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Dia do Médico: dedicação e resiliência em meio ao temor e às incertezas da covid-19

Médicos que contraíram o novo coronavírus falam de instabilidades e receios enfrentados por eles diante da doença. Ao final, perserverança e orgulho pelo ofício, celebrado neste domingo

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

O médico Fred Bezerra passou cerca de 5 meses distante da família (Foto: Beatriz Bley)

O ano de 2020 tem sido desafiador para todas as profissões, sobretudo, aquelas na linha de frente do combate ao novo coronavírus. O Dia do Médico, data celebrada neste domingo (18), ocorre em um cenário onde profissionais da saúde ganharam a admiração da população, com salvas de palmas nas varandas e homenagens em diversos lugares.

O Otimista conversou com médicos que contraíram a covid-19 e conseguiram sair vitoriosos. No Ceará, segundo o IntegraSUS, 1.439 médicos testaram positivo para a doença.

São, ao todo, 18.875, incluindo o bojo de profissionais da saúde no Estado. Entre os relatos, os entrevistados se dizem gratos pela vida e mais instigados em ajudar a população a encontrar meios de superar o período cercado por adversidades.

O médico emergencista Fred Bezerra, 32, foi um dos cearenses que acabou infectado pelo novo coronavírus enquanto atendia pacientes positivos. “Estou trabalhando contra a covid-19 desde os primeiros pacientes até agora e consigo perceber uma diminuição muito grande dos casos, além de uma melhora na própria forma de atender”, compara.

Depois do diagnóstico, conta, passou duas semanas isolado até retornar à frente de batalha. Com receio de acabar levando o vírus para familiares, Bezerra diz ter passado cerca de cinco meses distante da família.  Apesar de não ter evoluído para sintomatologia grave, o médico alega ter sentido medo diante da ausência de informações concretas sobre a doença.

“Fiquei temeroso porque chegamos a perder um colega da equipe e foi logo naquele período de lockdown, onde a situação ainda se encontrava muito grave”, justifica. Bezerra afirma que, no período de maior calamidade, as altas médicas eram reconfortantes. “Era possível ver nos olhos dos pacientes a gratidão por aquele momento de alívio”, resgata.

Infectologista do Hospital São José (HSJ), Ronald Pedrosa, 52, também testou positivo para a covid-19. Apesar de ter começado com quadro leve, o médico precisou ser internado por cinco dias. “No começo, pensei até em mudar para um hotel, mas seria tempo demais longe da minha família. Achamos melhor adotar medidas dentro de casa para não precisarmos ficar tão distantes.”

Pedrosa afirma estar feliz diante do reconhecimento que o guarda-chuva de profissões da saúde passou a ter com a pandemia. “As pessoas entenderam melhor a importância de todos que fazem a saúde para a sociedade conseguir funcionar bem, valorizando desde a figura do enfermeiro ao profissional da limpeza, que são indispensáveis nesta batalha”, endossa.

Trilhar com resiliência
Apesar de não estar diretamente na linha de frente do combate ao vírus, o psiquiatra e ex-reitor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Jackson Sampaio, diz estar motivado a tentar dar subsídios para que as pessoas entendam melhor o cenário posto pela pandemia.

Aos 70 anos, o professor universitário ainda está se recuperando após os 54 dias que passou internado em decorrência da covid-19. “Tive uma expressão muito grave da doença. Quando fui internado, já estava com 50% dos pulmões afetados. Tive uma sarcopenia muito grande e perdi 25 quilos durante os dias em que fiquei internado.”

Devido à pouca utilização do sistema digestivo durante o tratamento, Sampaio acabou desenvolvendo problemas que se estendem até hoje. Diariamente, relata, realiza sessões de fonoaudiologia e fisioterapia para voltar a dar aulas. “A previsão inicial dos médicos era de que eu voltasse somente em janeiro de 2021, mas o meu progresso deve permitir meu retorno à Uece no início de novembro”, adianta. O médico já ganhou 11 quilos após a alta médica e diz estar feliz em ganhar uma nova chance de viver.

“Acho que meu corpo tem uma resiliência muito grande e meu psicológico também. Estou feliz por estar vivo e voltar aos poucos ao trabalho”, define. O docente pontua também se sentir feliz diante da valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à pandemia. “Às vezes, fico imaginando o que seria do Brasil, extremamente desigual, se o SUS não tivesse agido como rede de proteção na pandemia.”

Também escritor e pesquisador com foco em estudos mentais, Sampaio pretende buscar ferramentas para entender de maneira concreta o atual cenário da doença. “Não pude estar presente no início, mas, agora, quero saber qual é este movimento psicossocial que leva as pessoas a gerar, possivelmente, uma segunda onda de casos, saindo de casa sem máscara e fazendo aglomerações desnecessárias”, completa.

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