Economia

Fortaleza tem IPCA de -0,23% em agosto e 2,80% no acumulado em 12 meses

Em Fortaleza, embora o indicador em agosto tenha sido negativo (-0,23%), a variação acumulada em 12 meses é de 2,80%, quinta maior entre as 16 regiões pesquisadas e maior do que a nacional (2,44%)

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Fortaleza apresentou em agosto queda de 0,23% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), segundo dados divulgados ontem (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora tenha apresentado queda mensal, a capital apresentou alta de 2,80% no acumulado em 12 meses, sendo a quinta maior entre as 16 regiões pesquisadas e maior do que a nacional (2,44%).
O preço dos alimentos e da gasolina motivou, em agosto, alta na inflação no país. O índice nacional foi de 0,24% (0,12 ponto percentual abaixo da taxa registrada em julho, de 0,36%). Esse é o maior resultado para um mês de agosto desde 2016, quando o IPCA foi de 0,44%.
A variação de 12 meses em Fortaleza só fica atrás de Campo Grande (4,43%), Belém (3,47%), Salvador (3,23%) e Recife (2,94%). Entre os grupos que puxaram a alta do IPCA no período, o peso maior foi para alimentação e bebidas (20,05%), seguido de transportes (19,64%), habitação (15,64%), saúde e cuidados pessoais (13,62%), despesas pessoais (10,7%), educação (6,39%), comunicação (5,78%), vestuário (4,44%) e artigos de residência (3,74%).
De janeiro até agosto, somente nos meses de fevereiro e julho, o grupo de produtos não alimentícios teve alta no IPCA maior do que os alimentícios. A maior influência no resultado foi a gasolina, que subiu 3,22% em agosto e puxou alta de 0,82% no grupo transportes.
Mas as maiores altas foram registradas nos preços dos alimentos. O tomate subiu 12,98%; o óleo de soja, 9,48%; o leite longa vida, 4,84%. Na média, os alimentos para consumo no domicílio tiveram alta de 1,15% em agosto. Produtos básicos na mesa do brasileiro, como arroz e feijão, continuaram em curva ascendente. Os indicadores apontam como o consumidor percebe a inflação. “O arroz (3,08% em agosto) acumula alta de 19,25% no ano e o feijão, dependendo do tipo e da região, já tem inflação acima dos 30%. O feijão preto acumula alta de 28,92% no ano e o feijão carioca, de 12,12%”, afirma o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov.
O mercado está pressionado por maior demanda e pela alta no câmbio. Os dois aspectos pressionam custos e levam os produtores e industriais a preferirem exportar do que vender no mercado interno. Como explica o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Ricardo Coimbra, a elevação do câmbio fez parte dos produtos agrícolas – como arroz, soja e feijão – serem mais exportados para outros mercados do que consumidos localmente. “Com isso, houve diminuição de oferta no mercado interno. Essa redução ocorreu em função da elevação do câmbio. Por outro lado, houve um crescimento de demanda por esses produtos”, indica.
Esse aumento, para Coimbra, reflete o comportamento motivado pela pandemia e seus efeitos. “As pessoas passaram a consumir mais em sua residência, concentrando alguns tipos de produtos, como arroz, feijão, óleo. O que levou isso a acontecer está relacionado ao auxílio emergencial. Antes muitos tinham renda pequena, abaixo desses recursos (R$ 600 mensais), outros nem renda tinham. Agora, com capacidade de consumo, direcionaram as compras principalmente para alimentação, além de demais itens essenciais”, analisa.

Leite, arroz e óleo têm as maiores altas no ano

Historicamente, os alimentos fazem pressão sobre o IPCA. No fim do ano passado, o vilão nesse processo foi a carne, mas já houve momentos em que a batata e o tomate motivaram altas no índice. Em agosto deste ano, mais uma vez o tomate lidera o aumento, com variação de 12,98% no mês, seguido do óleo de soja (9,48%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%) e arroz (3,08%). Em se tratando de variação acumulada no ano, o leite (22,99%), arroz (19,25%) e óleo (18,63%) saem na frente com as maiores altas. Quando se trata de itens essenciais para o consumo, o impacto é maior na população de baixa renda.

Em Fortaleza, a variação no preço dos alimentos e bebidas foi de 0,20% em agosto, 6,10% no ano e 9,06% em 12 meses. Não é das maiores no país, mas representa alta, como em 13 das 16 regiões pesquisadas. Fortaleza foi a 10ª capital com maior alta no levantamento. Nesse grupo, no mês passado, só Aracaju, São Luís e Salvador tiveram queda no IPCA. A maior alta foi em Campo Grande, com 2,31%. No país, a inflação foi de 0,78% em agosto, 4,91% no ano e 8,83% em 12 meses.

De acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Luiz Antonio Trotta Miranda, no caso da carne, há a substituição pelo frango, ovo ou outra proteína animal. Mas, quando se trata de arroz e feijão em alta, por exemplo, não há tantas opções, o que impacta mais severamente sobre a população de baixa renda. “Isso é ruim porque essa faixa de renda fica mais sujeita a essa pressão, especialmente de alimentos que não têm substituto. O leite, por exemplo, é mais consumido também por essa classe”, diz.

Para Trotta, o que está acontecendo pode ser explicado como mais uma pressão da oferta do que da demanda, em função da alta no câmbio. “O grão é uma commodity cotada no mercado internacional. Há fatores que pressionam o produto internamente. Por um lado, isso é bom porque exporta mais, mas internamente falta produto e o preço sobe. A exportação se dá porque nossa moeda está desvalorizada, o que favorece o exportador. O produtor nacional vinha em uma situação de margens muito baixas nos últimos anos, então ele quer recuperar essas perdas e vê no mercado exportador e internacional uma opção favorável”, ressalta.

A meta de inflação para os últimos 12 meses era de 4%, como lembra Trotta. Diante disso, ele acredita que a autoridade econômica vai observar essa alta com muita atenção, até porque o brasileiro tem uma relação histórica de peso com a inflação. “Com a taxa Selic de 2%, muito baixa, a autoridade permanece monitorando com muita cautela e cuidado para a inflação não suba de forma acelerada”.

Sobre a atitude do presidente Jair Bolsonaro de pedir aos supermercadistas para segurarem o preço dos produtos, Trotta avalia que essa ferramenta não se mostra eficiente historicamente. A declaração foi dada semana passada, depois que associações do setor de supermercados divulgaram cartas chamando a atenção para a alta de preço de itens da cesta básica. Na ocasião, o presidente pediu “patriotismo” dos donos de supermercados. Trotta faz uma análise mais ampla. “Vivemos um sistema democrático muito mais robusto. A cadeia supermercadista é um elo. Tem o produtor rural, a indústria agrícola, não é simplesmente o supermercado que vai resolver isso. É mais importante trabalhar nas reformas estruturantes para fortalecer a moeda frente a outros países, para que a gente consiga ganhar boa visibilidade externa e atrair investidores”, sugere.

Gasolina manteve alta mesmo com queda no preço do barril de petróleo

Isoladamente, a gasolina foi o produto que mais influenciou a alta da inflação no país, com 0,15% de impacto no IPCA de agosto. No mês, esse combustível apresentou alta de 3,22%, enquanto no etanol foi de 1,29% e no diesel, 2,49%. No caso da gasolina, é o terceiro mês seguido de alta: 3,42% em julho e 3,24% em junho. Para o setor, a variação no combustível é constante e varia todo dia, conforme se comporta o mercado mundial.

“É uma commodity. Essa variação diária ocorre em função do preço do barril de petróleo e da queda ou alta do dólar”, justifica o assessor de economia do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos), Antonio José Costa. Ele afirma que, nos últimos meses, houve uma constante elevação no preço do barril, chegando a custar US$ 60 dólares. Hoje está perto dos US$ 40 dólares. “Com isso, começou a cair o preço na Petrobras, mas não significa que vá cair o mesmo percentual no varejo”, adianta.

Isso porque, como explica Antonio José, a gasolina da refinaria só representa de 25% a 35% do valor final do produto, enquanto o álcool é 27% do preço para o consumidor. “Tem o transporte, a margem de lucro e o imposto que é em torno de 50% do valor do produto”, frisa. Sobre os indicadores divulgados ontem pelo IBGE, o assessor do Sindipostos informa que não há garantia de que o mês de setembro repetirá o comportamento de consumo.

No país, Fortaleza (3,24%) registrou a 7ª maior variação no preço da gasolina, sendo que no etanol não aplicou mudança e no diesel a alta foi de 1,05%. No caso da gasolina, a capital cearense ficou atrás de Goiânia (10,34%), Brasília (5,73%), São Luís (5,54%), Campo Grande (3,88%), São Paulo (3,74%) e Belo Horizonte (3,42%). Entre as 16 regiões pesquisadas, a menos variação no preço da gasolina foi no Rio de Janeiro (0,44%).

Antonio José informa que, no Ceará, há uma tendência de que o preço seja mais alto do que em outros estados, devido a dificuldades na logística de distribuição. “O nosso produto é todo importado, a não ser um pouco que vem da Lubnor (Refinaria Lubrificantes e Derivados do Nordeste). Além disso, o porto de Fortaleza não tem capacidade de atender o estado todo. O produto chega, fica parado no Mucuripe, depende do estoque que está no armazém. O navio espera que o armazém esvazie e, enquanto isso, fica parado. O tempo que o navio fica parado no porto gera um custo. O ICMS é 29% e está no nível dos mais elevados país. O Ceará e uns dez estados têm o ICMS mais alto. São Paulo, por exemplo, é bem mais barato”, explica.

Esses fatores, segundo Costa, influenciam no preço do produto, ainda que o preço do barril esteja em queda no mercado internacional. Sobre o etanol, o assessor afirma que o produto vem todo do Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás. Portanto, transporte e logística entram no preço repassado ao consumidor. Em São Paulo, maior estado produtor do insumo, o preço do álcool nos postos de combustível é 70% menor do que no Ceará.

Antonio José assegura que a pandemia não teve relação com o valor dos produtos. Embora nos últimos meses tenha havido melhora no consumo, isso não incide sobre o preço. O consumo médio com combustível em Fortaleza é de R$ 200 por semana, por pessoa. No auge da pandemia, entre os meses de março e maio, foi registrado consumo de R$ 200 por pessoa, mas por dois meses. “O aumento nos serviços de delivery não compensaram, porque um os grandes consumidores de gasolina são o turismo e o transporte escolar, que foram a zero, além do próprio lazer, restaurante, praia”, diz. Com isso, houve postos cujas vendas caíram 80%. Em média, a queda foi de 50%. “Foi uma lástima para o mercado de combustível. Percebe-se já uma melhora. Acredito que até o fim do ano a gente volte ao normal. Agora mesmo está tendo retorno de aula, que representa mais consumo”, sinaliza.

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