Economia

58% dos domicílios cearenses receberam auxílio emergencial em agosto

Ceará ocupa a 9ª colocação no ranking nacional e 5ª no Nordeste nos indicadores de lares que receberam o auxílio. Amapá é o primeiro, e Santa Catarina, o último

Marta Bruno

martabruno@ootimista.com.br

Em agosto, dos 26 estados brasileiros e Distrito Federal, os 16 que mais obtiveram o auxílio emergencial ficam nas regiões Norte e Nordeste, sendo que o Ceará ocupa a 9ª colocação no ranking nacional e 5ª no Nordeste na quantidade de domicílios que mais receberam o auxílio. Aqui, mais da metade dos lares, 58,6%, receberam, em agosto, o benefício em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

O Amapá foi o estado que teve maior distribuição do benefício em domicílios (71,4%), enquanto Santa Catarina (24,8%) foi o com menos lares contemplados. Os dados são do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), a partir de indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os estados com maiores índices de domicílios que receberam a renda são Amapá (71,4%), Maranhão (65,5%), Pará (64,5%), Alagoas (63,5%), Amazonas (61,9%), Piauí (61,8%), Acre (60,5%), Bahia (58,8%), Ceará (58,6%), Sergipe (57,8%), Pernambuco (56,4%), Rio Grande do Norte (56,3%), Paraíba (56%), Roraima (54,1%), Tocantins (52,2%) e Rondônia (50,3%). A partir do 17º no ranking, em todos o indicador não atingiu metade dos domicílios. Após Rondônia aparecem Espírito Santo (45,3%), Goiás (45,1%), Mato Grosso (42,5%), Mato Grosso do Sul (41%), Minas Gerais (40,7%), Rio de Janeiro (36,9%), Paraná (36,2%), São Paulo (34,8%), Distrito Federal (33,6%), Rio Grande do Sul (29,2%) e Santa Catarina (24,8%).

Para a autora do estudo e assessora técnica do Ipece, Raquel Sales, a pandemia tornou mais evidente a vulnerabilidade social do país, especialmente do Nordeste. “O Ceará se destaca nesse contexto, principalmente quando falamos dos informais. São características histórias que levam o estado a precisar desse benefício e de outros de renda mínima. A baixa escolaridade e renda das famílias resulta nessa situação de vulnerabilidade”, explica a economista.

Nos domicílios cearenses que contaram com o auxílio em agosto, em 46,2% dos domicílios o principal responsável financeiro tem nível de escolaridade com instrução até o ensino fundamental ou sem instrução. Ainda nesses lares contemplados, em 30,5% os responsáveis têm ensino médio com superior incompleto e, em 4,7%, ensino superior completo ou pós-graduação. “É a força da informalidade. Na maioria dos lares contemplados os empregos não são associados à escolaridade, mas à informalidade. Essas pessoas já estavam no mercado informal ou perderam o emprego formal porque estavam em atividade muito afetada pela pandemia”, explica.

Para Raquel Sales, que é mestre em Economia no Setor Público pelo Programa de Pós-Graduação em Economia (Caen, da Universidade Federal do Ceará – UFC), só uma melhora significativa na escolaridade e na proteção à infância poderão transformar o quadro de necessidade de assistência e de vulnerabilidade social. Isso porque, mesmo com o auxílio, o rendimento por domicílio é considerado baixo, mesmo com o auxílio. Pela média do rendimento proveniente do benefício recebido nos lares em agosto, Alagoas foi o que apresentou o maior rendimento, com R$ 1.058, enquanto Santa Catarina obteve o menor (R$ 786). Significa que, em cada casa, a renda de toda a família somou esses valores, por estado, com o benefício.

Os dez estados que obtiveram os valores com as maiores médias de rendimento proveniente do auxílio emergencial foram Alagoas (R$ 1.058), Maranhão (R$ 1.049), Amapá (R$ 1.037), Pará (R$ 977), Piauí (R$ 955), Acre (R$ 961), Sergipe (R$ 958), Amazonas (R$ 955), Paraíba (R$ 949) e Bahia (R$ 945). O Ceará ocupou a 11ª posição entre as unidades federativas de maior média de rendimento: R$ 937. Em seguida surgem Tocantins (R$ 926), Rio Grande do Norte (R$ 919), Distrito Federal (R$ 917), Rondônia (R$ 915), Pernambuco (R$ 912), Roraima (R$ 912), Rio de Janeiro (R$ 885), Rio Grande do Sul (R$ 867), Mato Grosso do Sul (R$ 858), Minas Gerais (R$ 856), São Paulo (R$ 852), Goiás (R$ 850), Paraná (R$ 840), Mato Grosso (R$ 824), Espírito Santo (R$ 832) e Santa Catarina (R$ 786).

“Essa renda, em geral, é muito baixa. Quando se credenciam as condições dos nossos domicílios e da população, é preciso reforçar um conjunto de fatores, como os cuidados na infância, a aplicação correta das vacinas, a presença na escola, as visitas domiciliares. É necessária uma política que sirva de guarda-chuva, que pense no amparo, na atenção básica em todos os sentidos”, diz, citando como exemplos positivos de atuação os programas Criança Mais Feliz, do Governo Federal, e o Mais Infância, do Estado.

Instituída em 2016, a iniciativa federal de caráter intersetorial busca promover o desenvolvimento integral na primeira infância, considerando a família e o contexto social. Já o programa do Estado, criado em 2015, tem ações em diversas secretarias e contempla o desenvolvimento infantil a partir de quatro pilares: Tempo de Nascer, Tempo de Crescer, Tempo de Brincar e Tempo de Aprender. “Aqui no Ceará, as ações buscam quebrar um ciclo histórico de desigualdade, para que lá na frente todo mundo entre na pista em condições iguais ou parecidas de atuação. Essa busca não é só no Brasil. Vários estudos mostram que o contexto influencia nas oportunidades. Não é só a escola, é o cuidado, o desenvolvimento, as questões cognitivas, as vacinas em dia. Os impactos desse olhar vamos ver lá na frente, no mercado de trabalho, na formação social e psicológica das pessoas”, ressalta. Do contrário, Raquel Lopes acredita que antigos clientes de programas de renda mínima continuarão o ciclo de necessidade assistencial por gerações.

Para a conselheira do Conselho Regional de Economia (Corecon), Darla Lopes, o auxílio, como o próprio nome classifica, é um apoio nesse momento de crise. Em alguns casos, o benefício supre necessidades básicas e, em outros, surge como opção para monetizar soluções e gerar renda. “As famílias precisam buscar alternativa, até porque esse momento delicado, de crise, traz ensinamentos importantes. Se não foi possível trabalhar formalmente, é possível dar assessoria de forma online, dar aulas, ensinar algo, para não ficar totalmente dependente do auxílio, tendo em vista que ele entra na renda como um auxílio para ajudar nas necessidades, não necessariamente suprir todas elas”, analisa.

A conselheira acredita que falta, na população em geral, conhecimento e prática de educação financeira. “Muitas famílias não tinham um preparo, um planejamento financeiro pessoal. Seria necessária uma reserva financeira para passar por um período de contingência. A falta disso mostra que ainda há um ciclo vicioso predominante da falta de educação financeira. Junto a isso se junta a tendência arcaica da sobrevivência. As pessoas se apegam ao imediato, somente ao hoje, à manutenção da vida presente. Não existe um viés futuro a médio e longo prazo”, considera.

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