Economia

A indústria bem conduzida

Em entrevista exclusiva, o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, aborda os desafios da Indústria 4.0 e as perspectivas do setor no Estado

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

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O setor industrial cearense há muito tempo tem se destacado pela capacidade de superar crises, vencer barreiras macroeconômicas e continuar gerando emprego e renda. Com a adesão aos conceitos da Indústria 4.0, a expectativa é que o setor ganhe competitividade e amplie as condições de melhorar sua produção em todos os segmentos, desde os mais tradicionais até os recém-estabelecidos. Sob a presidência de Ricardo Cavalcante, a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) tem tido papel fundamental na organização e modernização das empresas associadas, obtendo conquistas importantes para a categoria. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal O Otimista, Ricardo Cavalcante aborda os conceitos da Indústria 4.0, as perspectivas para o setor que comanda e o que se pode esperar da atuação da Associação Nordeste Forte, que ele vai passar a presidir neste mês de fevereiro.

O Otimista: Os conceitos da Indústria 4.0 já são uma realidade para a indústria cearense?

Ricardo Cavalcante: Os conceitos da indústria 4.0 reúnem uma série de tecnologias, como as da computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas, robotização e modelos de simulação que se encontram entre os principais investimentos das empresas em economias desenvolvidas e, hoje, já começam a ser utilizadas nas estratégias dos industriais brasileiros e do Ceará. Se há cinco anos atrás poucos empresários cearenses estavam nesse processo, a pandemia acelerou a velocidade da adoção dessas tecnologias, e já contamos com projetos concretos e que servem de exemplos. Por questões individuais, nem todos podem seguir o mesmo ritmo. Isso depende de vários fatores, como as variantes do mercado, o tamanho da empresa, o tipo de negócio, ou de uma gestão com foco na inovação. O domínio amplo dessas tecnologias no Ceará trará relevantes diferenciais competitivos para nossa indústria e, quando pensamos na concorrência internacional, esses investimentos são tratados como necessários para a própria sobrevivência da empresa. Lembro ainda que esse tema merece ser discutido e fortalecido pelos Governos Federal e Estadual para a ampliação de recursos para indústrias de todos os portes e, com isso, a possibilidade de ampliação da nossa capacidade de inserção no mundo e de contribuição do setor para o PIB estadual.

O Otimista: De que forma a Fiec tem trabalhado para implantar e disseminar esses conceitos pelo setor?

Ricardo Cavalcante: Na Fiec, esses processos já estão sendo implementados dentro instituição, a exemplo da digitalização. Um dos principais eixos dessa nova tendência é o uso da inteligência artificial. Todos eles são repassados para os nossos Sindicatos, que servem de referência para nossas indústrias. Esse é um caminho que perpassa pelos nossos esforços e de todos do Sistema Fiec. Entre nossas atividades, o Senai Ceará foi destaque no Brasil Mais Produtivo, estando entre os parceiros com melhores resultados junto às empresas participantes. Nesses últimos anos, temos sido parceiros de diversas indústrias, o tema tem ganhado importância e o portfólio do Sistema Fiec tem buscado estar à frente das necessidades industriais como forma de induzir as empresas a inovarem e ganharem competitividade. Hoje, nossa oferta de capacitação educacional já engloba esse tema em todos os níveis, do operador de máquinas ao executivo da empresa, a exemplo do MBA de Liderança para Transformação Digital e Indústria 4.0 ofertado pelo IEL Ceará. Além disso, os serviços de Segurança e Saúde do Trabalho do Sesi, bem como as consultorias em gestão da inovação do IEL, têm total alinhamento com as novas tecnologias e as soluções em tecnologia e inovação do Senai não se restringem a serviços. Temos desenvolvido novas aplicações de tecnologias digitais sob medida para empresas cearenses que são referência em seus mercados. Temos trabalhado incansavelmente visando ampliar o acesso a essas soluções para indústrias de todas as regiões do Ceará.

O Otimista: Na sua visão, quais são os benefícios que esses conceitos da Indústria 4.0 podem trazer para as empresas?

Ricardo Cavalcante: Dentre as principais vantagens nos novos conceitos de produção, que contam com dispositivos “inteligentes” ligados à rede, além do uso de inteligência artificial para completar tarefas complexas, podemos listar uma maior eficiência de custo, assim como melhorias de conteúdo e rapidez da adaptação da produção nas fábricas em resposta às mudanças de mercado e fornecedores. Com isso, maior competitividade frente aos diversos mercados. Estas exigências surgem em um contexto de necessidade no aumento da produtividade, diversificação de produtos, redução de tamanhos de lotes e preocupações com a sustentabilidade.

O Otimista: Quais são os desafios para implantar esses conceitos?

Ricardo Cavalcante: Penso que um dos desafios seja o amadurecimento da indústria em relação às suas práticas de gestão, pois é uma condição necessária para aproveitarmos os benefícios dessas novas tecnologias. Assim, os usos das tecnologias digitais podem elevar o patamar de competitividade da empresa e a produtividade. Reforço ainda que essa mudança de cultura deve estar em todos os níveis, desde o dono, os principais acionistas, os gestores, o chão de fábrica, a mão de obra técnica, todos precisam estar envolvidos, pois essa é uma mudança cultural. Vejo também como desafio a necessidade de resolução de questões de segurança e proteção digital, a disponibilidade de mão de obra capacitada e a integração das pequenas e microempresas – que comercializam com a cadeia cearense – nas etapas de produção das empresas do estado.

O Otimista: Enquanto segmento, a indústria cearense pode se fortalecer ainda mais com esses conceitos 4.0?

Ricardo Cavalcante: Sim. O aumento sustentado de produtividade e de competitividade do estado perpassa por uma integração bem-sucedida entre as pequenas e médias com as grandes empresas. Nesse sentido, cerca de 84% dos estabelecimentos cearenses tem até 19 funcionários e somente 1% tem acima de 250. A indústria 4.0 requer necessariamente uma maior integração dessas tecnologias ao longo das cadeias produtivas, mas oferece oportunidade de dinamização da economia do estado com ganhos mútuos de custo e competitividade para as empresas de diferentes portes. Ao mesmo tempo, o Ceará tornou-se um hub fundamental como plataforma de exportação. O estado apresentou um crescimento relevante de exportações industriais, mais do que dobrando entre 2015 e 2019, seja pela consolidação da Companhia Siderúrgica do Pecém e da ZPE, a ampliação da rede aeroviária ou mesmo o hub de tecnologia da informação. Mais do que outros mercados, o exportador necessita de uma intensa análise de dados e ganhos em eficiência de logística, através de uma maior conectividade entre máquinas e ajustes dos sistemas de previsão para estoque e produtos que podem servir fundamentalmente para aumentar a inserção externa de empresas cearenses. É preciso entender que a Indústria 4.0 não é um conceito que impacta apenas a indústria em si, mas todos os segmentos econômicos, aliás, toda a sociedade. Isso inclui governos, organizações de fomento, instituições de ensino e pesquisa, entidades de classe, enfim, todo um tecido social que precisa atuar de forma integrada. É exatamente por isso que a Fiec tem tido o cuidado de trabalhar em rede, adotando um modelo de governança coletiva, que envolve simultaneamente, os sindicatos das indústrias, as universidades, os órgãos de governo e outras organizações representativas dos setores produtivos. Nós entendemos que a indústria somente será forte se o comércio, os serviços, o agronegócio, o turismo, enfim, todos os demais segmentos também forem. Se a convergência tecnológica é o fundamento maior da Quarta Revolução Industrial, para nós, a convergência de interesses é o fundamento maior que move a economia.

O Otimista: Para este ano de 2021, qual é sua expectativa para o desempenho da indústria cearense, apesar de tantos desafios em decorrência da pandemia?

Ricardo Cavalcante: No contexto de recuperação econômica pós-retomada dos decretos de paralisação, a indústria já recuperou mais da metade da queda acumulada registrada entre junho e novembro, apresentando, a partir de julho, uma produção superior na comparação com o mesmo período do ano anterior. As mais recentes Sondagens da FIEC indicam uma recuperação da intenção de investir em níveis superiores aos do período pré-pandemia, com a retomada da utilização de capacidades e uma leve recuperação do nível dos estoques. Além disso, houve crescimento no número de empregados do setor e uma certa dinamização do mercado interno devido ao valor significativo transferido ao estado através do auxílio emergencial, redirecionando parte do consumo das famílias para a indústria. Em direção a esses resultados, a expectativa é que, principalmente para o primeiro semestre, a recuperação venha com níveis consideravelmente superiores aos do primeiro semestre de 2020. De qualquer forma, vale ressaltar que o fim do auxílio emergencial combinado à ausência de medidas pró-crescimento da demanda provavelmente levem a um impacto negativo sobre a demanda do setor. Por isso, acelerar o plano de vacinação e a agenda das reformas administrativa, tributária e política possibilitará a diminuição das incertezas, elevando investimentos e possibilitando uma recuperação mais rápida da economia.

O Otimista: Que projetos ou parcerias a FIEC tem previstos para impulsionar e fortalecer o setor?

Ricardo Cavalcante: Temos investido em parcerias internacionais, promovendo temáticas estratégicas para o desenvolvimento estadual, a exemplo da Economia do Mar e das energias renováveis. Nossa proximidade com o empresariado tem fortalecido nosso papel natural de hub, viabilizando a busca por inteligência para ampliar o leque de oportunidades de negócios, conectando a academia e a indústria, colaborando com as políticas públicas. Na Economia do Mar, a partir da parceria com a ABDI, UFC e Uece, iniciaremos o trabalho de digitalização e rastreamento da cadeia da pesca. Nas energias renováveis, em parceria com Adece e Sebrae, lançamos o primeiro atlas eólico e solar interativo do Brasil. Temos atuado em conjunto com o Governo Estadual para posicionar competitivamente o Ceará em tendências estratégicas, a exemplo hidrogênio verde. Destaco ainda o trabalho em conjunto entre o Ministério da Economia e nosso Observatório da Indústria, onde contribuiremos de forma incisiva para a redução do Custo Brasil, elaborando o Centro de Inteligência do Custo Brasil e construindo metodologias para promover a melhoria dos ambientes de negócios.

O Otimista: O senhor, neste mês de fevereiro, vai assumir a presidência da Associação Nordeste Forte. Que contribuição a Associação pode trazer para a Região?

Ricardo Cavalcante: O meu papel na Associação Nordeste Forte será construir conjuntamente uma agenda de ações que possibilitem aproveitarmos o potencial criativo e inovador da região, buscando a identificação e a articulação das obras de infraestrutura necessárias à competitividade da indústria, das melhorias necessárias ao ambiente de negócios para impulsionar o desenvolvimento de diversos setores estratégicos, a exemplo das energias renováveis, e trabalhar os temas estratégicos e transversais da região NE,  viabilizando grandes projetos que vão fazer a diferença na competitividade da indústria nordestina. Também queremos multiplicar modelos de excelência locais, a exemplo do nosso Observatório da Indústria, do Programa de Inovação Industrial e da Plataforma de Desenvolvimento da Indústria, projetos-chave para fortalecer a integração entre academia, indústria e governo para aumento da competitividade da região.

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