Economia

Aulas presenciais retornam em 20% das escolas particulares de Fortaleza

Após cinco meses e meio com atividades interrompidas, férias em meses atípicos e aulas remotas, o ensino presencial começou nessa terça-feira (1º). Desafio agora é adaptar as crianças à nova realidade escolar

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

Após 166 dias sem aulas presenciais, o mês de setembro começou com a reabertura das escolas para alunos de creches e pré-escolas particulares de Fortaleza. A estimativa é que 20% das unidades de ensino da Capital tenham voltado a receber alunos. Desde o dia 19 de março as atividades pedagógicas in loco foram interrompidas devido à necessidade de isolamento social. Para quem optou pelo retorno à sala de aula física, a terça-feira teve clima de recomeço. Foi como o primeiro dia de aula, mas em pleno segundo semestre e com uma escola repleta de novas regras que o ensino híbrido começou na capital. Apesar do receio ainda presente devido à pandemia do novo coronavírus, não foi raro profissionais e pais se emocionarem com a volta parcial da rotina escolar.

“Foi um dia memorável. A gente viveu todas as emoções de um início de ano no primeiro dia de setembro, que também é o mês do nosso aniversário de 85 anos”, define o diretor do Colégio 7 de Setembro, Henrique Soárez, referindo-se à idade da instituição de ensino. Segundo ele, todas as medidas de segurança sanitária estavam sendo aplicadas e, em 20 de julho, a escola já estava pronta para reabrir. Ontem e hoje a escola recebeu um grupo de alunos; na quinta e sexta-feira, será outro e, a partir do dia 8 de setembro, todo o ensino infantil.

Soárez aponta que essa terça-feira, após cinco meses e meio de distância, foi de “emoções com a alegria do retorno”. Isso porque quem optou por levar os filhos para a aula estava ciente da decisão e precisando desse apoio para trabalhar e, portanto, satisfeito com a medida. “Quem está com receio ainda e com medo não veio. Na escola a gente só viu quem estava louco para voltar”, analisa. Nas portas das unidades de ensino, não foi raro encontrar pais e profissionais da educação emocionados com o retorno.

“O que eu ouvi de mãe foi que teve criança que acordou 4 horas da manhã. Como era pouca criança para muito adulto, o que eu vi foi muita criança achando a escola diferente, procurando os amiguinhos. Quem trabalha com educação percebe isso imediatamente. Foi um dia diferente, mas dentro do que a gente estava imaginando”, diz. Segundo o diretor, os profissionais foram testados em seis polos de ensino da capital, durante o fim de semana e na segunda-feira.

As escolas voltaram com autorização para receber 30% do alunado liberado para voltar. Nas próximas semanas, a expectativa é que, mediante indicadores de saúde e coerência das escolas diante dos protocolos, o índice aumente gradativamente. “As famílias vão se sentir mais seguras de voltar para o presencial e o governo vai aumentando a liberação. A gente torce para que isso ande junto”, sinaliza. Além do ensino regular, o integral também voltou ontem. Antes da reabertura oficial, Henrique Soárez conta que a escola ficou aberta para família que quisessem ver de perto como seriam aplicadas as novas regras. “Essa transparência e respeito mostram para as famílias que a gente está comprometido desde o início com elas, com as medidas de segurança e com as determinações do governo”, garante.

Com unidades no Henrique Jorge, Montese e Jóquei, a Escola Vivências recebeu ontem menos de metade dos alunos, mas como se fosse o grupo todo no primeiro dia de aula do ano. “Vivemos um drama social. Ao mesmo tempo em que defendemos o direito de escolha dos pais, estamos passando por uma readaptação. Ainda existe medo, receio. Por isso estamos mais preocupados com o fator sócio-emocional da criança, mais do que com conteúdo. Essas crianças estão vivenciando um luto emocional, pois lhes foi negado o direito de estar na escola, vivendo seu processo de aprendizagem, que se dá nas interações”, explica o diretor pedagógico da sede Henrique Jorge, Marcos Aurélio Nogueira dos Santos.

Para ele, a criança se desenvolve não só no ambiente da sala de aula, mas através do vínculo com a instituição e com a comunidade escolar. “A escola tem o fato de pertencimento. Como diz (Jean) Piaget, na escola você aprende, constrói, desconstrói e reconstrói. É isso que estamos vivendo hoje. Mesmo que as crianças não tenham discernimento para entender todas as mudanças que ela encontrou, álcool, professores de máscaras, menos alunos na sala, essa é uma forma de nos reconstruirmos também”, avalia.

5.500 profissionais foram testados

Desde o dia 20 de julho era esperada a liberação das aulas presenciais. A data estava no Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais como o início da fase 4, que incluía a retomada gradativa das aulas presenciais entre os setores a serem atingidos pelo faseamento. Contudo, devido aos indicadores epidemiológicos, a data de reinício das aulas foi adiada por semanas, sendo liberado apenas no último sábado, com novas medidas. Uma delas é a necessidade de testagem dos profissionais de educação. Até ontem, cerca de 5.500 haviam passado pelo teste de RT-PCR, feito com swab (cotonete) introduzido na narina e que detecta a presença do novo coronavírus no organismo.

Pelo documento, além de protocolos já conhecidos pela categoria, como distanciamento dentro da sala de aula e regras de locomoção e higienização nas escolas, o comitê de combate ao novo coronavírus exigiu que todos os profissionais da educação sejam testados antes de voltarem às atividades. De sábado até ontem, cerca de 5.500 profissionais fizeram testes, conforme o Sindicato das Escolas Particulares do Estado do Ceará (Sinepe).

De acordo com a presidente da entidade, Andréa Nogueira, trabalho foi feito em forma de mutirão para permitir que o recomeço a partir de ontem. Entretanto, há escolas que só retornarão ao longo desta semana ou mesmo no próximo dia 8, após o feriado de 7 de setembro. Independente da data, a presidente considera que a liberação é uma vitória para a categoria. “Nós sabemos que a escola voltou a ser uma escola viva, com a presença dos alunos e das crianças, de uma forma adequada, principalmente para esse grupo da educação infantil, tendo em vista a saúde emocional e processo de desenvolvimento da criança”, classifica. Segundo ela, os dias diferem porque o governo exige que haja um comunicado à família, aos estudantes e profissionais de pelo menos 7 dias antes do retorno. Desse modo, Andréa Nogueira acredita que, ontem, 20% das escolas voltaram a funcionar.

Para ela, o clima foi de “total tranquilidade”. Isso porque só é permitida a presença de 30% dos alunos, para evitar aglomeração, e porque há famílias que optaram pela continuidade do ensino remoto. “Acreditamos que esse índice vá crescer a partir da próxima semana e que alguns anos do fundamental sejam incluídos”, vislumbra. A presidente espera que, diante dos efeitos da primeira semana, cada vez mais pais e estudantes optem pelas aulas presenciais, embora haja a limitação de frequência nas escolas.

De acordo com Andréa Nogueira, de sábado até terça-feira foram testados cerca de 4.500 profissionais da educação infantil. Sobre a aplicação das medidas de biossegurança, ela informa que as escolas investiram no mínimo de R$ 5 mil a R$ 20 mil por unidade, dependendo do porte da escola. Uma escola de médio porte, por exemplo, tem pelo menos seis totens. Cada um custa em média R$ 350. Esse custo é vinculado à estrutura, quantidade de portarias, de alunos, profissionais e salas de aula. “O momento é de cumprimento de todos os protocolos. Sobre o conteúdo, cada escola tem autonomia para trabalhar com relação ao seu regimento e perspectivas pedagógicas. Mas nossa orientação é no sentido de se preocupar menos com o conteúdo, não massificar muito, e priorizar os conteúdos básicos e fundamentais para as séries futuras. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) permite essa mobilidade pedagógica”, informa. Sobre o PCR para profissionais de educação, seis unidades de ensino superior continuam fazendo os testes.

No Colégio Darwin, que tem 20 anos de atuação em Fortaleza, o recomeço das aulas presenciais é hoje. Com rodízio de turmas, salas com menos alunos, pias dispostas em áreas comuns, bebedouros usados apenas para encher garrafas de água e profissionais atentos ao comportamento das crianças, a expectativa é que famílias e escola reforcem os laços de parceria pedagógica e afetiva.

Conforme indica o diretor Sávio Paz, a escola volta ainda com a preservação do emprego dos 120 funcionários. “Vai ser uma acolhida muito sensível. Todos nós estamos em uma grande expectativa. Foi muito tempo de afastamento. Mas só volta a família com condição de sentir confortável e segura com a decisão. Aquelas que não se sentem seguras ainda para retornar terão todo o suporte continuarmos esse ano letivo”, assegura.

Sávio Paz lembra que o ano foi marcado por mudanças. “Começamos normalmente, em março paramos, em maio iniciamos o ensino online. Agora temos esse novo desafio. É um ano que está exigindo bastante habilidade da escola e flexibilidade das famílias. Tivemos mais tempo para aplicar os protocolos, mais de 40 dias”, enfatiza.

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