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“[…] temos obrigação de fazer isso acontecer o mais rápido possível”, diz coordenadora dos estudos de vacina cearense

À frente do LBBM da Uece, Izabel Florindo coordena as pesquisas em torno da HH-120-Defenser, cotada para ser a primeira vacina genuinamente cearense contra o novo coronavírus. A docente conversou com O Otimista sobre como o projeto teve início, os próximos passos dele e outros temas

Kelly Hekally
kellyhekally@ootimista.com.br

Foto: Edimar Soares

Nem há décadas ou mesmo do alto de seus atuais 66 anos, Izabel Florindo Guedes imaginou que estaria à frente de uma das mais belas esperanças que nascem neste contexto de vulnerabilidade em que vivemos: o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus.

Agrônoma, mestre em Fitotecnia, doutora em Bioquímica e pós-doutora em Bioquímica de Proteínas e Biologia Molecular, a professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ainda que despropositadamente, voltou os olhares de todo Brasil para a ciência local quando, junto de doutorandos da instituição, anunciou os estudos em torno de um possível imunizante genuinamente cearense.

A hoje missão em torno do combate à covid-19 teve início em abril de 2020, quando um dos alunos de Izabel, Ney de Carvalho Almeida, chamou-a para que investissem cientificamente no que à época estava cotado para ser a tese de doutorado de Almeida. “O Ney […] já vinha trabalhando com um tipo de coronavírus para testar a resposta imunológica. Fomos à UFC [Universidade Federal do Ceará] em busca de camundongos sem nem pensar se teríamos dinheiro para a pesquisa. Compramos e começamos a trabalhar.”

O resultado, conta a docente, foi promissor, a ponto de o empenho intelectual de toda uma equipe voltar-se para algo que, tomara, possamos chamar de vacina cearense daqui a alguns meses. Atualmente, a Uece está em tratativas iniciais com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a submissão do pedido de início de testes da fase clínica, em humanos, do imunobiológico.

Em conversa com O Otimista na semana passada, a professora falou sobre o momento da pesquisa e outras temáticas relacionadas direta e indiretamente aos estudos. Confira.

O Otimista – Professora, conte um pouco da sua trajetória na seara da pesquisa, por favor.
Izabel Florindo – Eu terminei meu mestrado em 1983. Casei logo depois e tive filhos. Passei oito anos só sendo mãe. Quando voltei, fiz meu doutorado e consegui uma bolsa de pesquisadora do CNPQ [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Em seguida, fiz concurso para o Programa de Doutorado em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia para professora. Apesar de ter tido condições de fazer concurso para outras instituições, eu sabia que meu lugar era no campo da pesquisa. Era o que importava para mim. Na Uece, comecei a trabalhar com pesquisa. Hoje, lido com alunos de diversos campos da ciência na pós-graduação, especialização, mestrado, doutorado, por exemplo, nas áreas da Nutrição, Medicina, Tecnologia, entre outras.

O Otimista – A pesquisa da HH-120-Defenser teve início logo após a chegada da pandemia ao Brasil…
Izabel Florindo – A ideia de trabalhar com a pesquisa começou logo com a pandemia. O Ney, doutorando aluno meu, já vinha trabalhando com um tipo de coronavírus para testar a resposta imunológica. Fomos à UFC [Universidade Federal do Ceará] em busca de camundongo, sem nem pensar se teríamos dinheiro para a pesquisa. Compramos e começamos a trabalhar. Até então, seria somente a tese de doutorado do Ney. Os resultados foram muito promissores, e desmembramos na possibilidade de testar uma vacina. Seguimos com ela, aguardando inclusive aparecer algum edital. Tivemos hoje [quinta-feira, dia 13] uma reunião com a Anvisa, e eles nos pediram mais testes. Esperamos em breve estar na fase clínica. O Centro de Medicamentos da UFC vai acompanhar os estudos clínicos, quando eles começarem.

O Otimista – O novo coronavírus pegou o mundo todo desprevenido. Qual a sua leitura sobre a rapidez com que tudo ocorreu?
Izabel Florindo – No início, acho que ninguém acreditou que a covid-19 seria tão devastadora. Tínhamos enfrentado outros vírus e então pensamos que seria passageiro. Com a demora e o aumento dos casos confirmados e a chegada ao Brasil, começamos, como sociedade, a ficar assustados. Como pesquisadores brasileiros, não paramos. E aqui é importante destacar a relevante contribuição também da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz].

O Otimista – Quantas pessoas estão envolvidas diretamente nas pesquisas HH-120-Defenser?
Izabel Florindo – Temos aproximadamente dez pessoas no laboratório atuando diretamente nos estudos da vacina. Todas as pessoas doutorandas. Nos dividimos na coleta de materiais, como soro, de testes. São dez pessoas da Biotecnologia. Temos no laboratório outro projeto de vacina com proteína recombinante, de diagnóstico rápido de covid, e outros estudos relacionados ao novo coronavírus.

O Otimista – Um dos aspectos que mais chamaram atenção quando houve o anúncio dos estudos da vacina foi o valor a que ela deve ser oferecida. A dose sairá na faixa de R$ 0,45. Como será possível, professora?
Izabel Florindo – Temos a estimativa de que será uma vacina barata, mas depende de quem vai negociar. Vamos fazer uma próxima reunião com a Anvisa, e é preciso estar com essas questões pensadas, para tentar seguir com a submissão junto ao órgão. Temos já um centro de testagem, que num primeiro momento será voltado a 100 voluntários da vacina.

O Otimista – Voltando um pouco para as etapas científicas: qual a programação dos estudos da fase clínica?
Izabel Florindo – A seleção será com pessoas de Fortaleza, excluindo-se, claro, grávidas e pessoas com comorbidades, entre 18 e 60 anos. Todos passarão por uma avaliação médica prévia, com hemograma e outros exames. A equipe médica já está formada. Se o candidato a voluntário tiver sido vacinado, não poderá participar. O acompanhamento dos selecionados será realizado a cada 15 dias durante os testes, período em que vamos monitorar se houve alguma reação adversa e se a pessoa teve a imunização estabelecida. Na fase seguinte, a segunda, serão 150 voluntários.

O Otimista – A pandemia nos trouxe um contexto há muito tempo não vivenciado de maneira tão efusiva, que é a dicotomia entre ciência e senso comum. Como cientista, como é ter que lidar com esse embate, sobretudo no campo de desenvolvimento de vacinas?
Izabel Florindo – A sociedade tem que se conscientizar de que quem tomar a vacina terá pelo menos 50% menor chance de ter uma doença terrível como a covid-19. Não deveria existir entre nós esse pensamento de não tomar a vacina. Talvez, seja falta de conhecimento, porém não é o momento de escolher ou ter preconceito. É a arma que temos hoje para combater o coronavírus. Temos pessoas que descobriram a vacina para nos proteger.

O Otimista – A senhora está com 66 anos, ou seja, na terceira idade, como alguns gostam de chamar, e é mulher… Como é ocupar o espaço que ocupa, conciliando esses dois fatores em um País ainda tão arraigado aos costumes patriarcais e ao machismo?
Izabel Florindo – Eu me sinto até elogiada por estar nesta idade totalmente ativa e saudável. Hoje, cheguei cedo na Uece e só saio ao fim da tarde. Existe uma luta nossa de mulheres, uma luta permanente. Algumas estão resolvendo abraçar a dupla carga, que é trabalhar e ser mãe. Nem todas, infelizmente, conseguem chegar aonde deveriam… Sinto-me feliz por conciliar. Acabei me atrasando um pouco por causa dos meus filhos, mas quando resolvi voltar me entreguei totalmente. Estar no meio de homens não é fácil – você como mulher sabe disso. Mas penso sempre “Se um homem pode coordenar, por que eu não posso?” Oriento médicos, médicos veterinários, nutricionistas. Todos me tratam com muito respeito, sem discriminação pela minha idade ou pelo fato de eu ser mulher.

O Otimista – Conte para nós, por favor: em uma escala de zero a dez, qual a probabilidade da vacina HH-120-Defenser dar certo?
Izabel Florindo – (Risos). Nada na vida surge para ser 100%. Vamos dizer que seja de 8,5, mas, no fundo, no fundo, acho que eu poderia dizer que é 10 (risos).

O Otimista – E, em termos de tempo, quanto devemos esperar entre estes trâmites iniciais que estão ocorrendo e uma resposta definitiva sobre a eficácia e a biossegurança da vacina cearense?
Izabel Florindo – Espero que seja o menor tempo possível, porque o momento é desafiador. Enquanto pesquisadores, sabemos que a vacina é promissora. O governador demonstrou interesse em ajudar com aporte financeiro, e nós temos obrigação de fazer isso acontecer o mais rápido possível.

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