Economia

Ascensão de Joe Biden pode favorecer economia brasileira, dizem especialistas

Analistas defendem que o diálogo e a relação diplomática livre de ideologias políticas – principalmente por parte do Brasil – são fundamentais para fortalecer o comércio de longa data com os Estados Unidos

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

(Photo by JIM WATSON / AFP)

A posse do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, hoje (20), marca uma nova era da política norte-americana e pode beneficiar a economia do Brasil.
Especialistas destacam que, apesar da proximidade ideológica do presidente Jair Bolsonaro com Donald Trump, nosso país não deve sofrer retaliações comerciais – afinal, os dois países são parceiros de longa data.
No entanto, cabe ao governo brasileiro estabelecer relações diplomáticas que possam quebrar barreiras e favorecer o comércio exterior. “Joe Biden tem um perfil mais conciliador, totalmente diferente de Trump. Biden vai procurar conversar mais com o restante do mundo, e não deve ser diferente com o Brasil”, projeta o economista Wandemberg Almeida, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE). “A curto prazo, a economia brasileira pode sentir algumas diferenças, mas a médio e longo prazos nosso país terá a chance de fazer bons acordos comerciais, com novos parceiros”, antecipa.
A cientista política Carla Michele Quaresma, professora de Ciências Políticas da Faculdade CDL, lembra que o histórico do Partido Democrata no poder é favorável ao Brasil. “No governo de Barack Obama, os dois países mantiveram uma relação bastante democrática. A perspectiva é que a política comercial americana favoreça as empresas que apoiaram a campanha de Biden: são grandes companhias de tecnologia e de energias renováveis, e o Brasil pode aproveitar esse novo cenário”, analisa. Na semana passada, Joe Biden anunciou um grande pacote de incentivos à recuperação da economia norte-americana. Entre as medidas, estão o aporte de US$ 415 bilhões para reforçar a distribuição de vacinas contra a covid-19, cerca de US$ 1 trilhão em auxílio direto a famílias e US$ 440 bilhões para pequenas empresas e comunidades mais atingidas pela pandemia.
De acordo com os analistas, essas medidas sinalizam para uma política econômica que favorece os investimentos. “Esse pacote de estímulos vai ajudar tanto o mercado daquele país quando a economia global. Ações como essa reduzem as incertezas dos investidores, o que favorece muito as Bolsas de Valores do mundo todo. Outro fator importante é que Joe Biden deve ter uma agenda menos conflituosa, ele realmente pretende aquecer o mercado e fazer novos acordos comerciais”, explica o economista Wandemberg Almeida.
Carla Michele Quaresma observa que o novo foco da política econômica norte-americana deve ser favorável ao Brasil. “Donald Trump era vinculado a determinados segmentos que competem diretamente com o que produzimos e que tinham uma tributação muito desfavorável, como é o caso do alumínio. Portanto, se havia uma taxação maior para determinados segmentos da economia, provavelmente não teremos isso no governo Biden, porque as preocupações mudam”, descreve a cientista política. De acordo com os analistas, se as diferenças partidárias forem deixadas de lado, a relação do Brasil com os Estados Unidos tende a se fortalecer nos próximos anos. “Nossos governantes precisam, através da diplomacia, adotar práticas livres de qualquer questão ideológica, e o grande interesse deve ser estabelecer as melhores parcerias”, analisa a professora da Faculdade CDL, Carla Michele Quaresma. “Com boas parcerias comerciais, poderemos colher bons frutos, pois as duas nações só têm a ganhar com a continuidade desse comércio”, diz Wandemberg Almeida.

Dólar cai perante as principais moedas do mundo um dia antes da posse

Num dia em que o Brasil se descolou do mercado internacional, o dólar subiu e a bolsa caiu. A moeda norte-americana fechou em alta pela terceira sessão seguida. A bolsa caiu, mas o clima no exterior amenizou as perdas.
O clima do mercado doméstico contrastou com o cenário internacional. O dólar caiu perante as principais moedas do mundo por causa das expectativas em torno do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden. A promessa de aprovação de um pacote de estímulos de US$ 1,9 trilhão para a maior economia do planeta reduz a pressão sobre a maior parte dos mercados emergentes.

Dólar
O dólar comercial encerrou a terça-feira (19) vendido a R$ 5,345, com alta de R$ 0,041 (+0,77%). A divisa começou o dia em queda. Na mínima do dia, por volta das 9h20, a cotação chegou a R$ 5,24, mas inverteu o movimento e passou a operar em alta por volta as 11h30.
No mercado de ações, o índice Ibovespa, da B3, fechou o dia aos 120.636 pontos, com queda de 0,9%. O índice operou em alta durante a manhã, chegando a superar os 122 mil pontos, mas passou a cair no fim da manhã. No início da tarde, o indicador chegou aos 119 mil pontos, mas uma leve entrada de fluxos externos, decorrente do otimismo no mercado internacional, conteve o recuo.
Declarações dos candidatos à presidência da Câmara de que o auxílio emergencial pode ser reativado provocaram instabilidade no mercado. (Agência Brasil)

Com Biden, meio ambiente estará no foco

As questões ambientais estão na pauta do novo presidente Joe Biden. Apesar de o assunto estar longe das preocupações das autoridades brasileiras – vide as polêmicas relativas à legislação ambiental e a inércia nas tragédias naturais do ano passado –, pode ser uma oportunidade para o governo Bolsonaro rever certas práticas. “Esse novo modelo pode ajudar o Brasil, basta que a gente se adapte a essa ideia, adotada em todo o mundo: fazer bons negócios, sem esquecer e degradar o aspecto ambiental”, recomenda o economista Wandemberg Almeida.
Carla Michele Quaresma observa que outra mudança de postura do governo Biden diz respeito à intervenção do Estado na economia. “Vivemos a onda liberalizante protagonizada pelo governo Trump, e agora temos a discussão que retorna, sobre a necessidade da intervenção maior do Estado na sociedade, o mesmo perfil adotado durante o governo Barack Obama”, detalha. “Em termos globais, os Estados Unidos devem privilegiar relações multilaterais”, analisa.

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