Economia

Agronegócio cearense mantém PIB em alta e faturamento em expansão

No Ceará, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio apresentou alta de 18,88%, no segundo trimestre (abril, maio, junho) deste ano. Expectativa é que o ano, no Ceará, encerre com a atividade econômica local melhor do que a nacional

Marta Bruno
martabruno@ootimista.com.br

O agronegócio pouco sentiu os efeitos negativos da pandemia, principalmente no Ceará. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor, neste ano, apresentou alta durante cinco meses consecutivos no Brasil. Em maio, a alta foi de 0,78%, chegando a um resultado positivo acumulado de 4,62% entre janeiro e maio, comparando com o mesmo período do ano passado. No mesmo período, o faturamento em dólar das exportações do agronegócio apresentou forte alta: 28% em junho de 2020, frente a junho de 2019. No semestre como um todo, a alta foi de 11%. A tendência é que a exportação no agronegócio mantenha o ritmo até o fim do ano, inclusive no Ceará, onde o PIB do segundo trimestre do ano foi de 18,88%, o único positivo no período no Estado, onde foi registrada queda de 14,55% no período, em relação ao mesmo período do ano passado, quando o índice ficou em 1,53%.

Divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o PIB local é calculado com base na atividade dos setores de agropecuária, indústria e serviços. Dos três, o agro foi o único que apresentou desempenho positivo no segundo trimestre, exatamente os meses de isolamento social e paralisação da maior parte das atividades econômicas – mas não no agronegócio. Com uma boa reserva hídrica após seis anos de estiagem, foi possível garantir a produção em alta, quando outros estados e mesmo países estavam com a safra comprometida por conta da pandemia do novo coronavírus.

Assim, a expectativa é que a safra deste ano mantenha o PIB da agropecuária em alta nos próximos períodos de análise, especialmente a partir de agosto, quando se intensificam a produção e as exportações no setor. Além disso, a alta no mercado interno promete garantir aumento no consumo local. “A tendência é melhorar neste ano. O problema é que, no contexto da cadeia produtiva local, o agro não possui representação suficiente para reverter o PIB geral. O setor do agronegócio não consegue amenizar a queda do PIB porque representa muito menos na economia se comparado com os serviços, que são 75% do PIB, e com a indústria”, explica o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Ricardo Coimbra.

Em relação ao cenário nacional, o PIB no setor teve influência direta do preço do dólar, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP). Os preços ficaram mais baixos na média do semestre para a grande maioria dos produtos vendidos ao exterior. A forte alta das quantidades embarcadas, tanto em junho (alta de 37%) quanto no semestre (alta de 16,5%) elevou o faturamento em dólar do setor em 2020. Em reais, o ganho em termos de faturamento com as vendas externas foi ainda mais surpreendente, atingindo R$ 76 bilhões, sendo R$ 48 bilhões na pecuária e R$ 28 bilhões na agricultura.

A desvalorização da moeda nacional de 21% na comparação mensal (junho de 2020 contra junho de 2019) e de 15% no acumulado do semestre resultaram em ganho de 32% do faturamento em reais no semestre – apenas em junho, a alta foi superior a 50%. Esse forte resultado da atratividade das vendas externas dos produtos agrícolas mostra o efeito da desvalorização cambial sobre a competitividade do setor, o que contribui para elevação das quantidades exportadas em um momento de crise e de redução do volume de comércio entre países.

Pela pesquisa do Cepea, as exportações se mantiveram aquecidas, com destaque para o papel da China nesse processo, impedindo baixas maiores nos preços das carnes. O segmento primário agropecuário foi destaque no PIB do agronegócio tanto em maio, com crescimento de 3,08%, como no acumulado entre janeiro e maio de 2020 quando cresceu 11,67% frente ao mesmo período de 2019.

O resultado foi impulsionado pelo desempenho do ramo agrícola, cujas expansões foram de 4,62% em maio e de 15,17% no acumulado dos primeiros meses de 2020. Entre os produtos, os destaques com altas de preços foram milho, café, cacau, arroz, soja e trigo, todos com elevações superiores a 15%. Nesse caso, são esperadas safras maiores em 2020 para algodão, arroz, cacau, café, feijão, laranja, milho, soja, trigo e madeira para celulose. O segmento de agrosserviços também cresceu em maio e no acumulado do ano, apesar da pandemia. Esse resultado reflete, por um lado, a manutenção das atividades do agro mesmo em meio às medidas de distanciamento social e, por outro, o forte ritmo de exportações do agronegócio.

No agronegócio, o levantamento paulista mostra que a agroindústria foi o segmento mais prejudicado pelas medidas de distanciamento social, único a registrar retração no PIB. Em maio a queda foi de 0,68% e, no acumulado de janeiro a maio, de 0,24%, em relação ao mesmo período de 2019. No caso da indústria agrícola, a queda da produção decorrente da pandemia se acentuou em maio para produtos e móveis de madeira, papéis, têxtil, vestuário, conservas de frutas/legumes/outros vegetais, café, couro e calçados. Por outro lado, os setores cujos cenários não se agravaram em maio foram celulose, produtos amiláceos, produtos do fumo, óleos vegetais e bebidas.

O estudo, coordenado pelo pesquisador chefe do Cepea, Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, considera que a pandemia de coronavírus diminuiu o volume geral do comércio entre países. Isso porque houve queda da atividade econômica e, consequentemente, diminuição na renda dos indivíduos e dos países. “O agronegócio, por ser fornecedor de alimentos, fibras e energia, teve seu desempenho afetado de forma mais amena. Em direção contrária ao desempenho do comércio em geral, as exportações brasileiras do agronegócio conseguiram imprimir maior ritmo de vendas ao exterior em 2020, indo na contramão de outros setores econômicos. A forte demanda chinesa, aliada a problemas sanitários em países produtores, à necessidade de garantia de segurança alimentar de sua numerosa população e à desvalorização do real tornaram os produtos brasileiros mais atrativos aos compradores estrangeiros”, aponta. Desse modo, segundo conclui a pesquisa, “há grandes chances de o setor manter o recorde de vendas e faturamento obtido no primeiro semestre do ano ao final de 2020, pois a oferta brasileira de produtos agrícolas é farta, alcançando recorde de produção de grãos em 2020. Além disso, o recrudescimento das relações comerciais entre China e Estados Unidos tem beneficiado o Brasil”.

 

Exportações de frutas nesta safra podem aumentar até 40% no Complexo do Pecém

O Porto de Fortaleza é uma das saídas de mercadorias para França, Bélgica, Índia, China, Estados Unidos, Reino Unido, Holanda e Espanha. Neste ano, já seguiram para esses países frutas diversas (escala semanal), minério de manganês, escória, óxido de magnésio, clínquer, coque de petróleo, pescados, couros, cera de carnaúba e castanha de caju. De janeiro até agosto, este modal marítimo movimentou, entre exportação e importação, 3,2 milhões de toneladas, um incremento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado, que fechou em 2,9 milhões de toneladas.
Em relação às frutas, além da escala semanal para o Caribe, de onde segue para a Europa, passa também pelo Porto de Fortaleza a safra anual. A safra 2020-2021, por sinal, terá início neste final de semana e deve se estender até dezembro, numa operação realizada pela Progeco. “Apesar da crise sanitária que mexeu com a economia mundial, o modal marítimo no país cumpriu o seu papel e não deixou faltar mercadoria, como também continuou atendendo às demandas externas de granéis sólidos não cereais e carga geral. Nesse ritmo, o Porto de Fortaleza vem conseguindo se superar a cada mês, consolidando como um importante equipamento para a movimentação de cargas”, ressalta a diretora-presidente da Companhia Docas do Ceará, Mayhara Chaves.
A safra de frutas começou no Ceará, em agosto, com boas perspectivas de exportações através do Complexo do Pecém. Somente nesse mês a movimentação de contêineres em geral foi 24% maior do que em agosto de 2019. As frutas tiveram participação fundamental nesse aporte e podem potencializar os negócios ainda neste ano. A expectativa é que, de agosto a março, período da safra sazonal no Estado, haja um crescimento de 30% a 40% no embarque de frutas, principalmente o melão – que responde por 80% das operações no segmento -, manga, melancia e uva. Se a China entrar na rota das exportações via porto, o mercado que já está consolidado para Estados Unidos, Europa e Emirados Árabes deve triplicar as exportações de frutas no Nordeste.
Segundo dados do Complexo do Pecém, em 2019 foram exportadas 11.578 TEU’s (unidade de medida que corresponde a um contêiner de 20 pés), o que corresponde a 151.737 toneladas de frutas. Já em 2020, somente entre janeiro e agosto, o envio foi de 4.687 TEU´s, o que equivale a 62.768 toneladas. O país que mais recebeu carga foram os Estados Unidos, absorvendo 35% das frutas que saíram do porto. Há a Holanda ficou com 26%; o Reino Unido, com 17%; e Espanha, com 13%. Itália e Alemanha foram os que menos receberam, ficando cada um com 5% e 2%, respectivamente, das frutas brasileiras exportadas via Complexo do Pecém. Outros países somaram 2% da demanda.

De acordo com o gerente de negócios portuários do Complexo do Pecém, Raul Viana, as operações de exportação em geral somaram mais de 220 mil TEU’s entre janeiro e agosto deste ano, 6% a mais do que no mesmo período do ano passado. Só em agosto, o salto foi de 24%. O incremento do mês passado se deve, em grande medida, à presença, do conteneiro MSC Shuba B, que atracou no terminal no dia 29 para carregar frutas frescas produzidas no Nordeste, com destino ao norte da Europa. Com 330 metros de comprimentos por 48,2 de largura, o MSC Shuba foi o maior navio já atracado no Pecém, desde que o porto foi inaugurado, em março de 2002.

O navio partiu do Pecém com frutas do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia. No caso desses dois últimos estados, a produção é oriunda do Vale do Rio São Francisco, especialmente dos municípios de Petrolina e Juazeiro da Bahia. Conforme explica Raul Viana, no ano passado, o maior navio utilizado para o serviço tinha 300 metros, enquanto o da MSC tem 330, o que permite carregar mais contêineres. “Para o fim dessa safra, teremos um crescimento de pelo menos 30% a 40%. Isso se deve à solidez da parceia com a MSC e à confiança que os exportadores têm em todo o processo. São 1.088 tomadas frigoríficas. Isso é um grande diferencial do porto, reconhecido pelos exportadores e clientes. É uma garantia de que a fruta vai ficar em um local adequado e será preservada do destino até chegar ao cliente e ao consumidor final, mesmo se tratando de produto perecível”, diz.

Por hora, são movimentados 60 contêineres no Complexo do Pecém. Como o armador (dono do navio) cobra por produtividade, o tempo que o equipamento passa embarcado é custo. “Quanto mais tempo o navio fica atracado, mais taxas e tarifas. Por isso a logística é tão importante e um fator fundamental de competitividade. Esse é um diferencial nosso”, justifica. O porto tem três linhas para escoar frutas, sendo duas para a Europa e uma para os Estados Unidos. Entre as europeias, a que segue para o Mar Mediterrâneo foi inaugurada em 2019 e é a única do Ceará a conectar o estado a portos da Itália, além dos da Espanha, sem transbordo. A outra opera rumo ao norte da Europa, existe há quatro anos e liga o Ceará a Roterdã, na Holanda, em 12 dias. Já a linha que interliga o Pecém aos Estados Unidos chega a Nova Iorque, o primeiro destino, em sete dias. Essa é a rtoa mais antiga do terminal e leva manga para portos da costa leste norte-americana.

A maior parte do melão embarcado aqui vem do Rio Grande do Norte, seguido do Ceará. Juntando-se à carga da Bahia e Pernambuco, o produto segue para outros países. Raul Viana diz que, embora haja portos nos outros estados, as taxas cearenses são mais atrativas e compensam inclusive o transporte rodoviário das frutas daqueles estados para o Ceará. “Conseguimos atender até ao mercado no Oriente Médio, via Europa, com transbordo em Valência até chegar a Dubai, aos Emirados Árabes Unidos”, informa.

Sobre o envio de melão para a China, Viana afirma que alguns exportadores enviaram via aérea produtos para serem analisados por possíveis compradores chineses, que farão testes sobre a qualidade dos produtos. “Todas as exportadoras têm as certificações ambientais. O critério é altamente rígido. No momento, a negociação está esse status de mandar amostras, que é necessário até que se consolide”, pondera.

Efetivados os negócios para exportação via marítima, um novo mercado se apresenta. “É um potencial gigantesco de crescimento. A China é o motor de crescimento mundial. Essa exportação sendo efetivada, há possibilidade de até triplicar o volume atual de exportações no Nordeste. A região plantada pode até triplicar”, sinaliza. A dificuldade maior, nesse caso, é a distância. Enquanto para os Estados Unidos o transporte marítimo ocorre em sete dias e para a Europa em dez dias, em média, para a China são mais de 44 dias. “O armador vai ter que criar a muitas mãos uma solução de transporte muito mais célere e rápida. Isso foge ao nosso controle. Ajudamos em infraestrutura para receber o navio”, explica. Nas relações com a China, hoje o Ceará mais importa do que exporta, principalmente eletroeletrônicos, artigos de decoração, móveis, utensílios do lar, máquinas e equipamentos em geral, insumos de tecnologia. Já as exportações se referem a calçados e outros produtos não perecíveis.

Raul Viana acredita que o Complexo está seguindo na contramão do mercado. Com a ampliação da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), as perspectivas são as melhores. Hoje a área possui três empresas: Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), Praxair White Martins do Pecém e Phoenix do Pecém. No último dia 16, o governo do Estado e a Noxis Energy assinaram memorando para a instalação de uma refinaria de petróleo também na ZPE. Para ampliar a área, estão sendo investidos R$ 11 milhões no projeto, que inclui serviços de infraestrutura, terraplanagem, tratamento do solo, saneamento, construção de rede, tecnologia de segurança, máquinas, câmeras. “É um grande condomínio. O objetivo é receber empresas e gerar novos investimentos e desenvolvimento local, com caixa da Cipp S.A (Companhia de Desenvolvimento do Complexo Industrial e Portuário do Pecém)”, diz, acrescentando que a ampliação do chamado Setor 2 será concluída no primeiro semestre de 2021. As empresas que se instalam na ZPE têm por obrigação exportar pelo menos 80% do faturamento e importar seus insumos através do porto. Os outros 20% podem ser comercializados no mercado nacional.

 

Mais empregos para o setor

Com saldo positivo de 86.217 novas vagas de janeiro a julho de 2020, a agropecuária gerou quase dez vezes mais postos de trabalho do que a construção civil no país. Foi o único setor a abrir novas vagas no primeiro semestre deste ano. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que o setor lidera a geração de novos postos de trabalho em 2020, mesmo com a pandemia. No Ceará, o setor emprega uma pessoa por hectare plantado.

 

Neste ano, com a pandemia determinando geração de empregos e perdas de postos de trabalhos na maioria dos setores, a agropecuária segue liderando o saldo positivo. No primeiro semestre de 2020, foram 62.633 no acumulado dos 6 primeiros meses do ano, a agropecuária apresentou novo resultado positivo em julho, de 23.027 vagas, totalizando 86.217 postos criados no acumulado dos sete primeiros meses do ano.

 

Em junho, no Ceará, foram efetivadas 392 contratações. Nesse mês, todos os estados do Nordeste e do Centro-Oeste tiveram saldo positivo. No país, quem mais contratou foi São Paulo, com 23.089 novas vagas só em junho, seguido do Mato Grosso (3.014), Minas Gerais (2.053), Goiás (1993) e Bahia (1.189). Das 36.836 vagas criadas pela agropecuária somente em junho, segundo o Caged, a maioria foi em na produção de lavouras permanentes (14.194), na produção de lavouras temporárias (10.617).

Segundo o presidente da Câmara Setorial do Agronegócio, José Amílcar Silveira, o agronegócio tem um grande potencial no Ceará, onde o setor gera um emprego por hectare plantado. “Para cada 5.000 mil hectares, são 5.000 empregos. Não adianta inventar a roda. Nós sabemos que, no Brasil, a roda é o agronegócio. Na Bahia, o setor representa 25% do PIB (Produto Interno Bruto). Aqui é pouco mais de 5%, mas com um potencial sem tamanho para se desenvolver e gerar receita para o estado e para a economia”, considera.

 

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