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Fatores que contribuem para arrefecimento do novo coronavírus em Fortaleza

Professor da Uece pondera que o crescimento do número de pessoas que desenvolveram anticorpos contra o novo coronavírus favorece a diminuição de mortes. Busca por atendimento no início da doença também contribui para curados

Rebecca Fontes
rebeccafontes@ootimista.com.br

Foto: Edimar Soares

Com 80% das atividades econômicas tendo retornado em Fortaleza e na macroregião metropolitana, o cidadão leigo se surpreende que o número de casos de contaminação e óbitos causados pela covid-19 não esteja registrando elevação.

A segunda onda, temida pelos profissionais de saúde, não dá sinais de que vá ocorrer, analisa o médico e epidemiologista Marcelo Gurgel, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e membro do Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Covid da instituição.

“É pouco provável que ela aconteça, pois com o aumento do fluxo de pessoas e das atividades econômicas, mesmo que não seja em sua capacidade total, ela já teria ocorrido”, avalia. Para Gurgel, o que pode acontecer são registros em alguns pontos, mas não na escala da primeira contaminação.

Com a redução de novos casos e, por consequência, de internamentos e óbitos, o epidemiologista avalia que vários podem ser os fatores que contribuíram para o arrefecimento da doença no Estado e, principalmente, em Fortaleza. “Já se está estimando que talvez 20% da população imunizada seja o suficiente para criar a chamada imunidade de rebanho, antes calculada em 60% da população, avalia Gurgel, lembrando que a “doença ainda vai permanecer até que chegue a vacina.”

Queda proporcional
Segundo o médico, a taxa de mortalidade segue acompanhando a de incidência de novos casos de contaminação. Como este último está caindo, o de óbitos também reflete essa redução. “O Ceará tem mais casos confirmados porque, primeiro, a doença chegou mais cedo aqui pelo hub aéreo e ganhando aspecto de transmissão comunitária, saindo da Aldeota e Meireles para a periferia, avançando nas famílias de mais baixa renda que tiveram dificuldade de manter isolamento; e porque o Estado foi o que mais aplicou testes de detecção do vírus, mais até, proporcionalmente, que São Paulo e Rio de Janeiro”.

Como a queda na mortalidade tem a ver com a queda da incidência do vírus na população, outros fenômenos mais complexos poderiam estar afetando o declínio, a exemplo do fato do vírus ter se disseminado mais fortemente, na primeira leva, entre a população mais vulnerável, frágil e com comorbidade.

Aprendizado
Outra explicação seria a ocorrência de uma curva de aprendizado dos profissionais de saúde e das instituições, aponta o epidemiologista. Os protocolos de atendimento também mudaram com o maior aprendizado sobre a doença e, com isso, ajudaram a combater mais cedo a covid-19 nos pacientes.

O infectologista e coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), professor Ivo Castelo Branco, diz que a condução do paciente, hoje, está sendo feita de uma forma melhor que no início da pandemia no País.

“Antes, você encaminhava o paciente para o atendimento no ápice dos sintomas e, em último caso, quando estava com falta de ar.” O infectologista também destaca que o número cada vez maior de diagnóstico precoce tem ajudado a reduzir o agravamento do quadro dos pacientes e, com isso, o número de mortes.

Ex-diretor e atual médico do Hospital São José, Anastácio Queiroz afirma que o paciente que trata a doença até o 3º ou 4º dia dos sintomas não chega a precisar de internação. “Não conheço um paciente, desses que trataram cedo a infecção, que veio a óbito”. Para o médico, o tratamento cedo teria, na pior das hipóteses, evitado 60% dos óbitos.

Em Fortaleza, segundo Queiroz, a redução foi muito mais significativa porque o número de contaminados foi grande e se criou uma barreira imunológica, bem como pelas pessoas utilizarem máscara. “O pré-sintomático, aquele que está prestes a desenvolver os sintomas, transmite muito mais”, avisa. Portanto, na rua, com máscara é mais seguro.

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