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Silas de Paula avalia primeiros meses da reabertura do MIS; equipamento estará a pleno vapor em julho

Aberto há cerca de dois meses após requalificações, o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE) trabalha para se tornar plural e acessível a todos os públicos, além de se modernizar, objetivando o pleno funcionamento. Silas de Paula, diretor do equipamento, faz um balanço deste início e aponta desafios e vitórias

 Danielber Noronha 

danielber@ootimista.com.br

Silas de Paula

Museu da Imagem e do Som do Ceará Chico Albuquerque (MIS-CE) tem provocado inúmeras sensações nos visitantes ao longo dos pouco mais de dois meses desde a reinauguração. Situada no bairro Meireles, em Fortaleza, a nova estrutura conta com laboratórios de conservação e higienização, além de espaços para digitalização e restauro digital, laboratório fotográfico, ilhas de edição e outros espaços que devem dar robustez à produção audiovisual do Estado, além de ajudar a resguardar a memória do povo cearense.

À frente disso tudo está o fotógrafo, professor e pesquisador Silas de Paula. Ao O Otimista, ele detalhou como tem sido gerir o equipamento em parceria com o Instituto Mirante de Cultura e Arte, além do propósito da casa de ser acolhedora a todos. “O maior desafio é ‘como e o que’ disponibilizar, dos diversos Ceará(s), para o público”, define.

Silas assumiu a posição no início de 2019, quando o equipamento já se encontrava em obras. A ideia era abrir as portas do MIS em 2020, plano que foi suspenso em virtude da pandemia. Foi também por conta da crise, explica, que o espaço ainda não está funcionando com 100% da capacidade. “A tecnologia avança muito rápido e recebemos máquinas de última geração. O sistema precisou ser refeito, softwares, cabeamento, ajustes etc.”, explica. Sendo assim, a equipe passará por um treinamento para lidar com os aparatos, a ser iniciado nesta quarta-feira (15). A previsão é de que esteja em pleno funcionamento já a partir de julho.

Embora recente, a reinauguração foi acompanhada de um problema pontual em relação às apresentações musicais no espaço, interrompidas após queixas da vizinhança. A solução, de acordo com Silas, está sendo pensar shows mais intimistas. Ao longo desses dois meses, pelo menos 12 mil pessoas visitaram o MIS. Ao ser questionado sobre o peso do museu no cenário cultural, Silas projeta que este deva adquirir “um peso enorme, não só para o Ceará, mas para o Brasil”. Na entrevista, ele avalia o fomento à política cultural no Ceará, a condução do Governo Federal na temática e o acesso à cultura por parte das minorias. Confira!

O Otimista – Como tem sido, depois de todo esse tempo de espera, estar no cargo após a reabertura e requalificação?

Silas de Paula – Alívio e alegria. Estávamos prontos em março de 2020, combinados com a Secult [Secretaria da Cultura do Estado do Ceará] para submeter a ideia do projeto às críticas e sugestões dos diversos grupos no Ceará – artistas, produtores culturais, associações etc. –, mas o surto de covid-19 impossibilitou qualquer reunião presencial. Fizemos várias virtuais, mas a situação era complexa. O início da pandemia foi assustador e não conseguimos dar a visibilidade necessária ao projeto. Foram dois anos complicados e estamos retomando esses encontros. Contudo, era necessário reabrir o MIS e cumprir parte das metas propostas é muito gratificante.  É só o início, temos muito o que fazer. Para o Contrato de Gestão com o Governo do Ceará, a Secult criou uma O.S. – Instituto Mirante de Cultura e Arte – que é responsável pelos novos equipamentos.

O Otimista – Quais os desafios de estar à frente de um equipamento da magnitude que tem o MIS? 
Silas – O momento atual brasileiro, com a cultura e a arte em xeque, nos traz uma enorme responsabilidade. É fundamental – parafraseando Giorgio Agamben – ‘olhar o passado, tendo em vista o futuro para trabalhar o presente.’ O que nos obriga a celebrar ou salvar o que sentimos está em perigo de desaparecimento; algo que se torna mais aparente quando a memória ou evidência da experiência de várias gerações começa a desaparecer. O passado do Brasil (e do mundo) está sendo reescrito por forças conservadoras – o que não é novidade, mas é preocupante pela intensidade e qualidade desses processos no mundo, principalmente nas redes digitais. O maior desafio é ‘como e o que’ disponibilizar, dos diversos Ceará(s), para o público. Além das propostas em andamento é necessário, ainda, receber as demandas e construir processos mais democráticos, colocando um ponto de interrogação nas estruturas conservadoras. A nossa grande questão é ouvir e trabalhar junto aos diversos grupos [in]visibilizados por um processo perene de não-atenção. Com a tecnologia adquirida, equipe criativa e espaços abertos sem exclusão, não podemos caminhar sem esquecer o passado, mas visando o futuro e o papel do MIS na contemporaneidade. O museu, além da sua política de acervo, é laboratório, um espaço de experimentação crítica procurando um recorte para sua atuação. Imagem e som funcionam como um grande guarda-chuva que nos norteia, mas é muito amplo. Não é fácil e é um trabalho em progresso. Apesar do grande investimento feito pelo Governo do Estado, não há recurso suficiente para as demandas necessárias e cada vez maiores dos equipamentos da Secult e de sua política cultural. É necessário criar parcerias, prestar serviços, procurar patrocínios. É um grande desafio, mas possível.

O Otimista – O senhor também foi diretor do Instituto Dragão do Mar. Essa experiência prévia tem ajudado de alguma maneira no cargo atual? Se sim, pode comentar? 
Silas – O Instituto Dragão do Mar foi uma das melhores experiências que vivi e me sinto muito honrado em ter sido convidado a participar do projeto. Grande história de educação e produção, uma formação em arte e cultura com dimensão inédita no Brasil, até hoje. A questão educacional já fazia parte da minha vida, sou professor, mas gerir um processo tão complexo que atingia a maior parte dos municípios cearenses, me ensinou muito sobre a gestão da coisa pública. Além disso, a convivência com professores, artistas e alunos das diversas linguagens enriquece qualquer pessoa. Trago esse caminho percorrido para ajudar a pensar o MIS.

O Otimista – Estamos falando de um equipamento público, situado em uma das áreas mais nobres de Fortaleza. Como estão atuando para fazer o MIS ser atrativo a todos os fortalezenses e não acabar restrito apenas aos moradores das proximidades? Existe uma equipe de curadoria que entra em ação neste momento?  
Silas – Está escrito em nosso plano de ação: ‘um museu público pertence às comunidades e são elas que darão apoio contínuo se fizerem parte do processo’. Comunidades no plural, para enfrentar os desafios de um tratamento seletivo dos bens patrimoniais e não o culto a uma identidade genérica que não privilegia a heterogeneidade das culturas. Para isso estamos criando estruturas de articulações em torno de temas e desafios, para criar comunidades que poderão gerar conteúdo para difusão, eventos diversos e atividades de aprendizagem. Os núcleos de produção e difusão, ação educativa, tecnologia de informação e comunicação [TICs] estão se preparando para isso, pensando inclusive em compartilhamento da curadoria em alguns processos.

O Otimista – Hoje, o MIS está funcionando em plena capacidade ou ainda há espaços em processo de construção? Em caso positivo, o que ainda está pendente e quando deve ser entregue? 
Silas – A parte civil (prédio) está pronta. Estamos reajustando a parte tecnológica em função do atraso na importação de algumas máquinas fundamentais, mas já chegaram. Conseguimos inaugurar o novo prédio com ajustes e máquinas cedidas pela empresa que ganhou a licitação e precisava cumprir as datas do contrato assinado com a Secult. Como já disse, a pandemia atrapalhou todo o processo, inclusive na importação de equipamentos, um problema global. No entanto, o contrato estipulava que a empresa deveria entregar equipamentos listados ou superiores. A tecnologia avança muito rápido e recebemos máquinas de última geração. O sistema precisou ser refeito, softwares, cabeamento, ajustes etc. Não sei explicar direito, não é a minha área. Mas sei que vai ficar melhor, mas para isso é necessário o treinamento da equipe. O que será feito a partir desta quarta-feira (15). Em julho estaremos em pleno funcionamento.

O Otimista – No quesito da recuperação e restauração de obras audiovisuais, como estamos hoje quando comparado ao período anterior à requalificação do espaço? Conseguimos avançar? 
Silas – Temos uma ampla reserva técnica com todos os quesitos necessários, uma ótima equipe técnica e laboratórios com equipamentos de última geração. Não é só um avanço, é um grande salto qualitativo.

O Otimista – Logo no início, houve aquele problema do barulho provocado pelas apresentações musicais do MIS. Em que pé isso ficou? Conseguiram encontrar uma solução para que estes shows voltem a ocorrer? 
Silas – Sim, a apresentação foi um erro e pedimos desculpas publicamente. Mesmo com a altura do som que estava nos padrões legais, é algo que não acontecerá novamente. Vizinhança muito próxima, além dos hospitais. Qualquer show será mais intimista.

O Otimista – Faz pouco mais de dois meses que o novo MIS foi inaugurado. Qual o saldo até aqui, pode fazer um balanço desses primeiros 60 dias? 
Silas – Superou em muito as expectativas, um grande sucesso, mesmo com o prédio anexo fechado. Filas enormes nos exigiram repensar a recepção ao público que foi de 12.584 pessoas até agora. Mas foi muito mais, muita gente não assina o livro de visitas e na praça é mais difícil de contabilizar.

O Otimista – Talvez seja cedo para perguntar, mas qual peso o MIS tem hoje para a cena cultural do Ceará ou que terá daqui há alguns anos? 
Silas – Tem um potencial enorme, mas qualquer previsão agora seria uma futurologia. Próximo ano, com a experiência adquirida, poderemos ter uma resposta mais objetiva. Mas tenho certeza de que vai ter um peso enorme, não só no Ceará, mas no Brasil.

O Otimista – Em paralelo à inauguração do MIS, ganhamos também a Estação das Artes. Na avaliação do senhor, o Ceará tem conseguido avançar na democratização do acesso à arte e à cultura? 
Silas – A democratização da cultura é uma meta, distante ainda. Mas o Governo do Estado e a Secult, junto com todos os equipamentos, vêm trabalhando arduamente para caminhar nesse sentido. Acho que avançamos em diversos aspectos, mas falta muito ainda.  Uma utopia a ser perseguida.

O Otimista – Em contrapartida, vemos o Governo Federal vetar leis de incentivo cultural como a nova Aldir Blanc e a lei Paulo Gustavo. Quais os prejuízos para a população desse descompasso? 
Silas – Educação, Cultura e Arte. Educação Cultura e Arte. O governo Bolsonaro é predador. Vamos levar muito tempo para recuperar os prejuízos.

O Otimista – Por fim, pode deixar a dica da atração favorita do senhor no Mis aos leitores do O Otimista e o convite para irem conhecer o equipamento?
Silas – A sala de imersão. Um espaço de encantamento, de possibilidades infinitas para som e imagem. Mas o convite é para todos os espaços, a praça é um local incrível com uma série de eventos, projeções etc.; o Laboratório de Sentidos é fascinante e a exposição Leocácio Ferreira, nosso mestre fotógrafo, ajuda a recuperar uma dívida com personagens cearenses que merecem um protagonismo maior.

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