Economia

Mercado de investimentos foca na democratização de perfis

Alternativas à renda fixa atraem cada vez mais pessoas físicas, mas especialistas alertam sobre os riscos e a necessidade de estudar todo o mercado

Lucas Braga
economia@ootimista.com.br


Aplicar capital em fundos de investimento ou mesmo em renda variável deixou de ser atividade quase exclusiva a investidores de alto poder aquisitivo. A tecnologia tem sido a principal disseminadora de informações para acessibilizar esses investimentos diversificados e ir muito além da caderneta de poupança.
Com a taxa básica de juros no menor patamar da história, a migração para alternativas rentáveis é a sugestão dos especialistas. O momento tem demandado mais esforço do investidor tradicional, ainda que este insista na segurança. Dentre outros motivos, a liquidez levou os brasileiros a depositarem mais do que sacarem da poupança desde março, com o início da pandemia.
Em agosto, a captação líquida foi de R$ 11,4 bilhões acima dos saques, segundo o Banco Central. O valor é oito vezes maior que o mesmo período no ano passado. Foi ainda o maior já registrado para o mês desde o início da série histórica da caderneta de poupança, em 1995. Apesar da recuperação da bolsa de valores e da melhora das condições de outros investimentos, como títulos públicos, a opção de muitos tem sido conservadora.
Mas com o dinheiro na poupança rendendo menos que a inflação, a perspectiva é de migração. Especialista em investimentos da Aveiro Consultoria, Gabriel Carneiro alerta que as alternativas dependem do perfil de cada aplicador. “Antes, não compensava arriscar capital porque a Selic alta garantia 15% de retorno ao ano, por exemplo. Mas a mudança de cenário é grande e o investidor precisa de criatividade para ter uma rentabilidade assim. É um movimento natural”, aponta.
A jornalista Giulianne Batista diz não ter “coragem e conhecimento” suficientes para arriscar no mercado de ações e, por enquanto opta pelo CDB e Tesouro Direto. “São definitivamente melhores do que deixar parado na poupança”, analisa.
Ela mantém reservas com objetivos específicos. “Sempre economizei. Estava tentando voltar a me organizar financeiramente desde o ano passado e poupar. De julho para cá tenho conseguido, com meta de custear meu doutorado em Portugal”, completa Giulianne, dizendo ainda ter vontade de migrar parcialmente para a renda variável.

Risco da renda variável
Com a desestimulante remuneração da renda fixa, o pequeno investidor tem começado a conhecer ativos de renda variável, como ações, fundos imobiliários e até produtos mais complexos como opções, derivativos e minicontratos. Esta última foi a escolha recente de Tiago Garcia Lemos, que era empresário e hoje é trader. “Há um ano iniciei, mas tive prejuízos. Depois passei uns seis meses estudando e juntando capital. Voltei a atuar na bolsa desde julho. O que seria minha renda auxiliar virou a renda principal”, comemora.
Ele também mantém fundos de investimento, os quais têm menor risco, mas se dedica ao Mini Índice, um contrato futuro do índice Ibovespa, onde o investimento inicial é menor. Os minicontratos surgiram em 2001 e facilitaram a entrada do pequeno investidor no mercado futuro. Ainda assim, a principal dica dos especialistas é a capacitação antes de iniciar os investimentos. Além dos estudos pessoais para entender o mercado, contratar assessoramento especializado pode ser essencial aos planos do iniciante.
“É um mercado muito complicado. Você tem que aceitar as perdas e ter paciência, acrescenta Tiago.

Economistas recomendam que investidores avaliem variáveis antes de iniciar

Raul dos Santos Neto, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), analisa que alguns novos investidores podem simpatizar mais com marcas próximas, cotidianas e com produto final acessível. “Quando se tem a oportunidade de conhecer a história da empresa e a circulação do produto, tem-se a experiência mais concreta para além das análises frias de números e projeções”.
Além da oscilação frequente do valor da ação na Bolsa e grande sensibilidade dos preços aos acontecimentos macroeconômicos e políticos domésticos e internacionais, IPOs ainda têm riscos adicionais. Especialistas sugerem que iniciantes optem por ações já listadas e sólidas, com histórico de entrega de resultados e de pagamento de dividendos, por exemplo. Ofertas secundárias, cujos recursos vão para acionistas vendedores, têm risco adicional. “O risco e a instabilidade precisam ser conhecidos. Depende também se o perfil do investidor é mais conservador ou arrojado, se vai preferir as operações do dia a dia de mercado, por exemplo. Todos os detalhes são importantes”, pontua Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia no Ceará (Corecon).

Diferenciar o “novo normal” do que é passageiro

Apesar dos níveis de compliance exigidos aos ingressantes, os investidores podem ter dificuldades de entender ou conferir consistência dos resultados da companhia. Os dados ainda podem ser escassos para uma análise aprofundada sobre o potencial desempenho da empresa e, consequentemente, dos seus papéis.
Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital, sugere que o investidor de primeira viagem estude a forma que a empresa ganha dinheiro. “A primeira coisa é ler o prospecto e entender como a companhia tem se desempenhado e porque ela vem a mercado. Também é preciso diferenciar o ‘novo normal’ do que é passageiro. Às vezes, você compra com lucro hoje e amanhã o cenário já mudou”, disse em referência a setores que se beneficiaram na pandemia, como e-commerce e varejo alimentar.
Professora do Insper, Andrea Minardi, lembra que algumas empresas maquiam resultados, em brechas dentro das normas contábeis. Mas outros aspectos, como a presença de um fundo private equity como um dos investidores da empresa antes da abertura de capital, pode ser um indicativo de boa qualidade. “É um selo de que a empresa está mais bem preparada”.

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