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Humor conquista espaço nas campanhas, mas requer cautela, alertam especialistas

Em 2010, ao satirizar a política, o palhaço Tiririca foi eleito o deputado federal mais votado do Brasil por São Paulo (Foto: Alan Marques/ Folhapress)

Renato Sousa

rsousa@ootimista.com.br

Dilma Bolada, Haddad Debochado, Cirão da Massa, Bolsonaro Opressor… Nem sempre ligadas oficialmente a campanhas, perfis de humor em apoio a candidaturas vêm ganhando espaço na política brasileira nas últimas eleições. A expectativa é de que o mesmo aconteça este ano, com uma campanha mais virtual e candidatos fazendo uso de memes para ganhar a atenção do eleitor. Entretanto, especialistas ouvidos pela reportagem do O Otimista apontam: o tiro pode sair pela culatra.

Segundo Roberto Gondo, professor de Marketing Político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, o uso do humor na política não é novidade. “O uso do humor é algo recorrente no Brasil, inclusive culturalmente. Aplicativos que facilitam a propagação de piadas costumam ser bastante populares”, explica. Isso, segundo ele,  é um convite ao uso da ferramenta por políticos, em especial numa disputa municipal, que, segundo Gondo, tem um caráter mais popular do que as eleições gerais.

O uso do humor nem sempre é ligado às candidaturas, mas é criado por apoiadores que, a depender do sucesso das empreitadas, acabam incorporados às equipes de comunicação. “Se há um engajamento muito alto, ele acaba até sendo assediado pelas campanhas. Até porque, frequentemente, já são pessoas que atuam na área (da comunicação). Dificilmente vai ter um engenheiro de materiais (à frente desses perfis)”, explica. “Acaba virando um elemento para um portfólio”.

Limite

Segundo Gondo, cargos diferentes demandam usos distintos das ferramentas do humor. Para ele, o emprego é mais livre para cargos no Legislativo. Como exemplo, cita a candidatura do deputado federal Tiririca (PL-SP), que fez uso de seu personagem de palhaço como ferramenta de criticar os políticos – em sua primeira eleição, seu slogan foi “vote no Tiririca. Pior do que está não  fica”. Candidaturas parlamentares que adotam esse tom se multiplicam em toda a eleição.

Para os cargos no Executivo, entretanto, os riscos são maiores. As candidaturas com perspectivas reais de vitória, diz Gondo, usam a ferramenta com mais moderação. “No majoritário, o risco de se usar muito humor é não se mostrar como um gestor, como alguém com condições de administrar”, relata.

Para Adriana Sabóia, professora de marketing político e consultora de diversas campanhas este ano, o uso do humor depende do objetivo do candidato. “Há vários motivos para uma pessoa se candidatar. Eleger-se é apenas um deles”, diz. Candidatos que buscam “puxar votos” ou consolidar seu nome para disputas futuras, por exemplo, empregam o recursos de forma diversa daqueles que miram, já naquela disputa, um cargo executivo.

Ela reconhece, porém, que, sem orientação adequada, o uso do humor pode tornar o debate superficial. “Sem orientação de campanha, pode cometer-se excessos”, explica. Um exemplo desses erros seria um candidato que construiu uma imagem mais sóbria decidir virar um memista. “A atitude, o perfil do candidato, influencia muito. Pode virar-se uma caricatura”, diz.

Bem utilizada, entretanto, o humor tem a vantagem de ser “viralizável”, podendo levar a mensagem do candidato para pessoas que, por outros caminhos, não entrariam em contato com ele.

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