Economia

Estimativa é de US$ 80 milhões em exportações de frutas até o final deste ano no Ceará

Embora o ano de 2019 não tenha superado o de 2018 em exportações, as perspectivas para o fim de 2020 são as melhores. A expectativa local é que a comercialização de frutas com o mercado externo aumente em até 20% até o fim do ano

Marta Bruno

martabruno@ootimista.com.br

A chegada da pandemia primeiro a países asiáticos e europeus foi determinante para o contrapeso brasileiro nas exportações do agronegócio. No caso do melão, países como Espanha, que têm cultivo da fruta, prorrogaram o plantio e, assim, demandaram mercados externos. Nesse contexto, o Ceará, segundo maior produtor de melão no Brasil, aumentou o volume de negócios. A expectativa do mercado é que o salto em relação à exportação de frutas em geral ultrapasse os 10%, podendo chegar a perto de 20%, com US$ 80 milhões negociados até o fim de 2020 somente no Ceará. No ano passado, o estado exportou US$ 62.046.742 apenas nessa categoria, sendo US$ 41.453.508 com melão.

A estimativa mais modesta é da Associação Brasileira dos Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). De 2018 para 2019, a receita da exportação de frutas saltou de US$ 790 milhões para US$ 858 milhões em 2019, registrando aumento de 8,5%. Ao fim de 2020, espera-se alcançar o primeiro bilhão em exportações, com uma média de 10% de salto. Segundo o presidente da entidade, Guilherme Coelho, alguns fatores devem motivar o acréscimo. “Depois da pandemia, o consumo de frutas vai aumentar. Nós temos frutas suficientes para abastecer vários mercados. Estamos abrindo o mercado do melão com a China, por uma demanda deles, porque temos uma condição muito boa da fruta. A próxima é a uva”, antecipa.

De acordo com Guilherme Coelho, a safra do segundo semestre não será afetada pela pandemia. “Primeiro porque cuidamos dos trabalhadores; segundo, existe um mercado e a vontade de exportar. Hoje somos o 23º país exportador de frutas, mas o 3º maior produtor. Nossos números ainda são muito tímidos”, analisa. Coelho lembra que o embarque de frutas no fim de agosto pelo maior cargueiro do mundo na categoria, partindo do Porto do Pecém, inaugurou um novo momento. Com 330 metros de comprimento por 48 metros de largura, o MSC Shuba B tem capacidade para embarcar 12.238 contêineres de 20 pés, enquanto outros navios levam no máximo 6.000 contêineres.

No ano passado, no Ceará, as exportações de melão somaram US$ 41.453.508, sendo que o total de frutas foi de US$ 62.046.742 e no agronegócio como um todo, US$ 439.761.574, segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Ceará (Sedet). Para o secretário executivo da pasta, Sílvio Carlos Ribeiro, o aumento nas exportações de frutas pode chegar a 20%, totalizando US$ 80 milhões de receita até o fim do ano. “Tivemos mais chuva, a reserva hídrica está melhor, a produtividade também, aumentamos a venda para a Espanha e estamos conquistando novos mercados no Oriente Médio e na China. Tem melão para o mercado interno, mas, com as atuais condições de câmbio, é mais atrativo exportar”, explica.

De acordo com o secretário, a prorrogação do plantio na Espanha, por conta da pandemia, foi determinante para a exportação local de melão. “A janela de produção lá era o verão, junho, julho, maio principalmente, quando eles ainda passavam pela pandemia. Isso afetou bastante. Agora a Espanha não tem mais a fruta, enquanto o Ceará está começando a produzir para exportar. Eles não têm mais tempo”, diz, acrescentando que geralmente o Ceará começa a exportar a safra Inglaterra e Holanda. “Mas a Espanha começou a pedir, os pedidos começaram a aumentar. Isso foi uma situação atípica e boa para o setor, que está bem animado com a oportunidade”.

A receita de exportação do ano passado foi considerada baixa, pois em 2018 o valor foi de US$ 85.924.638. Em 2015, o valor chegou a US$ 118.898.240, o mais alto nos últimos cinco anos. Como informa Sílvio Carlos, houve diminuição de área de produção por causa da oferta de água. Além disso, o Rio Grande do Norte, principal concorrente do Ceará, tinha muita área livre e pegou uma fatia do mercado. No ano passado, no Ceará, o melão foi responsável por 67% das exportações de frutas; melancia, por 15%; banana, 13%; manga, 2%; mamão, 1%; e outros, 2%.

De janeiro a junho, comparando 2020 com 2019, o maior salto na receita foi de melão, cujas exportação passaram de US$ 6.019.110 para US$ 14.106.425, totalizando 134,4% de aumento. Também tiveram alta a melancia (25,5%), mamão (11,7%) e outras frutas (10,4%%). Somando todas as frutas cearenses que foram para o mercado externo, a receita aumentou 50,3%, passando de US$ 15.144.387 nos seis primeiros meses de 2019 para US$ 22.755.544 em 2020. Contudo, comparado o ano inteiro de 2018 com 2019, o ano passado apresentou uma retração de 27,8%, uma vez que a receita caiu de US$ 85.924.638 em um ano para US$ 62.046.742 no seguinte.

Na avaliação do secretário executivo, o Ceará tem uma situação favorável para crescimento neste e no próximo ano. “A gente tem clima favorável para produção de frutas de alto valor agregado, condição de para livre de pragas, região que permite certificação e exportação, logística avançada com o Porto do Pecém, condição estratégica para África e Estados Unidos muito boa, energia, muitas horas de luz solar no dia. A água, que sempre foi um limitador, com a reserva melhor e transposição chegando, melhora e muito o potencial para investir no setor”, justifica.

Frutas têm alta de 50,3% no primeiro semestre

Novas produtos em processo de produção, expansão junto ao mercado externo, chegada do carro-chefe entre as frutas – o melão – à China, retomada de culturas que fizeram história na agricultura local, a exemplo do algodão. O agronegócio cearense não parece estar passando por uma pandemia, especialmente quando se trata de exportação. Os segmentos de frutas e pescados, impulsionadores dos negócios com Europa, Estados Unidos e Ásia, puxam altas na oferta de empregos, de novos mercados consumidores e de ampliação de áreas cultivadas no Ceará. Prova disso é que, embora as exportações em geral tenham reduzido 15,9% neste ano em relação a 2019, comparando o período de janeiro a junho no Estado, entre as frutas houve salto de 50,3%, segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho do Estado (Sedet), gerando US$ 22.755.544 em exportações nos seis primeiros meses de 2020.

No primeiro semestre deste ano, o Ceará exportou US$ 950.884.809 por meio de 22 principais produtos. Do total, US$ 160.190.382 se referem aos 14 produtos do agro. Entre os 22 produtos listados no levantamento total, apenas cinco tiveram saldo positivo na comparação dos dois períodos: produtos minerais, frutas, hortaliças, peixes (exceto atum) e flores. Portanto, com alta nas exportações, apenas um não é do agronegócio. Somente frutas, hortaliças, peixes – exceto atum – e flores somaram US$ 32.972.617 em exportações entre janeiro e junho deste ano.

A maior alta foi entre hortaliças, com aumento de 103,6% e US$ 2.092.493 negociados. Entre as frutas, o salto foi de 50,3% para US$ 22.755.544 exportados; entre flores, 11,4% e US$ 60.051 em negócios; e, entre peixes (exceto atum), 3,4% para US$ 8.064.529 3 comercializados. Já os produtos minerais apresentaram alta de 26,8% para US$ 28.013.897 exportados.

Embora as frutas não tenham apresentado o maior índice de aumento entre os produtos da agricultura exportados, foram elas que registraram maior volume de exportação. Nos seis primeiros meses de 2019, os produtos somaram US$ 15.144.387, enquanto no mesmo período deste ano o volume foi de US$ 22.755.544. Ainda conforme a pesquisa, alguns produtos tiveram queda nas vendas para o mercado externo do ano passado para cá, mas merecem destaque pelo volume negociado em dólares.

A castanha de caju, por exemplo, principal produto da agricultura nas exportações cearenses, teve redução de 1,9% nas vendas em relação ao ano passado. No primeiro semestre deste ano, o produto foi negociado com o volume de US$ 48.548.422 com o mercado externo, contra US$ 49.466.926 no mesmo período de 2019. Entre todos os produtos exportados pelo Ceará, a castanha fica em quarto lugar entre os mais exportados, ficando atrás apenas do ferro e aço (queda de 13,3% e volume de US$ 524.060.507), calçados (queda de 37,7% e volume de US$ 82.553.062) e máquinas e equipamentos elétricos (queda de 26,6% e queda de US$ 82.170.582).

Entre os produtos mais exportados no agronegócio cearense em 2019 estão, respectivamente, a castanha de caju, cera de carnaúba, frutas e lagosta. Entre as frutas, o melão é o carro-chefe. O Ceará é hoje o segundo maior produtor e exportador do país, ficando atrás apenas do vizinho Rio Grande do Norte. Para o secretário Maia Júnior, titular da Sedet, estado e produtores locais estão trabalhando para retomar o protagonismo no mercado nacional. “Estamos muito bem, explorando novas possibilidades, retomando a produção de algodão e iniciando a de trigo”, ressalta. Maia Júnior frisa ainda que, em 2019, o Ceará alcançou o primeiro lugar, no país, na produção de pescado e o segundo na de flores. “Estamos muito animados com as perspectivas que novos produtos e mercados consumidores podem trazer. Nosso trabalho é para expandir essas variedades, recuperar culturas que são tão nossas, como o algodão, e consolidar o que tem potencial de continuar crescendo”, aponta.

Embora em algumas culturas tenha havido redução nas exportações, comparando o primeiro semestre de 2020 com o mesmo período de 2019, a série histórica dos últimos cinco anos mostra que o decréscimo pode ser pontual. A cera de carnaúba, por exemplo, segundo produto com maiores indicadores no mercado externo, teve em 2019 o maior volume de exportações desde 2015, somando, no ano passado, US$ 68.797.361 em negócios com o mercado externo. A lagosta repete a lógica, totalizando US$ 58.328.818 exportados no ano passado, maior quantia nos últimos cinco anos.

Os peixes (exceto atum), por exemplo, exportaram em 2019 (US$ 22.652.051) três vezes mais do que em 2015 (US$ 7.370.202). O peixe em conserva, que começou a ser exportado em 2017, apresenta crescente nos últimos três anos, saindo de US$ 562.995 exportados naquele ano para US$ 1.068.801 em 2018 e US$ 4.122.453 no ano passado. Já as hortaliças, que apresentam o maior indicador percentual no setor, não respondem pelo maior volume de negócios, mas sim de crescimento. Em 2017, foram negociados US$ 60.605 com o mercado externo. Já neste ano o valor saltou para US$ 1.131.928.

Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Flávio Saboya, a situação do agronegócio melhorou sensivelmente em 2019 por conta das chuvas. “Antes tivemos cinco anos difíceis. Toda a produção é feita com irrigação, em função das barragens de que dispomos, dos açudes públicos e dos canais de irrigação. Com as grandes barragens sendo repostas, como é o caso do Castanhão, é possível garantir uma produção mais volumosa e de qualidade”, diz.

Como lembra o engenheiro agrônomo, a criticidade maior para a produção local é quando, para priorizar o consumo nas cidades, a transferência de água dos reservatórios para os grandes e médios produtores é limitada ou mesmo interrompida. “Hoje essa situação está superada. Estamos usando água das grandes barragens porque o aporte permite e o Ceará está confortável em termos de disponibilidade hídrica”, diz. Flávio Saboya informa que, por conta dessa segurança, novos projetos podem ser postos em prática, como o do cultivo de trigo na Chapada do Apodi. Com 500 hectares de área plantada, o resultado foi positivo no que se refere às adaptações à geografia local. Por conta disso, há expectativa de plantar 5.000 hectares. “É uma demonstração de que houve um salto significativo como resposta”, celebra.

No caso do algodão, o cultivo está sendo feito em uma área aproximada de 2.000 hectares, o dobro da safra anterior. A perspectiva, através do Programa de Implantação da Cultura do Algodão no Ceará, é extinguir o estigma deixado pelo bicudo-do-algodoeiro, besouro que devastou o chamado “ouro branco”, classificação dada ao produto quando o Ceará possuía 1,2 milhão de hectares plantados de algodão, nos anos 1970. Hoje, com novos processos, tecnologia, pesquisa científica, manejo moderno e assistência técnica rural, o incentivo à produção tem até comprador certo. Isso porque indústrias têxteis locais já se comprometeram a comprar o produto. De acordo com o programa, há mais de 2.000 hectares legalizados e empresas em processo iniciar a produção para cultivar algodão em 30 mil hectares no Ceará, nos próximos anos. Entre as culturas cultivadas no semiárido, o algodão é a mais resistente à seca.

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