Economia

Handmade impulsiona moda e negócios locais

Em tempos de valorização de produtos locais e feitos à mão, peças que unem design e artes manuais agregam valor ao artesanato cearense e aquecem a cadeia produtiva da moda. Setor tem se reinventado e se fortalecido durante a pandemia

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

A união entre moda e artesanato não é novidade de mercado. Mas após cinco meses de convivência com uma pandemia, novos hábitos de consumo estão movimentando também o setor de vestuário que utiliza as artesanias locais como base. Se antes as rendas, bordados e Richelieu já haviam extrapolado os tecidos que vestem mesas e camas, agora essas artes encontram o momento em que o consumidor busca mais intensamente um produto durável, com carga afetiva e que valorize a produção e os negócios locais. Ainda que as perspectivas no segmento de vestuários no país não sejam positivas neste ano, o processo handmade ganha força para afastar a crise do setor.

Isso porque, com as restrições para comprar o que deseja, o consumidor busca a experiência de ter uma peça única, com possibilidade de atravessar gerações devido à qualidade do insumo. Nesse contexto, a linha utilizada, a qualidade do tecido e o tempo dedicado ao trabalho manual agregam não apenas estilo e exclusividade, mas valor ao produto. Além disso, o fazer com as mãos está cada vez mais sendo incorporado à indústria da moda, não apenas a detalhes dentro de uma coleção, mas à identidade da marca. No Ceará, há empresas que trabalham predominantemente com esse processo. Nos ateliês, enquanto designers buscam nas tramas alinhavadas inspiração para os desenhos, costureiras incorporam às peças artes feitas por artesãs de todas as regiões do Ceará e de estados vizinhos.

Como a maioria das artesãs estão em cidades do interior do estado, o Cadastro do Artesão surge como a porta de entrada para o acesso às políticas públicas no setor. Hoje há 34.668 cadastrados junto à Central de Artesanato do Ceará (Ceart), que não só expõe e vende produtos feitos em todas as regiões do estado como fomenta a sustentabilidade, gestão e desenvolvimento das artesanias cearenses. Através de capacitação e apoio nos negócios, essa é também uma forma de contribuir para a manutenção de artes tradicionais, mas com possibilidade de reinvenção de peças e aplicações mais inovadoras dos saberes.

Os artesãos estão distribuídos em 14 regiões de planejamento. Através do cadastro local, eles têm acesso ao Programa de Artesanato Brasileiro. Para ser incluído localmente, o interessado faz um teste de habilidade e mostra o quanto é apto para a técnica. A avaliação é feita por técnicos, mas há também um setor de curadoria que certifica o produto com um selo. “Essa banca avalia se os produtos estão no padrão, a qualidade, como é extraída aquela matéria e como pode ser feita a comercialização”, explica a gerente de produção artesanal da Ceart, Ticianne Gomes. Segundo ela, o estado compra as peças através de um fundo próprio para a função.

Os produtos são segmentados por 16 tipologias, entre as quais existem as técnicas artesanais de fios e tecidos, como bordados, croché, Richelieu, labirinto, renda de bilro, renascença. Apesar da disseminação do trabalho em muitas comunidades, inclusive para atender comércios e ateliês de Fortaleza, Ticianne Gomes acredita que ainda há resistência em mudar por parte de artesãs mais tradicionais e desinteresse das mais jovens em manter o ofício na família e na comunidade.

“Às vezes a gente chega à casa da labirinteira, a filha faz, mas a neta, não. Prefere estar na tecnologia a passar um mês se dedicando a uma peça. O trabalho é demorado, mas é nossa cultura, não podemos deixar morrer”, enfatiza. A gerente de produção afirma ainda que há um trabalho voltado para que mestres em determinadas artes capacitem gerações mais jovens no saber manual. Além disso, cursos de gestão, de comercialização das peças e de desenvolvimento de produtos são ministrados para capacitar com vistas ao empreendedorismo.

Com a pandemia e as lojas fechadas até meados de julho, a Ceart se voltou para o comércio eletrônico. Nas redes sociais, as peças surgem com uma história e a identidade do artesão. Por enquanto, as vendas são para Fortaleza, mas há planos de expandir os canais de entrega para o interior e outros estados. Após a reabertura total das atividades, Ticianne Gomes informa que o e-commerce vai se manter.

Para impulsionar a parceria com a indústria da moda, ela aposta na parceria com designers e estilistas que valorizam a arte local. “A gente tem que ter o cuidado de se modernizar sem perder a essência. Às vezes a gente chega com uma inovação, mas isso pode assustar. Por isso o trabalho precisa ser lento e cuidadoso. Elas pensam logo: como vou fazer um brinco, um vestido, se só fiz pano de prato a vida toda”, exemplifica.

Consumo em alta

Segundo pesquisa da Iemi Inteligência de Mercado, empresa que atua no setor há 35 anos com estudos e publicações relativas a diversos setores da economia, o consumo no varejo de vestuário nacional somou, em 2019, um total de R$ 231,3 bilhões. Para uma população de 210 milhões de habitantes, o consumo per capita por ano foi de R$ 1.100, para um total de 6,3 bilhões de peças comercializadas.

Como até o ano passado as vendas pela internet não era prioridade no setor, o varejo físico somou, também no ano passado, R$ 227,3 bilhões (98,3%) em vendas, com 2,5% de taxa de crescimento. Já o e-commerce, que só após a pandemia movimentou as atenções de empresários e consumidores, em 2019 totalizou R$ 4 bilhões, o que representou apenas 1,7% do mercado, mas registrou R$ 169 por cada compra efetivada, em média.

Nesse contexto, o Ceará é o 12º com maior potencial de compra no país. No Nordeste, fica atrás apenas da Bahia (5%) e de Pernambuco (4,6%). A disparidade na demanda de compras, contudo, é tamanha que Sul e Sudeste dominam 63% da demanda por compras no varejo de vestuário nacional.   Entre 2015 e 2019, a produção nacional de peças cresceu 2,4%. Em valores nominais o crescimento foi de 28,7%.

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