Economia

Fim da produção da Ford no Brasil afeta quase 500 empregados no Ceará

Montadora decide fechar unidades no país, inclusive a de jipes Troller, em Horizonte, que deve continuar funcionando somente até o quarto trimestre deste ano. Segundo especialista, economia cearense poderá superar as perdas

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

A Ford, montadora mais tradicional com atuação no Brasil, anunciou ontem (11) o encerramento de sua operação fabril no país. Ainda este ano, a empresa com sede nos Estados Unidos deve fechar as portas das fábricas em Camaçari, na Bahia (onde eram montados os modelos Ka e EcoSport), e em Taubaté, interior de São Paulo (que fabricava motores e transmissões). A unidade de jipes Troller, em Horizonte, no Ceará, que tem 470 funcionários, deve continuar funcionando até o quatro trimestre deste ano.
A partir de agora, os clientes brasileiros serão atendidos com veículos montados na Argentina, no Uruguai e em outros países. “Um impacto sempre vai causar, porque são menos empregos no mercado cearense, que já é carente. E uma montadora desse porte, em vez de ampliar suas atividades para outros tipos de veículos, acaba fechando. Para o Ceará, o impacto seria maior se toda a linha da Ford fosse aqui, mas é uma repercussão grande, em função do recolhimento de impostos e principalmente da geração de empregos, porque muitas famílias serão impactadas. No Ceará, a média de pessoas por empregado é de cinco pessoas”, explica Fernando Pontes, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores do Ceará (Fenabrave-CE). “Além disso, o encerramento da fabricação da Ford causa impacto nas revendas, nas lojas de autopeças e até no turismo, porque o Troller é um veículo muito utilizado nesse segmento, em trilhas, por exemplo”, conclui Fernando.
Para o economista Lauro Chaves Neto, a economia cearense tem condições de superar a perda dos empregos ocasionados pelo fechamento da fábrica. “Para a economia cearense, a Troller é significativa e simbólica, porém, temos que olhar para frente. O futuro da indústria automobilística está nos carros híbridos, elétricos e similares, temos que olhar nesse sentido”, defende o conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e assessor econômico da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec). “Em termos de economia brasileira, a Ford era uma das indústrias automobilísticas de menor competitividade, em nível mundial, e esse fechamento tem um efeito relativo, embora importante”, observa Lauro Chaves Neto.
Em nota, a Fiec mostrou preocupação com o encerramento das operações da Ford no País e disse que irá acompanhar de perto o caso. “Assim como o investimento em tecnologia, a geração de emprego e renda é absolutamente relevante para o Ceará, para a indústria, para os cearenses”, informou a Federação. A empresa tem hoje 8.000 empregados no Brasil, mas não serão todos demitidos. Haverá um grupo remanescente de trabalhadores para atender algumas operações.
O motivo do encerramento das atividades, de acordo com comunicado ao mercado divulgado ontem pela Ford, é a pandemia da covid-19, que “amplia a persistente capacidade ociosa da indústria e da redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas.”
No mesmo comunicado, a companhia afirmou que atenderá o Brasil “com seu portfólio global de produtos” e que planeja “acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados”.
Em relação aos trabalhadores, a Ford anunciou que irá buscar “imediatamente em estreita colaboração com os sindicatos e outros parceiros um plano justo e equilibrado” para minimizar os impactos do encerramento da produção.

Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 4,1 bilhões em despesas não recorrentes, incluindo cerca de US$ 2,5 bilhões em 2020 e US$ 1,6 bilhão em 2021. Aproximadamente US$ 1,6 bilhão será relacionado ao impacto contábil atribuído à baixa de créditos fiscais, depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 2,5 bilhões impactarão diretamente o caixa.

A Ford começou a diminuir sua capacidade fabril no país já no final do ano passado, quando vendeu o complexo fabril localizado em São Bernardo do Campo (SP), onde eram montados caminhões e o compacto Fiesta.

Em 2020, a Ford vendeu 119.454 automóveis no Brasil, de acordo com associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) –  39,2% a menos na comparação com 2019. A marca norte-americana terminou o ano de 2020 na 5ª posição do ranking de automóveis e comerciais leves mais vendidos e na 6ª colocação, considerando somente carros de passeio.

Primeira montadora de veículos a se instalar no Brasil, a empresa foi fundada em 1903 e chegou ao país em 1919, com uma unidade no tradicional bairro da Mooca, em São Paulo. O primeiro modelo fabricado foi o histórico Modelo T. Graças a ele, a empresa passou dos 12 funcionários de 1919 para cerca de 130 em 1924, ano em que foram feitos 5.000 veículos entre carros, caminhões e tratores.

O interesse pelo automóvel crescia no Brasil e, entre 1925 e 1927, a Ford inaugurou linhas de montagem em Recife, Porto Alegre e Rio. O Modelo A, mais conhecido como Fordinho, surgiu na época e se tornou o mais vendido do país.

Os negócios foram bem até 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York e a crise no Brasil à beira da Revolução de 1930 mudaram o cenário. Nos anos seguintes, foram fechadas as linhas de montagem fora de São Paulo. (com agências)

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