Economia

Mercado financeiro prevê inflação de 1,94% ao ano

Analistas preveem ainda índices de câmbio, juros e PIB. Expectativa é que, ao longo dos próximos meses, consumo aumente e contribua para retomada da economia

Marta Bruno

martabruno@ootimista.com.br

Em se tratando de economia, o que está acontecendo agora no país jamais foi sinalizado nos primeiros meses de pandemia. O mercado financeiro, por exemplo, espera por inflação maior este ano. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi alterado de 1,78% para 1,94% por instituições financeiras consultadas pelo Banco Central. A nova estimativa está no boletim Focus. Consumo e novos comportamentos de compra e de investimentos são determinantes nesse processo. Investidores e analistas de mercado também têm previsões já fixadas sobre taxa Selic, câmbio e Produto Interno Bruto (PIB).

A revisão na estimativa ocorreu após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informar, no último dia 9, IPCA de 0,24% em agosto, a maior taxa para o mês desde 2016, quando o índice havia sido de 0,44%. A inflação de agosto foi influenciada principalmente pelo aumento do custo dos transportes (0,82%) e dos alimentos (0,78%). No ano, a taxa de inflação ficou em 0,70% no ano e, em 12 meses, em 2,44%.

Para a vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Renata Santiago, alguns fatores foram determinantes ao longo dos cerca de 90 dias com atividades econômicas paradas ou com restrições de funcionamento. “Só no setor da construção civil, uma das atividades motoras da economia, foram 40 dias parados. Abril e maio foram o pico. Em junho começamos a voltar, mas foi um retorno muito sofrido, de muito medo, uma das coisas que mais mexe com a atividade econômica. Se eu tenho medo, em linhas gerais reduzo meu consumo, inclusive de alimento”, explica Renata, que é diretora financeira da BSPar Incorporações.

Ela espera que, com o estado entrando na última fase do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais, o comportamento consumidor se estabeleça em um novo momento. “As pessoas estão perdendo o medo e consumindo, embora infelizmente os casos de morte ainda aconteçam, principalmente os ligados a comorbidades. Nesse tempo, o cearense vem aprendendo a lidar com um novo tipo de consumo”, diz, acrescentando que percebe-se uma tendência clara a melhorar, buscar nova moradia ou ter uma segunda opção para temporadas de lazer. “É uma forma de resguardar o patrimônio, seja na locação ou manutenção daquele ativo”.

Para Renata Santiago, os indicadores referentes à inflação são uma questão de oferta e demanda. A vice-presidente do Ibef defende que, para o mercado se tornar atrativo, precisa reduzir o preço do produto e gerar uma demanda maior. “Alguns produtos se tornaram demandas nulas. Agora está havendo readequação de alguns mercados. Não só de aquisição de imóveis, reforma, material de construção. Há uma nova ordem econômica oscilando nessa taxa de inflação”, considera.

A possibilidade de aumento para 1,94% representa, para a executiva, que novas demandas estão acontecendo, que envolvem serviços e varejo. “A redução da taxa Selic está mudando a forma de as pessoas consumirem. A pandemia mostrou novas prioridades”, diz. Para ela, a revisão dos dados se dá em função de um novo perfil de consumo. Viajar mais internamente, fazer uma piscina, priorizar a convivência familiarCada um tem seu senso de urgência. O que a gente percebe é uma mudança de comportamento. O lojista está saindo do conforto da sua loja para encontrar o cliente lá fora”, aponta.

Apesar do aumento na projeção para o IPCA, a estimativa do mercado financeiro ainda está abaixo do piso da meta de inflação (2,5%) que deve ser perseguida pelo Banco Central (BC). A meta, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 4% em 2020, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 2,5% e o superior, 5,5%. Para 2021, a estimativa de inflação foi ajustada de 3% para 3,01%. A previsão para 2022 e 2023 não teve alteração: 3,50% e 3,25%, respectivamente. A meta de inflação para 2021 é 3,75%, para 2022, 3,50%, e para 2023, 3,25%, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, em cada ano.

Para alcançar a meta de inflação, o Banco Central usa como principal instrumento a taxa básica de juros, a Selic, estabelecida atualmente em 2% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Para o mercado financeiro, a expectativa é que a Selic encerre 2020 em 2% ao ano. Em 2021, a expectativa é que a Selic suba, encerrando o período em 2,5% ao ano. Na semana passada, a previsão estava em 2,88% ao ano para o final de 2021. A trajetória de aumentos na taxa segue nos anos seguintes. Para o fim de 2022, a previsão é 4,5% ao ano e para o final de 2023, 5,5% ao ano (a previsão da semana passada era 5,75%).

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo, reduzindo o controle da inflação e estimulando a atividade econômica. Entretanto, os bancos consideram outros fatores na hora de definir os juros cobrados dos consumidores, como risco de inadimplência, lucro e despesas administrativas. Quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, o objetivo é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

A previsão do mercado financeiro para a queda do Produto Interno Bruto (PIB) este ano foi ajustada de 5,31% para 5,11%. O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país. Para 2021, a expectativa é de crescimento de 3,50%, a mesma previsão há 16 semanas consecutivas. Em 2022 e 2023, o mercado financeiro continua a projetar expansão de 2,50% do PIB, em cada ano. Já a projeção do dólar permanece em R$ 5,25, ao final deste ano. Para o fim de 2021, a expectativa é que a moeda americana fique em R$ 5.

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