Economia

Como fazer o mercado de capitais acessível a pequenas e médias empresas

A redução dos custos regulatórios, a flexibilidade da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a simplificação de regras, dentre outros processos, precisariam, segundo especialistas, compor a revisão do mercado de acesso

Lucas Braga

economia@ootimista.com.br

A representatividade das pequenas empresas no cenário econômico brasileiro é quase tão alta quanto a dificuldade de conseguir financiamentos consideráveis e sustentáveis. A oferta pública de ações poderia ser uma oportunidade. As discussões entre representantes do governo e do setor privado para acessibilizar a abertura de capital das empresas de pequeno e médio porte se arrastam há anos, com poucos avanços desde 2014.

Fomentar o crescimento dessas empresas via mercado de capitais é desafiador, ainda que as captações menores atendam às necessidades dessas empresas e possam financiar seus projetos de crescimento. O alto custo de IPO (oferta pública de ações) no Brasil – por vezes, milionário – pode inviabilizar o projeto. Ainda assim, é proporcionalmente inferior ao custo nos Estados Unidos. O percentual dos recursos captados, variam em média entre 2,5% a 5,6%, enquanto nos Estados Unidos a média fica entre 4% e 11,7%. Os dados são de estudo da PwC Brasil, divulgado no ano passado.

A bolsa brasileira B3 já demonstrou interesse em modificar o mercado de acesso para pequenas e médias empresas, com o chamado Bovespa Mais. Apenas 17 empresas foram listadas. Nem o interesse do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) em comprar ações de empresas de pequeno porte, diretamente e por fundos de private equity, em 2014, surtiu o efeito esperado.

A redução dos custos regulatórios, a flexibilidade da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a simplificação de regras, dentre outros processos, precisariam compor a revisão do mercado de acesso. “Esse acesso a IPO envolve processo burocrático e custos operacionais grandes, com longa preparação da empresa. É praticamente inviável para pequenas e médias empresas, hoje. Defendemos a simplificação de acesso ao mercado como forma de alavancar o desenvolvimento econômico”, aponta Lauro Chaves Neto, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon), professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e PhD em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona.

Caminhos para o desenvolvimento

Para crescerem, as empresas precisam abrir os olhos para novas formas de financiamento da estrutura de capital – seja ele de terceiros ou próprio (joint ventures, sócios pessoa física ou fundos de investimento). São fontes de financiamento mais saudáveis e baratas que empréstimos bancários. Ao injetar recursos, as melhorias de processos de governança interna vêm subsequentemente, conforme didatiza Lauro.

“Nas grandes empresas, que têm acesso a contratar consultorias e executivos, isso acontece de forma mais rápida. Nas pequenas, a busca pelos recursos pode acelerar esse processo. Quando falamos de capitais de terceiros, as fontes de financiamento organizacional precisam ser diversificadas”, completa Lauro, referindo-se às linhas de crédito do BNDES e Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Empresas familiares cearenses têm visto crescimento astronômico após a abertura de capital. Hoje gigantes, experienciam oportunidades de bons resultados mesmo durante a pandemia. Na B3, Hapvida, M. Dias Branco e, mais recentemente, Pague Menos são de ramos que menos sofreram impactos com o isolamento social: saúde suplementar, indústria alimentícia e varejo de medicamentos.

Já a Arco Educação (ARCE), negociada na Nasdaq, já era preparada para o cenário de educação virtual mesmo antes do isolamento. Em 2018, a companhia, parte do Grupo Ari de Sá, foi a primeira startup brasileira de educação e tecnologia a abrir capital. Hoje, tem valor de mercado de R$ 13,6 bilhões.

“O IPO abriu muitas oportunidades para a Arco. Além dos recursos captados, que foram utilizados para aquisições no último ano e totalizaram mais de R$ 2 bilhões, existem outros aspectos relevantes. Nossa capacidade de atrair talentos cresceu muito, assim como o aprendizado por interagir com alguns dos melhores investidores de tecnologia do mundo”, frisa Ari de Sá Neto, CEO e fundador da Arco Educação. “A visão global sobre Educação e tecnologia trazida pelos investidores nos ajuda a construir melhores produtos, inovar e crescer”.

A Nasdaq tem mais de 2,8 mil empresas listadas, enquanto a B3 tem menos de 400. “A abertura de capital de empresas cearenses traz consigo o fortalecimento da economia do Estado. Infelizmente temos poucas empresas listadas. Precisamos de mais”, comenta Marcos Mourão, empresário e sócio da Multinvest.

Baixas na Selic favorecem boas expectativas

Rogério Santana, diretor de Relacionamento com Empresas da B3, analisa que as consecutivas baixas na Selic favorecem boas expectativas. “A partir de junho, vimos uma recuperação significativa dos preços dos ativos em bolsa que, combinada com o processo de migração do investimento para o mercado de capitais – impulsionado pela taxa de juros em mínimas históricas – traz boas perspectivas para o fluxo de ofertas públicas no curto prazo”, pontua.

O fluxo mais intenso de ofertas de ações, tanto em aberturas de capital como em ofertas subsequentes (Follow Ons), acompanham a manutenção de juros baixos e o processo de migração de investimentos para o mercado de capitais e para a bolsa. “Cria-se um ecossistema favorável para novas ofertas, tanto de ações quanto de dívida. Em se mantendo esse cenário, a expectativa é que veremos cada vez mais companhias abrindo capital na bolsa”, completa Rogério.

Titãs cearenses despontam no mercado

O alto índice de governança das companhias e competência na gestão são diferenciais dessas empresas para os bons números no fechamento do segundo trimestre de 2020, conforme Raul dos Santos Neto, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef). “A pandemia desarrumou os planos de muita gente. Quem conseguiu continuar progredindo foram companhias muito sólidas e consistentes, com baixo endividamento, baixa volatilidade nas ações e alto grau de profissionalismo e transparência”, explica.

O lucro líquido da M. Dias Branco (MDIA3) chegou a R$ 152,4 milhões, no segundo trimestre de 2020: 51,5% a mais, em comparação ao mesmo período de 2019, de acordo com balanço divulgado pela empresa. Por sua vez, a Hapvida registrou lucro líquido de R$ 278,6 milhões, no segundo trimestre, crescimento de 25%, se comparado ao mesmo período do ano passado.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da M. Dias Branco totalizou R$ 225,6 milhões, um avanço de 23,5% em relação a abril-junho/2019. A Hapvida  e reportou Ebitda de R$ 608 milhões, mais 107,2% em comparação ao segundo trimestre do ano passado.

“A Companhia permanece crescendo e expandindo suas operações, ganhando mercado e marcando presença em novas regiões. Ao longo do segundo trimestre, iniciamos uma operação em Brasília, com um portfolio de cerca de 13 mil vidas. Permanecemos com um balanço robusto, com alto índice de liquidez e baixo endividamento, e R$3,4 bilhões de caixa livre”, comentou Jorge Pinheiro, diretor-presidente do Hapvida, aos investidores.

Além da expansão de atendimento e infraestrutura, o Hapvida projeta a aquisição de novas carteiras. “Atualmente temos trabalhado com 15 potenciais targets que podem contribuir para expansão do número de vidas. Ao longo dos últimos 12 meses entramos nas regiões Sudeste, através da aquisição do Grupo São Francisco e RN Saúde, e Centro-Oeste, através da aquisição do Grupo América”, justifica Bruno Cals, CFO do Sistema Hapvida.

Já o crescimento no setor de massas e biscoitos impulsionado pelo comportamento de consumo no isolamento social foi destacado pela M. Dias Branco. As vendas de massas subiram 37,4%, e de biscoitos, 14,2%. As exportações no período foram 526% maiores.

“Os investimentos realizados ao longo dos últimos anos, como o novo moinho de trigo em Bento Gonçalves (RS), a ampliação da capacidade de produção de margarinas e gorduras na unidade produtiva em Fortaleza, a inclusão de novos turnos de produção e as unidades fabris da Piraquê, deram sustentação à nossa estratégia de crescimento”, divulgou a empresa sobre os destaques operacionais.

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