Economia

Banco Central projeta alta de 11,5% no saldo total de crédito em 2020

O crescimento foi de 7,6% para 11,5%, segundo o Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (RTI-BC). Apesar disso, demanda ainda não chegou aos pequenos empresários

Lucas Braga
economia@ootimista.com.br

A expansão do crédito imobiliário e demanda acentuada das empresas influenciaram na nova projeção de expansão do crédito este ano. O crescimento foi de 7,6% para 11,5%, conforme o Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central do Brasil (RTI-BC), divulgado ontem (24).

A demanda de pessoas jurídicas “vem sendo atendida tanto pela expansão do crédito livre como pelo crédito direcionado, no último caso voltado principalmente para as empresas de menor porte”, afirma o BC. No crédito livre, os bancos têm autonomia para emprestar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros cobradas dos clientes. Já o crédito direcionado tem regras definidas pelo governo, destinados, basicamente, aos setores habitacional, rural, de infraestrutura e ao microcrédito.

Em junho, a projeção para o crescimento do crédito livre – aquele que não utiliza recursos da poupança ou do BNDES – a empresas era de 15,6% e subiu 4,4 pontos percentuais, chegando a 20% em setembro. “No segmento de recursos livres para pessoas jurídicas, o ajuste na projeção se fundamenta pelas condições mais acessíveis de financiamento, com destaque para a taxa de juros na mínima histórica, e pela melhora nas expectativas de recuperação da atividade econômica”, completa o informativo do BC.

Quanto aos empréstimos com recursos direcionados para as pessoas jurídicas, incluindo programas emergenciais, a projeção cresceu 10 p.p., de 1% para 11%. Todavia, as medidas de estímulo ainda não chegam aos pequenos, como lembra o economista Luís Eduardo Barros, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef).

“Há incremento positivo na economia, mas muitas empresas não conseguem acesso a esse crédito. Ainda não é suficiente. Para beneficiar mais as micro e pequenas empresas (MPEs) e facilitar o acesso, seria preciso mexer muito no sistema financeiro brasileiro, inclusive na concorrência bancária”, aponta.

Pessoas físicas

A previsão de crescimento dos financiamentos com recursos direcionados foi revisado de 5% para 9,5%, graças ao avanço no financiamento imobiliário, que é a principal modalidade do segmento, e vem se recuperando desde abril, impulsionado pela queda nas taxas de juros. “As renegociações e as postergações nos pagamentos de parcelas também contribuíram para o crescimento do saldo de crédito no primeiro semestre”, afirmou o relatório do BC.

Já empréstimos livres a pessoas físicas devem apresentar desaceleração em 2020. A projeção para o ritmo de expansão do crédito livre para as famílias foi mantida, então, em 6,5%. Dentre outras razões, a queda no nível de renda foi parcialmente suprida pelo auxílio emergencial.

“Com a redução e depois fim do auxílio, temos uma incógnita sobre a capacidade de pagamento das famílias. Assim, a expectativa para esses meses é que a demanda seja maior, com tendência à estabilidade e até queda em 2021, com a normalização das atividades econômicas”, diz Lauro Chaves Neto, conselheiro federal de Economia (Cofecon) e PhD em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona.

Ou seja, em 2021, a projeção é de movimento inverso: retomada do crédito às pessoas físicas (9%) – com melhoria no mercado de trabalho -; e desaceleração do crédito às empresas (5,1%). O desempenho do crédito às pessoas jurídicas com recursos livres “deve apresentar forte desaceleração motivada pela normalização da atividade econômica e pela necessidade de desalavancagem [redução do endividamento]”.

Mas até o primeiro trimestre de 2021, deve haver grande demanda de crédito ainda para recompor os padrões de atividades financeiras, segundo Lauro. “No caso de pessoas jurídicas, as linhas de crédito especiais criadas durante a pandemia começam agora a chegar no caixa para reforçar o capital de giro. Essas linhas precisam ser ainda mais simplificadas e desburocratizadas para oxigenar a retomada”, destaca.

Contas externas

No relatório, o BC também traz projeção para transações correntes, que são as compras e vendas de mercadorias e serviços e transferências de renda do Brasil com outros países. A projeção de déficit em transações correntes foi reduzida de US$ 13,9 bilhões para US$ 10,2 bilhões (0,7% do PIB) ao final deste ano, pela alta nas exportações.

A projeção para os investimentos diretos no país (IDP) passou de US$ 55 bilhões para US$ 50 bilhões. A previsão de saída de investimentos estrangeiros em fundos de investimento e ações negociadas em bolsas brasileiras e no exterior passou de US$ 16 bilhões para US$ 16,5 bilhões. E a estimativa de saída de investimentos em títulos no país foi alterada de US$ 13 bilhões para US$ 16,5 bilhões.

Para 2021, o déficit em transações correntes deve chegar a US$ 16,7 bilhões (1,1% do PIB). “Essa projeção reflete aumento das despesas líquidas em serviços e renda primária [lucros e dividendos, pagamentos de juros e salários], parcialmente compensado por melhora no saldo comercial”, diz o BC.

“O mais provável é que o déficit seja menor ainda. Com o câmbio favorável, as empresas estão se preparando para consolidar as exportações no próximo ano”, conclui Luís Eduardo Barros. (com Agência Brasil)

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