Jornal Impresso

Educação: chave para reduzir diferenças no pós-pandemia

Comemorado neste sábado, o Dia Internacional para Erradicação da Pobreza é ponto de partida para discussões sobre reflexos sociais da covid-19. Pesquisadores afirmam que, além de educação, políticas de transferência de renda devem ser utilizadas com o fim do auxílio emergencial a fim de que cenário de desigualdade seja amenizado

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Marcelo Camargo / Agência Brasil

A pandemia se mostrou um desafio a ser vencido em muitos âmbitos para além da saúde.

No contexto das parcelas mais vulneráveis da população, entretanto, a covid-19 tem se desenhado como uma questão ainda mais delicada, podendo dificultar a tentativa de amenizar desigualdades sociais, ação proposta mundialmente para este sábado (17), pelo Dia Internacional para Erradicação da Pobreza.

Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) alertam que 3,3 bilhões de pessoas correm o risco de perder meios de subsistência no mundo, como reflexo do cenário pandêmico em áreas como saúde pública e sistemas alimentar e laboral.

Estudiosos defendem a educação como principal ferramenta para diminuir o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Em curto prazo, chamam atenção para a importância de um novo programa de renda capaz de tapar o buraco deixado após encerramento do auxílio emergencial no Brasil, que se encerra este ano.

O País terminou 2019, segundo a Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 13,5 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Para especialistas, o número deve crescer no pós-pandemia.

“Quando coletamos indicadores com base na PNAD Covid-19, observamos uma redução da pobreza por conta do auxílio emergencial. Entretanto, houve uma redução do valor pago anteriormente, os R$ 600, e, com o fim dele, a perspectiva é que aumente o número de pessoas pobres”, explica Vitor Hugo Miro, coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará (LEP/UFC).

Doutor em Economia e também professor da UFC, Jair Andrade afirma que a paralisação do comércio segue tendo impactos neste cenário, mesmo após a retomada de atividades. “O aumento do desemprego diminui o poder de compra das famílias, e tudo isso contribui para ter uma menor qualidade de vida, menos acesso à educação, saúde, alimentação”, acrescenta.

Os parâmetros usados para definir o que é linha de pobreza têm como base o valor de US$ 5,5 (aproximadamente R$ 30) por dia, adotado pelo Banco Mundial para identificar pobreza em países em desenvolvimento. Estão na linha de extrema pobreza aqueles que têm renda de até US$ 1,9 (aproximadamente R$ 10) diariamente.

Agente transformador
Em consonância, docentes chamam atenção para a importância da criação de um programa de transferência de renda para amparar as populações mais vulneráveis após o fim do auxílio emergencial. Por outro lado, ressaltam a importância de investimentos em educação como forma de romper o ciclo da pobreza no Brasil.

“Todos os modelos que estudo convergem para a educação como variável para tirar as famílias da pobreza. É preciso investir para que as pessoas consigam melhores colocações no mercado de trabalho e tenham maior estabilidade financeira”, ressalta Andrade.

Miro acrescenta ainda investimentos em saúde e saneamento básico como indispensáveis no período subsequente à covid-19. “Ausência de saneamento acaba causando muitas doenças em crianças que faltam na escola, impactando diretamente na qualidade da educação”, endossa o coordenador do LEP.

A paralisação das aulas, conforme especialistas, contribuiu ainda mais para vulnerabilizar a figura da criança e do adolescente que vivem sob condições precárias de vida. “Para crianças de classes sociais menos favorecidas, a escola era local de referência para a proteção social, com cuidados de higiene, merenda escolar e a própria atenção dada pelo professor”, detalha Ticiane de Sá, professora universitária e consultora do Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisa sobre a Criança da UFC (NUCEPEC).

Pesquisas oficiais
Doutora em Educação, Ticiane destaca que a pandemia contribuiu para o aumento da evasão escolar, principalmente em classes de vulnerabilidade social, que não foram capazes de acompanhar o ritmo das remotas. A proporção de jovens fora da escola e sem ocupação, segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), tende a crescer 9,1 pontos percentuais neste semestre, em relação ao mesmo período de 2019.

Estudo realizado com base em jovens com idades entre 15 e 19 anos aponta que a proporção do grupo composto pela faixa etária fora da escola e sem ocupação saltou de 28% em 2019, para 37,2% em 2020. Em termos absolutos, segundo pesquisa divulgada este mês, o número de jovens na condição de vulnerabilidade social saiu de aproximadamente 604 mil em 2019, para 802 mil nos primeiros meses de 2020.

Também psicóloga, Ticiane acrescenta que as crianças sairão debilitadas deste período, bem como os adultos. “A criança vai sair com lacunas e precisará lidar com as consequências de todos esses meses dentro de casa, onde as funções de psicomotricidade e construção de capacidade de atenção foram prejudicadas, além das formações cognitivas e neurais”, projeta.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS