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Lídia Freitas: Como fazer política com causa, história e vocação

A estrategista política analisa o avanço da mulher no jogo do poder, explica as especificidades do universo feminino e mostra como candidatas podem tirar vantagens desses diferenciais. Ela também desmistifica a ideia de que gênero tem relação direta com decisão do eleitor. “Esse não é um fator decisivo para o voto. Precisa ter consistência, proposta e capacidade para convencer”, afirma

A entrevistada é ciência política, com pós-graduações em marketing político e gestão de comunicação / Edimar Soares

Erivaldo Carvalho
politica@ootimista.com.br

Lídia Cavalcante Freitas tem pós-graduações em ciência política, marketing político e gestão de comunicação. Atua há mais de uma década em campanhas eleitorais, como analista de pesquisas, entre outras funções estratégicas. Pesquisadora, Lídia desenvolve trabalhos sobre processo de decisão, novas mídias e imagem pública.

Nesta conversa com O Otimista, a especialista mostra como mulheres podem construir carreiras políticas, a partir da representatividades nos espaços, públicos e privados, do dia a dia, ancoradas em suas próprias histórias. A seguir, os melhores trechos:

O Otimista – Como a mulher está situada hoje, no universo político?
Lídia Freitas – Somos cerca de 53% do eleitorado. Então, efetivamente, matematicamente, o público feminino decide a eleição. Vemos, nas estratégias de campanha presidencial agora, essa preocupação especial. A rejeição do público feminino está muita alta.

O Otimista – A quantidade de eleitoras reflete a representatividade?
Lídia – Não se reflete em cargos eletivos. Nós temos uma média, no Congresso Nacional, abaixo de 20% de mulheres eleitas. Mas isso não quer dizer que não estejamos ocupando espaço de poder. Temos mulheres em secretariado, cargos comissionados e lideranças sociais. A legislação está contribuindo no âmbito partidário e eleitoral.

O Otimista – Com 53% do eleitorado e no máximo 20% de congressistas, pode-se dizer que mulher não vota em mulher?
Lídia – Quando se estuda comportamento eleitoral, pergunta-se isso. A resposta é geral. Esse não é um fator decisivo para o voto. A resposta é sempre “Eu não vou votar apenas porque é mulher”. Precisa ter consistência, proposta e capacidade superior para convencer. Não é bem que mulher não vote em mulher. No caso dos homens, a justificativa é exatamente a mesma.

O Otimista – O que explica a discrepância entre eleitorado e eleitas?
Lídia – Há dificuldades no acesso, principalmente relacionado a partidos. É uma negociação para conseguir uma indicação, seja homem ou mulher. Mas espaços femininos estão sendo conquistados. Elas preferem, até agora, estar em espaços de decisão, principalmente os conselhos, e em espaços de poder fora dos partidos.

O Otimista – Como se dá a construção da representatividade feminina?
Lídia – Há uma mudança de comportamento. Historicamente, antes do direito à reeleição, as mulheres ocupavam espaços “para guardar a cadeira”, para os homens da família. Isso ainda existe, mas antes era muito mais comum. Aquela mulher era uma extensão daquele político, que podia ser o esposo, filho, irmão ou o próprio pai.

O Otimista – Não havia identidade política feminina?
Lídia – A mulher não tinha identidade própria. E isso também se refletia nas ações dela dentro da política e do mandato, seja no Executivo ou Legislativo. Isso mudou há pelo menos duas décadas. A gente vê mais mulher dizer ‘eu estou aqui porque eu quero participar da política, porque eu quero decidir, eu quero ter um mandato, eu quero representar as pessoas’.

O Otimista – A estratégia “vote em mim porque eu sou mulher” funciona?
Lídia – Do ponto de vista da estratégia é um equívoco. “Por que eu preciso votar em você”? O “porquê” não tem a ver com gênero. Esse não é um fator nem decisivo nem o mais importante.

O Otimista – Existem bons representantes e maus representantes, independentemente do gênero?
Lídia – Exatamente. E existem também, inclusive, homens que defendem pautas e necessidades sociais que afetam diretamente as mulheres. Então, não é possível você dizer apenas “vote em mim porque eu sou mulher” e “vou te representar”. porque às vezes isso também se esvazia. “Mas vai me representar como”? “Você sabe quais são as minhas dores, as minhas necessidades dentro da minha comunidade, no meu dia a dia como mulher, como cidadã”?

O Otimista – Muitas mulheres ainda adotam esse apelo de gênero?
Lídia – Muitas candidatas ainda fazem isso. “Vote em mim porque eu sou mulher”. Ok! Ótimo! Me identifico muito com isso. “Mas você conhece bem o nosso dia a dia”? “O que você tem mais a oferecer”? Sabemos que o voto tem um componente emocional muito grande. Mas existe um componente de reflexão prático. “O que que a sua eleição, você no poder, vai mudar na minha vida”?

O Otimista – Que diferenciais a candidata pode oferecer?
Lídia – Nesses quase vinte anos que estudo política e mais de dez estudando e fazendo eleição, pude observar pontos que se destacam mais na mente do eleitor, que é, principalmente, a identificação. Quem é você, quem sou eu, como a gente pode se relacionar. É a história de vida dentro da política.

O Otimista – Mesmo mulheres que nunca se candidataram?
Lídia – Mas você pode ter uma história política, de atuação no seu bairro ou escola. No próprio condomínio a gente faz política. É essa a diferenciação.

O Otimista – E estabelecer uma relação de confiança?
Lídia – Primeiro é a identificação, depois a confiança. O voto é o resultado dessa relação, pré-estabelecida no período de campanha, que deve ser consolidada no mandado. Quando você conta sua história, está criando identificação. O eleitorado quer essa experiência.

O Otimista – Quais os principais pontos a seguir?
Lídia – São três. Apresentação, não somente durante a campanha eleitoral, a história pessoal e política, com imagem coerente, e causa. Esses três pontos formam um ecossistema, que dá autenticidade e capacidade de se identificar com seu futuro eleitor e conversar, de fato, com ele. Tem de falar e ouvir. Sem isso, não se consegue estabelecer um diálogo. Com esses três pontos você consegue fazer isso.

O Otimista – Tanto candidatos quanto candidatas?
Lídia – As mulheres conseguem fazer a gestão desses três pontos quase naturalmente, porque já entendem que o diálogo é o fundamental. Isso a gente vê, por exemplo, no estilo de liderança feminina, que é um conceito do mercado empresarial, que tem pelo menos 30 anos.

O Otimista – Como esse conceito funciona?
Lídia – É uma fórmula de gerenciamento de equipes, baseada muito em diálogo e feedback. As mulheres já estão acostumadas a agir dessa forma no mercado, na sua vida, no dia a dia. Quando chega na política, consegue absorver essa fórmula de três pontos de maneira mais natural, e conseguem se destacar, gerando identificação com os eleitores.

O Otimista – Aí cabem as clássicas personas da política masculina, tipo herói, pai etc, ou deve ser algo mais ligado ao universo feminino?
Lídia – Sim. A gente chama isso no planejamento estratégico de “imagens políticas”. Esse é um conceito do filósofo político alemão Roger-Gérard Schwartzenberg. Em 1978, ele fez um livro com figuras masculinas, porque não havia muitos exemplos femininos na época. Depois, foi atualizado. Essas figuras também servem para o público feminino, porque elas têm uma raiz arquetípica, baseadas em características de personalidade e de tradução de imagem.

O Otimista – Então, une-se a causa a essa imagem?
Lídia – Isso. Entra no ponto dois – a imagem coerente. É o que as pessoas veem. É a sua imagem. O que você fala, como você se comporta, como você se veste, as cores… Tudo isso traduz essa questão, tanto da sua história como da sua causa.

O Otimista – Temos a mulher profissional, na faculdade e a dona de casa, entre outros perfis. Que tipo melhor se encaixa no jogo do poder?
Lídia – É uma junção. Sempre digo que a mulher moderna não é um outro tipo. É uma junção de todas elas. A gente não deixa de ser dona de casa para ser só profissional. Não deixamos de ser mãe para ser profissional etc. Acumulamos tarefas. Então, a política é mais um espaço da vida dessa mulher. E é interessante porque a gente faz política o tempo inteiro, em todos os lugares.

O Otimista – A mulher é mais cobrada na política?
Lídia – Não deixa de ser. É uma profissão também. Até coloco “carreiras políticas”, porque é um serviço público. É um trabalho. O diferencial é que é uma carreira que exige muito de você, pessoalmente. E não tem como você ser uma candidata ou candidato se não tiver vocação e comprometimento.

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