro saca reservas com dólar em alta

Ainda bastante cauteloso sobre a retomada do crescimento econômico brasileiro, o investidor estrangeiro não quer correr muitos riscos. Com o dólar em alta e juros em baixa, para eles compensa mais aplicar lá fora. Isso porque, para esse tipo de investidor, esse cenário é rentável para aplicações em moeda mais forte do que o real. Com o cenário atual, muitos investidores sacaram suas aplicações em busca de uma movimentação mais assertiva para seus negócios.

Como explica o especialista em investimentos Gabriel Carneiro, da Aveiro Consultoria, quando os juros estavam em média 15%, até as aplicações mais conservadoras não precisavam de muita movimentação para render. Para o investidor brasileiro, especialmente, o fator segurança é preponderante em um cenário de juros altos. Mas, com a taxa Selic com tendência a chegar a 2% no fim de 2020, as perspectivas não são as melhores para esse tipo de negócio. “Para o daqui, principalmente o brasileiro, tinha muito a questão da segurança, não precisava se movimentar muito. Os investidores estão tendo a necessidade de encontrar outas atividades de investimento, não se limitar à renda fixa e à poupança. Com a taxa de juros baixa não vai ter o mesmo retorno”, ressalta.

De acordo com Gabriel Carneiro, como houve grande demanda de dólar, muitos investidores acharam mais prudente sacar suas aplicações no Brasil. “Enquanto o dólar se mantiver alto, esse tipo de investidor não vai retornar ao país. O mercado acredita que esse patamar vai perdurar, pois tem uma influência direta sobre a inflação”, diz, acrescentando que isso se deve ao fato de muitos produtos consumidos no Brasil serem importados ou oriundos de matéria-prima de outros países. “Isso faz o valor agregado do produto subir”, detalha.

Para o investidor estrangeiro voltar a aplicar no Brasil, Carneiro acredita que alguns fatores influenciam, como o índice de confiança na economia e no governo. “A taxa de juros muito baixa não tem tanta atratividade. O dólar é a moeda mais forte. Para ele sacar e aplicar em algo arriscado, tem que valer muito a pena. Se ele tem desconfiança, se ele achar que o risco não compensa, ele não vai fazer essa movimentação”, afirma o especialista.

Em relação ao dólar, as apostas de 2020 seguiram nesta semana apontando nova projeção de R$ 5,25 no fim do ano. Já o Top-5 segue sua projeção ao prever que o dólar feche 2020 a R$ 5,20. No ano que vem, as estimativas seguem em R$ 5,00, a mesma estimativa de quatro semanas atrás, enquanto o Top-5 seguem em R$ 4,80. Em 2022 e 2023, as projeções se mantiveram em R$ 4,90, enquanto o Top-5 manteve em R$ 4,50 em 2022 e em 2023.

Para o consultor em economia, o mercado ainda está bem cauteloso a respeito de retomada de crescimento, mesmo com a melhora nos indicadores. “Ainda é um dado meio baixo. Alguns indicadores são bastante relevantes, tanto o PIB, que é o principal, como a inflação, indicador interessante para investimentos como um todo. A inflação projetada para o final está em 2%. Um investimento que gera 5% no ano, bruto, o lucro vai ser os 5% menos o 2% da inflação. Com a taxa de juros hoje no mercado, as empresas vão tomar mais crédito, então provavelmente haverá aumento do consumo e da inflação”, completa.

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