Jornal Impresso

Governo do Estado vai anunciar nesta quarta decisão sobre novo decreto de isolamento

Continuidade ou não será informada até o final do dia, quando se exaure a vigência do atual decreto. Pesquisadoras defendem que, para relaxamento, ocupação de UTIs precisa estar entre 30% e 50% e transmissibilidade abaixo da atual

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Ceará, um dos primeiros a aderir a restrições, está em isolamento social desde março (Foto: Edimar Soares)

Encerra-se hoje o prazo vigente do decreto que instituiu regras mais duras de isolamento social em Fortaleza. Em comunicado na noite desta terça-feira (19) via redes sociais, o governador Camilo Santana afirmou que logo mais será anunciada a decisão da Casa Civil, alicerçada em discussão multidisciplinar, acerca do “novo decreto estadual de isolamento social.”

Apesar da previsão da instalação de mais leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) para os próximos dias para enfrentamento da covid-19, o aporte não é sinônimo de relaxamento da restrição vigente, defendem especialistas.

Epidemiologista e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lígia Kerr indica que o número mais seguro para relaxar medidas de isolamento seria o percentual entre 30% e 50% de ocupação de leitos de UTI. “Se não houver contenção da epidemia, mais pessoa necessitarão de leitos. Nós vamos ficar com a pandemia indo e voltando, haverá picos e achatamentos”, detalha.

Dados do IntregraSUS coletados até as 17 horas de ontem (19) dão conta de que 91,79% dos leitos de UTI da rede pública instalados em Fortaleza estão ocupados. De acordo com a Secretaria da Saúde (Sesa), novos respiradores passam por inspeção de mercadoria e ainda não têm data estipulada para implementação nos leitos.

Infectologista e pós-doutora em Saúde Pública, Thereza Magalhães indica que a taxa de transmissibilidade do vírus é a variável que deve definir com clareza o real comportamento da doença no Ceará. “Se chegarmos a uma taxa de ocupação de leitos em 80% do leitos, por exemplo, não quer dizer que a capacidade de transmissão do vírus estará baixa. Mandar pessoas para a rua neste contexto significaria aumentar curva de contaminação.”

Medidas para reabertura das atividades econômicas tomadas em Fortaleza, epicentro contínuo da epidemia no Estado, necessitam de cautela, pondera Thereza. Professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e integrante do Grupo de Trabalho para enfrentamento à pandemia montado pela instituição, a médica pontua que ações precisam ocorrer de maneira paulatina para não reverberar negativamente em municípios onde a doença ainda não chegou por completo.

“Pessoas que estão em casa passarão a ser suscetíveis ao vírus e precisam voltar aos poucos para não surgir nova onda de casos”, sugestiona. Atual cenário das enfermarias, usando ocupação de leitos como critério, também não abre margem para flexibilização das medidas, defende Thereza, argumentando que, nos últimos 15 dias, houve agravamento dos pacientes com suspeita de infecção pelo novo coronavírus que buscaram atendimento na atenção primária, resultando na internação prolongada desses pacientes.

“Como há uma demora na internação de pacientes que precisam de UTI, o sistema acaba congestionando, e a gravidade desses pacientes vem aumentando. Teremos folga com leitos novos, mas por enquanto é um efeito cascata”, define. Ainda segundo dados da referida avaliação do IntegraSUS, a taxa de ocupação em leitos clínicos da rede pública é de 86,07%.

Critérios para retomada econômica
Publicada na última sexta-feira(15), a prévia da pesquisa do físico Rubens Lichtenthäler Filho, da Universidade de São Paulo (USP), e do médico Daniel Lichtenthaler, do Hospital Israelita Albert Einstein, aponta que no Brasil a taxa de transmissão do novo coronavírus (que aponta a proporção de quantos infectados infectam novas pessoas) caiu de R3,5 para R1,4. Dados do Ministério da Saúde foram coletados para o estudo. Professora da UFC, Lígia Kerr afirma que o número atual de pessoas contaminadas não é suficiente para parar contaminação.

Thereza Magalhães, também epidemiologista, explica que o número precisaria ser inferior a 1 para não criar curva espelhada, onde a pessoa recuperada infecta outra que pode ocupar novamente um leito vago. Procurada pela reportagem sobre critérios utilizados para a criação do plano de retomada da economia no Ceará, a Secretaria do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho (SDE) não deu retorno até a publicação deste conteúdo.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS